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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Lisboa por João Vaz em 1919

Entre os quadros de Malhoa, pendura-se a Lisboa, de João Vaz.

Lisboa, João Vaz.
invaluable

O mestre marinhista, que há cinco anos expusera o Cais do Terreiro do Paço, transferiu-se agora ao pontal de Cacilhas, para pintar numa larga tela, onde o Tejo bole e há velas alaranjadas e a laranja duma bola, o panorama, tão gabado da cidade ribeirinha.

Cais [do Terreiro do Paço] das Colunas, João Vaz (1859-1931), c. 1914
Casa Museu Medeiros e Almeida

Duma grande placidez e claridade, o meticuloso trabalho atesta uma rara honestidade de processo.

Lisboa, João Vaz, c. 1918.
(Pintura a óleo representando um cais, foto Guedes)
Arquivo Municipal do Porto

É pena, na verdade, que a Câmara o não recolhesse. (1)


(1) Atlântida n.º 39, junho de 1919

Tema:
Grupo do Leão

Informação relacionada:
Obra de João Vaz I (fb)
Obra de João Vaz II (fb)

Mais informação:
Ilustração Portugueza n.° 689, 5 de maio de 1919
Ilustração Portugueza n.° 768, 8 de novembro de 1920

terça-feira, 28 de maio de 2019

Aviões amarados

As the Clippers fly, Europe is only 23 hours from New York. Twice each week, weather permitting. the great flying ships whir up from North Beach airport and head out over the Atlantic for Horta, in the Azores, and Lisbon. Portugal. 

Tagus River emptying into the Atlantic ocean as seen from a Pan Am clipper 1940.
Google Arts & Culture Life Pan Am Clipper

With such a Hight LIFE begins this "America and The World" issue. not only because it makes a swift and dramatic transit from the troubled peace of the U.S. to the war world of Europe. but also because it signifies better than anything else what a narrow harrier the Atlantic Ocean has become between the two continents. 

No one knew, when Pan American sent the first Clipper off last spring, how vital this transatlantic service would suddenly become. It was war which put the Clippers over. Flying the Atlantic changed, almost overnight, from adventure to the fastest, pleasantest, even the safest, way to get to Europe. For Pan American last winter was an airline's nightmare. 

Dixie Clipper completes first transatlantic passenger flight
New York to Lisbon, Portugal, June 29, 1939 / Boeing B-314, John T. McCoy Painting of 1939.
Port Washington Aviation History

Weather over the Atlantic was the worst in 75 years and, while storms seldom stop the Clippers, high waves in !forts harbor hold them up for weeks on end. The New York landing base froze over, then Baltimore, then Norfolk, then Charleston, finally forcing the Clipper to land at Miami. 

Mail piled up by unforeseen tons, passengers fought for seats and the British censors searched all mail at Bermuda until March, when Pan American cut out its Bermuda stop. From this hectic winter Pan American has emerged with flying colors and a perfect record. Under the greatest pressure it stuck to the strictest safety standards. 

Boeing B-314, Pan Am Clipper Service.

War weeded out the casual voyagers, leaving only those with pressing reason to travel. Since last September the Clippers have been the best internation-al club in the world. Dues are high ($893 one way), though no higher than the best cabins on the best liners. Members are invariably interesting. often head-line names. 

There is excellent conversation in three or four languages, and a striking absence of social ice to break, for the air and the war combine to produce an easy good fellowship of the Atlantic traveling elite. 

LIFE has been privileged to take the first pictures of a Clipper flight. On this flight the Atlantic Clipper carried 948 lb. of mail and 18 passengers.

These were: Archduke Otto of Habsburg, pretender to the Austro-Hungarian throne: Eve Curie; Charles Rist, French Government economist: three other Frenchmen; a Swiss lady returning from Palm Beach; a beautiful American girl going to join her British husband, an R. A. F. flier: two Portuguese; a Dutch engineer: Otto's aide; four American businessmen; and LIFE's Photographer Bernard Hoffman and Associate Editor Joseph J. Thorndike Jr. 

Waves at Horta delayed the flight over a week. But once started, it was smoother than any train ride. Passengers moved about freely in the three main cabins and lounge, fell into groups by interests and languages. ate well, slept soundly in comfortable berths. After dark the Clipper passed through a half-hour storm so smoothly that no passenger knew it until later. There is almost no feeling of movement. 

Clipper One night in Lisbon 1941 movie 01
IMDb

Only scary thing about the Clipper trip, for an American. is the sensation of going aboard in New York, floating in the sky for a hare 43 hours and stepping out on a continent flaming with war. (1)

Como é do conhecimento de V. Ex.as é no Cabo Ruivo, no extremo de uma extensa ponte de betão armado, que amaram os hidro-aviões da "Pan-América" e da "Overseas Airways". 



Aqui, é que persiste ainda uma instalação provisória, mas possível e precisamente porque ela nao foi feita propositadamente para ser provisória, e ainda que seja certo que a complicação de formalidades para o vôo, que vão até à pesagem dos passageiros, chegando a forçar alguns a não poderem seguir viagem, obriguem, em contraste com o espírito do sistema, a demorada permanência nas instalações, a sensação que se recebe não é desagradável. 

Annabella e Tyrone Power, dois artistas notáveis do cinema passaram há dias por Lisboa, a caminho de liollywood e que lamentaram não poder demorar-se cai Portugal a fim de visitar êste belo Pais de que têm ouvido contar maravilhas.
Ilustração, 16 de setembro de 1939

E tal se consegue porque uma bem cuidada adaptação de um edifício já existente, a sua impecável limpesa e a sua rusticidade visivelmente bem aproveitada, senão valorisada, são completadas com pormenores de instalações de serviço de bom aspecto e comodidade. 

Propositadamente, deixámos para o fim os reparos que a viagem que estamos fazendo pelas diferentes espécies de instalações para Comunicações na margem do Tejo podiam aqui suscitar. 



A única cousa a que sõbre esta instalação teriamos de apresentar observações — o acesso por terra — não nos referiremos, porque êste provisório deve ser realmente provisório dado que a primeira empreitada para execução dos trabalhos necessários para a construção do aeroporto definitivo, vimo-la já há tempos anunciada e que o Decreto 32.901 últimamente publicado já para tais obras consigna a verba de 8.000 contos. 

O novo e definitivo aeroporto, ficará situado 1 km. a montante, na foz da Ribeira dos Olivais, onde uma larga doca de 440m x 180; subtrairá os hidros à acção desencontrada das correntes aéreas e das fluviais, principal dificuldade com que êles têm de lutar e inconveniente da actual instalação. 

No terrapleno, serão construidas instalações para o serviço aéro-marítimo, que, em ante-projecto, compreenderão um edifício de estação de 100m x 20m armazens, hangars, depósitos, etc., conjunto enquadrado num arranjo urbanístico que permitirá o acesso pela Rua de Cintura do Pôrto e pela futura Avenida Infante D. Henrique, que começando no Terreiro do Paço, passando pela frente do Edifício da antiga Alfândega, Rua João Evangelista, etc., acompanhará paralelamente a margem, dela apenas separada pela linha férrea e instalações do pôrto. 

Aeroporto Marítimo de Lisboa, Mário Novais, 1940.
flickr

Os estrangulamentos que, em certos locais, o espaço livre apresenta, permitirão, pela ausência de Armazens, vista desembaraçada do Rio e, a partir de determinado ponto, o traçado da Avenida a meia-encosta terá, sabre todas as instalações, comandamento. 

Finalmente, no arranjo a que nos referimos, uma larga Avenida permitirá outra ligação com a Cidade e directa com o Aéroporto terrestre, para onde, despedindo-nos da margem dg Tejo, nos encaminharemos agora, depois da simples, mas afigura-se-nos curiosa indicação, de que o Aéroporto Marítimo a construir, está estimado em 30.000 contos mas que só um Clipper custa entre 20 a 25.000! 

Planta Geral do Aeroporto Marítimo de Lisboa, Mário Novais, 1940.
flickr

Pelo plano que juntamos tomarão V. Ex." conhecimento do projectado. (2)


(1) Life, June 3, 1940
(2) Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1352, 16 de abril de 1944

Artigos relacionados:
Dornier Do X1 no areal do Alfeite em janeiro de 1931

Mais informãção:
Na rota do Yankee Clipper
"Clippers" em Portugal
Google Arts & Culture Life Pan Am Clipper

Business Insider

Fotografias antigas do principal aeroporto de Portugal
Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo



A propósito dos acidentes em 1943:

Crash of a Short S.26 G-Class off Lisbon: 13 killed 
Date & Time: Jan 9, 1943 at 1030 LT 
Type of aircraft: Short S.26 G-Class 
Operator: Registration: G-AFCK Flight 
Phase: Landing (descent or approach) 
Flight Type: Scheduled Revenue Flight Survivors: Yes 
Site: Lake, Sea, Ocean, River 
Schedule: Lisbon – London 
MSN: S.873 
YOM: 1937 
Location: Lisbon Estremadura - Lisbon District 
Country: Portugal 
Region: Europe 
Crew on board: 6 
Pax on board: 9 
Total fatalities: 13

Circumstances: Twenty minutes after his departure from Lisbon, bound for London, the crew encountered technical problems and decided to return to Lisbon. While descending to an altitude of 1,200 feet, the crew experienced strong vibrations and smoke spread in the cabin and the cockpit as well. The seaplane christened 'Golden Horn' went out of control and crashed into the bay, some 800 meters off shore. The radio operator and a passenger were rescued while 13 other occupants were killed. 

Probable cause: A technical failure occurred on the fourth piston of the sixth cylinder on the engine number three, causing hydraulic fluid and gasoline to spill and ignite in contact with high temperature elements. It was stated that the loss of control was due to the fact that pilots were incapacitated while part of the aircraft was on fire. Also, the number of victim was raised by the fact that the crew did not follow the emergency procedures and that passengers were neither attached nor correctly prepared for such emergency maneuver. (3)

Crash of a Boeing 314A Clipper off Lisbon: 24 killed 
Date & Time: Feb 22, 1943 at 1847 LT 
Type of aircraft: Boeing 314 Clipper 
Operator: Registration: NC18603 
Flight Phase: Landing (descent or approach) 
Flight Type: Scheduled Revenue Flight 
Survivors: Yes 
Site: Lake, Sea, Ocean, River 
Schedule: New York – Hamilton – Horta – Lisbon – Marseille 
MSN: 1990 
YOM: 1939 
Flight number: PA9035 
Location: Lisbon Estremadura - Lisbon District 
Country: Portugal 
Region: Europe 
Crew on board: 12 
Pax on board: 27 
Total fatalities: 24 
Captain / Total flying hours: 14352 
Captain / Total hours on type: 3278.00 
Copilot / Total flying hours: 1706 
Copilot / Total hours on type: 1454 Aircraft flight hours: 8505 

Circumstances: The flight maintained in altitude of approximately 7000 feet until it approached the mouth of the Tagus River, approximately 11 miles from Lisbon, when a gradual let-down was made to about 600 feet. The Portuguese authorities require that this altitude be maintained from the mouth of the river to the landing area. The flight arrived over the area at about 1835 GMT (6:35 p.m. Lisbon time) 3 hours and 52 minutes after take-off from Horta and 15 minutes ahead of its estimated arrival time. Since official sunset was at 6:20 p.m., PanAm's ground crew at Lisbon had set out as usual a string of landing lights, indicating that the landing was to be made from south to north. On this particular occasion the light arrangement was slightly different from normal, since the extreme downwind (south) light, which was usually green in color, had been replaced with a white light. The only reason for this change was that the green bulb had burned out and the PanAm station substituted the white bulb. Captain Sullivan indicated in his testimony that the substitution of lights was not confusing and had no bearing on the accident. This string of five landing lights extended over a distance of approximately 4500 feet. At the time the flight arrived an the area it was still light enough for the aircraft to be observed plainly by personnel in the PanAm launch and on the shore. The PanAm launch had patrolled the landing area east of the string of landing lights and had taken its station near the red light which was the extreme upwind (north) light of the landing strip. The landing conditions and barometric pressure were given to the flight by radio at 6:35 p.m. and were acknowledged with a statement from the flight that they would want flares when both landing lights were blinked. While proceeding in a northeasterly direction, at an estimated speed of 135 knots and at an altitude of between 500 and 600 feet over the area, about 1 1/2 miles east and abeam of the center light in the string of landing lights, the aircraft made a descending, turn to the left which continued until it was headed in a westerly direction when the left wing tip skimmed along the surface of the water, dug in and the plane crashed into the river. It remained partially submerged for approximately 10 minutes, then disappeared below the surface of the river. The PanAm launch, which had been standing by for the landing, proceeded to the scene of the accident, arriving about 10 minutes later, and began rescue operations. The PanAm launch was joined by a BOAC launch (British) and another PanAm launch approximately 10 minutes later. The American actress Tamara Drasin and the American novelist Ben Robertson were killed in the crash while the actress Jane Froman was seriously injured.

Probable cause: It appears that the probable cause of this accident was an inadvertent contact of the left wing tip of the aircraft with the water while making a descending turn preparatory to landing. 

cf.  B3A

sexta-feira, 29 de março de 2019

Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa

Na senda do percurso para o entendimento da pintura do Romantismo em Portugal, seja o de Lisboa, do Tejo, de Sintra, do Porto, e mesmo outros, pensámos que já nos tinhamos referido a Alexandre-Jean Noël (1752-1834) em artigo dedicado, tal como, a seu tempo, sumáriamente fizemos com Nicolas Delerive (1755-1818) e Henri l'Évêque (1769-1832), ou mesmo com Jean-Baptiste Pillement (1728–1808).

Museu de Artes Decorativas de Lisboa.
Sala D. Maria do Museu de Artes Decorativas Portuguesas.
tripadvisor

Todavia tal ainda não tinha acontecido, no entantoo, outros temas, nomeadamente aqueles encomendados por Gérard de Visme, podem ser encontrados em diversos contextos tanto neste blogue, Lisboa e o Tejo, como em Almada Virtual Museum.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre-Jean Noël, início da década de 1790
FRESS

Pintor paisagista, e de marinhas, pré-romântico, ou romântico, barroco para uns, clássico ou neo-clássico para outros, não referenciado por Cyrillo Volkmar Machado, vamos aqui anotar alguns aspectos da sua vida e obra, na perspectiva das existências no Museu de Artes Decorativas de Lisboa.

Vista da parte oriental de Lisboa, Alexandre-Jean Noël, início da década de 1790
FRESS

oooOooo

Noël, Alexandre Jean (Brie-Comte-Robert 1752 - Paris 1834)

Discípulo de Nicolas-Charles de Silvestre e de seu filho Jacques-Augustin assim como de Joseph Vernet [Claude Joseph Vernet (1714-1789)]; aluno da Academie royale, ganhou o terceiro prémio em 1767, antes de se juntar à expedição científica de Jean Chappe à Califórnia como ilustrador.

Noël regressou a França na década de 1770 e a partir daí dividiu o seu tempo entre França e Portugal, comtinuando a produzir imagens topográficas a óleo, aguarela e guache.

Museu de Artes Decorativas de LIsboa.
tripadvisor

Uma notícia de Lisboa apareceu no London Star,16.XII.1791:

"O Sieur Noel, um pintor francês, que ganhou um confortável livelihiood fazendo desenhos de nossos portos e seus arredores, caiu vítima de sua fúria pela Gallic liberty.  

Baluarte de Alcântara, Alexandre-Jean Noël, 1789
[obra idêntica, Clair de lune, em Amiens, Musée de Picardie].
FRESS

Tendo sido frequentemente aconselhado a interromper seus discursos sediciosos, mas em vão, foi preso e colocado a bordo de um navio a pronto a partir, sem questionar para onde.

Rocha do Conde de Óbidos, Alexandre-Jean Noël, 1789.
FRESS

Vários de seus compatriotas foram servidos do mesmo modo: modo que o nosso tribunal adopta sem cerimônia."

Rio Tejo e Torre de Belém (efeito de luar), Alexandre-Jean Noël.
FRESS

Os pastéis que nos deixou foram sem dúvida influenciados por Pillement [Jean-Baptiste Pillement (1728–1808)], mas as composições são no género Vernet [admirador de Poussin e Lorrain ]. (1)


(1) Dictionary of pastellists before 1800, Alexandre-Jean Noël

Galeria de imagens:
tripadvisor

Leitura relacionada:
Restos de Colecção

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Os Cachopos

Se o Conde de Bolonha D. Affonso, Infante de Portugal, teve filhos de sua primcira mulher a Condessa Mathilde (1202 -1259), he hum dos pontos, em que com mayor vigor se tem contendido, e disputado.

A map of the mouth of the famous river Tagus or the harbour of the city of Lisbon (detalhe), William Burgess (1729-1746).
Biblioteca Nacional de Portugal

Em quanto Portugal se conservou separado [de Hespanha], nunca esta materia teve mais fundamento do que a tradição pueril de alguns Historiadores, de quem se pode dizer, que a escreverão para gastarem tempo, e papel com a sua narração, mas depois, que o imprudente valor del Rey D. Sebastião condenou ás masrnorras de Africa no,campo de Alcacere toda a gloria Portugueza, e depoia que a indesculpavel irresolução do Cardeal D. Henrique, que quasi na sepultura cingio a Coroa, deo lugar a que se occupasse o Throno Porruguez pela violencia das armas, e não pela desarmada força do Direito, então he que começou a soar pelo mundo com mayor estrondo a injustiça, que El Rey D. Alfonso III usou com os filhos, que houve de sua primeira mulher a Condessa Mathilde de Bolonha [...]

Vista do Tejo e do palácio da Ajuda, Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

Diz pois a tradição, como referem estes Authores, que sabendo em França a Condessa Mathilde, que seu marido o Infante D. Affonso estava casado em Portugal com D. Brites, filha bastarda de D. Alfonso X Rey de Castella, levada da impaciencia de caso tão feyo e doendolhe vivamente o desprezo da sua pessoa, e do seu amor, viera acompanhada de huma frota a este Reyno, e que chegando a Cascaes, soubera que o infante estava em Frielas, e que por huns criados de grande estimação, e confiança, que consigo trazia, lhe escrevera, representandolhe a indignissima acção, que usava com ella, e pedindolhe, que desse satisfação ao escandalo de toda a Europa.

Descripção da boqua do Tejo, Vincenzo Casale, 1590.
Fortificações da foz do Tejo

Diz mais a tradição, que o Infante sem fazer caso dos seus rogos, nem das suas justificadas representações, lhe respondera com aspereza tão pouco esperada, que desconfiando de conseguir o que pretendia, entre a dor, e a desesperação expuzera os os filhos, que comsigo trazia, na foz do Tejo, donde teve principio o nome de Cachopos que na nossa linguegem antiga he o mesmo que Meninos, e que voltando outra vez para França, se valera do respeito de S. Luiz, que então reynava gloriosamente naquella Monarchia, para que a grande authoridade desse Principe fosse o remedio da sua injuria, o não chegou a ter effeito [...]

A map of the mouth of the famous river Tagus or the harbour of the city of Lisbon (detalhe), William Burgess 1729 - 1746.
Biblioteca Nacional de Portugal

Quem se não ha de rir vendo que escreverão huns homens, que se prezavão de eruditos, que desta acção se derivou o nome de Cachopos, por se exporem naquelle lugar estes reos innocentes? Que mayor argumento da ignorancia desta nova tradição? Os Cachopos he huma corrupção da palavra Latina Scopulm, com que se explicão os baixos, que se fizerão infames no escandalo dos navegantes pelos naufragios, que causarão, e nunca se derivarão dos meninos, que nelles deixou o desconfiado amor da Condessa Mathilde.

18
Moleta
Batiment qui pêche dans le Tage et en dehors

Só huma circunstancia tem faltado a este conto de velhas, que foy o como se salvarão daquelle liquido patibulo. Não appareceo atégora algum compadecido pescador, que vendo-os em tão evidente perigo, os salvasse na sua molleta, ou no seu barco do alto [...] (1)

13
Lanchas do Alto
Batiments pecheurs qui vont en haute Mer

A entrada do Tejo fica situada entre as torres de S. Julião e do Bugio, que distam 2:750 metros uma da outra, e entre o Bugio e o Bico da Calha, ou ponta do cabedelo do S. Dois grandes bancos se prolongam para o mar na direcção geral de NE. - SW., que se denominam Cachopo do N. e Cachopo do S., ou Alpeidão. Formam estes cachopos dois canaes, o do N., ou corredor do N., que fica entre o cachopo do N. e a torre de S. Julião da Barra, e o do S., ou Barra Grande, que fica entre os dois cachopos indicados. Alem d'estes canaes ha um outro, estreito, pouco fundo e variável em planta, chamado Golada, entre a torre do Bugio e a terra.

Vista do estuário do Tejo, tomada da Estação Espacial Internacional, Samantha Cristoforetti, 2015.
Samantha Cristoforetti no Facebook

O cachopo do N. estende-se naquelle rumo por 5:500 a 6:500 metros. O do S. é formado da cabeça do Pato, das coroas de Santa Catharina e do cachopo propriamente dito.

Sobre a primeira parte ha peio menos 10 a 12 metros de agua. As coroas de Santa Catharina ficam entre a cabeça do cachopo e a do Pato. Este cachopo do S., ou Alpeidão. na extensão proximamente de 5:500 metros, é um banco de areia, que descobre em baixa-mar em diversos logares.

Lisboa com a sua área às 10 horas, Christian Friedrich von der Heiden, 1672.
BLR

O banco, ou barra que liga os extremos dos cachopos pelo W., fica entre a cabeça do Pato e o Espigão, na máxima largura de 3:700 metros, e forma grande escarcéu com ventos do quadrante do SW., levantando ás vezes um rolo do mar, ou arrebentação, que fecha de um lado ao outro o canal da barra e offerece nessas occasiões perigo em arrostar com elle. (2)


(1) Joze Barbosa, Catalogo chronologico, historico, genealogico, e critico, das rainhas de Portugal..., Lisboa, Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1727.
(2) Adolfo Loureiro, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906

Artigo relacionado:
A pequena tocha do mar

Leitura relacionada:
Naufrágios na foz do Tejo
Cristina Santos, Fortificações da foz do Tejo, Lisboa, Universidade Lusíada, 2014

sábado, 18 de novembro de 2017

Lisboa c. 1700, no traço de Jacques Martin por Luís Diferr

Quando era adolescente e lia, "absolutamente estupefacto", as aventuras de Alix desenhadas por Jacques Martin, o português Luís Diferr estava longe de imaginar que um dia, no futuro, ia assinar um álbum de uma série do universo do grande autor da banda desenhada franco-belga.

Rua Nova dos Mercadores (detalhe), As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

E ver o seu nome na capa, ao lado do do criador de álbuns clássicos como O Último Espartano ou As Legiões Perdidas, e de personagens como Alix, Lefranc, Jhen ou Loïs [...]

Capa do albúm, Portugal, Luís Diferr, edições ASA, 2010.
Imagem: Kuentro

O autor português recordou ao DN como tudo começou. "Eu encontrei-me o Jacques Martin no Festival de Banda Desenhada da Amadora em Outubro de 2002, estavam lá também o Rafael Morales, desenhador, e o editor, o Jimmy Van den Hautte. Já conhecia o Martin de um Salão da Sobreda e estive a falar com o Jimmy". 

O terraço da Torre de Belém ou Forte de S. Vicente, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Luís Diferr (no Blogger)

Mostrei-lhe o último álbum que fiz, Os Deuses de Altair, e umas fotocópias de outros trabalhos, e ele propôs-me fazer este álbum do Loïs. Na altura não percebi o que era, porque ainda não existia a série, que se passa na época do Luís XIV. Algum tempo depois, o Jimmy mandou-me algumas fotocópias do primeiro álbum, que estava em produção, eu enviei-lhe uma proposta e um desenho de base, que foi o dos Jerónimos, e foi assim que tudo arrancou".

Praia do Restelo e Mosteiro dos Jerónimos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Começaram então seis anos de "trabalho gigantesco", como conta Luís Diferr.

Aqueduto das Águas Livres (iniciado em 1731) sobre a Ribeira de Alcântara, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Quando comecei a fazer o álbum tinha um horário completo de professor. Mas quando começou a pesar, tive que pedir uma licença sem vencimento. Foi uma tarefa muito exigente, em termos gráficos como na procura e consulta de documentação. Quando me envolvi neste projecto, nunca me passou pela cabeça o trabalho que iria ter".

Praça do Rossio, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Tendo como referente que as histórias de Loïs se passam no reinado de Luís XIV, Diferr situou Portugal "entre meados do século XVII e do século XVIII [v. Lisboa do século XVII 'a mais deliciosa terra do mundo']. É a época de D. João V, que foi um rei absolutista à maneira de Luís XIV" .

Mercado da Ribeira junto à Casa dos Bicos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Diferr fez "tudo" em Portugal, "excepto a introdução, que é do Jacques Martin. Os desenhos são todos meus, bem como as fotos, excepto duas ou três.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Kuentro

Ele acompanhava o trabalho que lhe era submetido à apreciação, via os desenhos a lápis, dizia para modificar isto ou aquilo. Depois, eram passados a tinta da china e a seguir iam à cor. Mas pouco tempo depois, ele afastou-se por causa dos problemas de vista de que sofria, e a validação dos desenhos passou a ser feita por um comité da Casterman", conta.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

O autor de Alix "era muito exigente" e Diferr teve "alguns problemas, sobretudo por causa da vista dele. O Jacques Martin sabia muito bem o que queria, mas já estava com muita dificuldade em avaliar os desenhos, não os conseguia ver como um todo. Tinha que usar um aparelho que os ampliava aos bocados e depois que os reconstruir na sua cabeça".

Vista geral de Lisboa na direcção nordeste, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem:

O álbum levou a que fosse proposto ao autor luso "uma das personagens do universo do Jacques Martin, o Jhen. Também apresentei algumas propostas à Casterman, mas umas não avançaram e outras estão em espera", revela.

Segundo Luis Diferr, ela chama-se Joana. Nascida em Sintra, perto de Lisboa, o que faz que ela sempre tenha gostado de respirar o ar puro da montanha e do mar. A sua expressão doce esconde uma alma que sabe muito bem o que quer...
Imagem: AlixMag

"Este álbum vale por si mas também pelas portas que pode abrir, ali ou noutra editora. Espero que alguma coisa se resolva, até porque o mercado franco-belga é muito competitivo, ainda mais para alguém de fora. Mas pronto, a esperança é a última a morrer". (1)


(1) Diário de Notícias, 16 de junho de 2010

Informação relacionada:
Loïs au Portugal?
Les voyages de Loïs, Le Portugal, Interview de Luís Diferr
Apresentação de "As Viagens de Loïs – Portugal" de Luís Diferr (texto e desenhos)...
Jacques Martin – Luís Diferr
Ilustração por autor de BD (I) – Luís Diferr
As Viagens de Loïs – Portugal
Amadora BD – Luís Diferr

Mais informação:
Luís Diferr (no Facebook)
Luís Diferr (no Blogger)
Luís Diferr (no Sandawe)

domingo, 5 de novembro de 2017

Carta de Lisboa por Miguelanxo Prado

Este libro, feito en colaboración co escritor Eric Sarner, tivo ata o momento edicións soamente en francés (edición orixinal) e en edicións biligües portugués - francés/inglés/castelán co título Carta de Lisboa.

"Esperando a D. Sebastião."
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Calquera delas é xa moi difícil de atopar.

"La luz de Lisboa, de nuevo, cruzando o Teijo"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Tanto Eric como eu coñeciamos Lisboa desde facía tempo e acordamos unha metodoloxía de traballo simple: durante os quince días que duraría a nosa estancia percorreriamos xuntos a cidade, tomariamos notas e apuntes, pero en ningún momento os compartiriamos, de maneira que a visión do un non condicionase a do outro.

"Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Así o fixemos. 

"Ver a los conductores del "28" manejar esos paquidermos metálicos es todo un espectáculo"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Só houbo dúas claras violacións do acordo.

"Lisboa, de nuevo. Ensoñada"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

A primeira, que ao cabo de dous ou tres días os dous advertimos que, imprevisiblemente, Lisboa estaba chea de sutís referencias animais.

"Lisboa, siempre Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Estaba claro que ese fío condutor aparecería en texto e imaxes.

"Alfama, Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

A segunda, un fascinante suceso cunha fotografía atopada por azar nun lugar inverosímil.

"Mercadillo y rastro en Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Era imposible non facer comentarios e elaborar unha historia común ao redor daquel achado. (1)


(1) Une lettre trouvée à Lisbonne

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Informação derivada:
Pisca de Gente
Largo da memória

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Adeus, Lisboa

Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.

Lisboa, Estação Sul e Sueste, Alberto Sousa (1880-1961), 1910.
Imagem: Museu de Arte Contemporânea

Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.

Lisboa, Ponte dos Vapores, estudo para leque, Veríssimos Amigos, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
clivagens de diamantes,

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Numa hipnose coletiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?

Barcos junto à torre do Bugio, Alfredo Keil (1850 - 1907).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta 
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus! (1)


(1) António Gedeão, cf. Rómulo de Carvalho, António é o meu nome