Mostrar mensagens com a etiqueta 1881. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1881. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de março de 2017

Paradoxo da Arte dita Contemporânea de Exposição não Permanente

A pequena mas bella exposição presentemente aberta, ao publico nas salas da Sociedade de Geographla tem attrahido as attenções do dilettantismo e da critica para os expositores, a que algumas folhas chamam o grupo dos dissidentes.

Meme Hopper Columbano
Nighthawks de Edward Hopper (1942) com O Grupo do Leão de Columbano (1885)
Imagem: Rui Granadeiro

Temos procurado achar o sentido d'essa designação, e não o conseguimos. Comprebonde-se que haja dissidencla unicamente onde ha opiniões. Na pintura franceza, por exemplo, o sr. Cabanel e o sr. Monet dissidem, porque o sr. Monet é a heresia de que o sr. Cabanel é o dogma. 

Mas em Lisboa — meu Deus ! — do quem é que podem dissidir estes espirituosos artistas?... A não ser um grito de revolta que elles queiram agora levantar contra o Grão Vasco ou contra a Josepha d'Obidos, não sabemos realmente contra quem é que cales se insurjam. 

A verdade é que os expositores da rua do Alecrim estão sós na arte da pintura. O conspícuo o talentoso sr. Luppi é já mais que um simples artista, é um oficial maior da secretaria da natureza, é um chefe do repartição do quadro historico, jubilado.

Como escola official resta-nos apenas o esclarecido sr. Delphim Guedes, mas este cavalheiro consta-nos que se acha presentemente fechado. Dizem-nos que s. exa. continha ainda a receber dos cabidos, das confrarias o das irmandades sertanejas, todos os tocheiros velhos e todas as galhetas duplicadas, de mais ou menos recente seculo XVI, que se lhe remettem para a arte ornamental; mas, pelo que respeita a discípulos, o seio desse varão recusa-se por emquanto a receber e a ensinar mais ninguem. Vedam-lh'o os seus affazeres.

O sr. Delphim deixou portanto de ser na pintura um portico, para ser unicamente uma tranca. O sr. Porto, o sr. Ramalho, o sr. Malhôa, o sr. Girão, o sr. Christino, o sr. Pinto, o sr. Vaz, o sr. Martins, são agora os pintores paizagistas unicos em Lisboa. 

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

Elles são os que amam e os que interrogam a natureza, os que arregaçam as calças e deitam a mochila ás costas para ir de madrugada, com um pão e um cachimbo na algibeira, saltar os vallados, descer a azinhaga, atolar os pés na terra lavrada, atravessar o ribeiro, subir a encosta, o plantar o cavalete em frente da amendoeira em flor e da cancela rustica do quinteiro, onde as alfazemas desabrocham, onde as abelhas zumbem o onde as galinhas se espanejam ao sol, debicando a leira.

São elles os que entendem o primeiro dos prazeres que, depois da terrivel dôr sublime d'amar o ser amado, o Papá Deus deu á criança homem na festa do grande natal : — o prazer que teem, certas naturezas em casar aos phenomenos da vida exterior a sensibilidade pessoal, o de fazer d'essa conjunção o quadro, o poema ou a melodia, que são a consolação eterna da pobre alma da humanidade. 

Os artistas são eles. (1)


(1) O António Maria n.° 134, 22 de dezembro de 1881

Leitura Relacionada:
Raquel Henriques da Silva, MNAC/Museu do Chiado...
Mónica Queiroga, Projecto Arte e Educação no Espaço Museológico...

sábado, 10 de setembro de 2016

Chamar-lhe-ei o Grupo do Leão...

Chamar-lhe-ei o Grupo do "Leão", a este grupo do artistas distinctos, rapazes ainda todos, cheios de enthusiasmo e de talento, que resolveram ha um mez, entre boks e fumaças de cachimbo, organisar uma exposição de bellas artes, uma exposição essencialmente moderna, onde ha algumas telas preciosas, reveladoras de bôas intelligencias.

O Grupo do Leão (detalhe), Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

É nesse grupo que se destaca a bôa physionomia sympathica de Silva Porto, o notavel paizagista que entre nós foi quem nos mostrou mais profundamente a largueza e a elevação da forma naturalista applicada á paisagem.

Ha na cervejaria Leão, da rua do Principe, uma meza mesmo á esquerda, mesmo no extremo da parede que volta para a sala dos bilhares. É n'essa mesa que o grupo se costuma reunir — o grupo dos pintores.

Ás 8 horas a mesa está cheia. A cervejaria está em actividade, na sua balburdia enorme de gente que entra e sae a cada instante, sentindo-se as portas baterem com ruidos sêccos, suffocados. No ar anda o brouhaha estranho e pezado que nasce do pisar das solas na areia do lagedo; das conversas trocadas em todas as mesas n'uma confusão desordenada de línguas; do bater agudo das pedras dos dominós nos marmores das mezas; do arrastar dos bancos na areia; dos sons finos, sonoros, das facas percutindo nas bordas dos pratos de porcelana; dos gritos dos criados pedindo bebidas; de toda esta confusão ruidosa d'uma brasserie, na hora da sua maior vida, quando não ha uma meza vaga e quando se enche pela segunda vez o cachimbo tendo já bebido tres canecas de cerveja...

Cervejaria Leão de Ouro, 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

A essa hora o grupo está completo. Ha ali typos certos, que nunca faltam uma noite, para quem aquelle cavaco constitue uma parte tão integrante da vida, que não deixam de comparecer cada 24 horas passadas, como não deixam um dia de almoçar e de jantar!

Entre os certos, os que estão sempre presentes, tendo diante de si o seu copo de cognac, ou o seu copo de genebra, ou o seu copo de cerveja, notam-se:

Silva Porto — um pouco curvado para meza, exhibindo a serenidade honesta e grave da sua cuidada barba, uma barba grave como a d'um medico;

Silva Porto, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Antonio Ramalho — o distincto paysagista, um baixo, rochonchudo, a bochecha gorda, trigueiro, atarracado, grande bigode preto, espesso e farto: um bom exemplar de rapaz sadio;

António Ramalho, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Malhoa — outro das mesmas proporções physicas, mas um pouco mais alto e mais claro, cara cheia, larga e expansiva, onde nasce uma pequena barba cerrada, cortada em baixo em duas pontas;

Manuel Henrique Pinto e José Malhoa, 1885.
Imagem: MNAC

Chrystino — gravador: um quasi imberbe, do phisiunomia risonha, pallido, sempre mettido num sobretudo;

Chrystino, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Pinto — o alto e magro do grupo, de bigode louro, crescendo com arrogancia; e outros que apparecern mais ou menos como Vieira, Martins, Vaz, Girão, etc.

Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e José Rodrigues Vieira, 1885.
Imagem: MNAC

E neste grupo entram tambem os amadores como Alberto d'Oliveira, — uma bella cabeça de nazareno de barba ruiva — e Monteiro Ramalho, o irmão do Antonio Ramalho, cujo nome tem já firmado alguns excellentes trabalhos litterarios.

José Malhoa, João Vaz,  Alberto de Oliveira e Silva Porto por Columbano.
Imagem: MNAC

Foi a esta mesa que eu conheci o distincto pintor Columbano Pinheiro que agora está em Paris, trabalhando n'um grande quadro para o Salon de 82; é n'esta meza que ás vezes, como que caida sem se saber d'onde, surge a cabeça sympathica d'um artista de muito merito, e d'um rapaz de muito espirito — Jose de Figueiredo — cofiando eternamente o seu orgulhoso bigode loiro...

Columbano por Columbano.
Imagem: MNAC

Emfim é d'esta meza servida, protegida, defendida, pelo Manuel, um dos criados da "brasserie", de grandes suissas pretas, e que, á força de convivencia com umas poucas de camadas de artistas, que tem passado por aquella meza tradiccional, dá opiniões sensatas, outras vezes um tanto arrojadas — sr. Manuel! — sobre as estampas das illustraçães e acompanha, sem nunca desafinar, em todos os coros que o grupo levante, ou de indignação por algum acto que podesse rebaixar a arte, ou de applauso por algum novo trabalho revelador de merito.

Criado Manuel, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

É a esta meza que se debatem todos os assumptos artistiscoa do nosso paiz, analysados e discutidos com um enorme enthusiasmo de mocidade, e de talento; é a esta meza que com interessese veem os jornaes artísticos que o estrangeiro exporta, e onde são recebidos com alegria os trabalhos dos que luctam lá fóra por implantar definitivamente a "arte verdadeira", a escola do naturalismo em arte.

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

É ali que os que voltam do estrangeiro vêm contar as suas aventuras e as suas horas do trabalho constante, é ali que elles veem confiar a meia duzial de rapazes, seus companheiros  da Academia, que os escutam com um silencio respeitoso, todas as suas expansões e todas as suas sympathias d'artista.

Foi ali, aquella estreita banca de marmore, que elles pensaram reunir todos os seus trabalhos, concluindo as telas que tinham em principio, para organisarem uma exposição brilhante, sem estarem subordinados a programmas, a escolhas e a catalogos de Academia, exposição exclusiva do Grupo do Leão, bello grupo na verdade, que se revelou agora ao publico como possuidor de magnificas intelligencias, todas modernas, todas de hoje, que acompanham na tela as tendencias actuaes da arte naturalista tão brilhantemente revelada já no livro e no jornal, pela nova geração litteraria.

Grupo do Leão, 1.° Salão de Quadros em 1881, desenho de António Ramalho.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esta exposição merece ser analysada com cuidado por todos que se agrupam nas vastas fileiras da escola moderna, e devem todos saudar nestes rapazes cheios de talento e de iniciativa propria os companheiros sympathicos e audazes que pelo seu lado sabem dignamente arrostar com o preconceito academico, com a rotina, com a velharia emfim!

Z. Segredo


(1) Marianno Pina, O Grupo do Leão, Diário da Manhã, 15 de Dezembro de 1881

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Ponto de vista, Silva Porto ou Marques de Oliveira

Não conhecia Marques de Oliveira intimamente como conhecera Silva Porto, esse adorável pantheista, para quem o ciciar de uma folha era uma voz da alma, o preludio de uma canção, que elle imprimia na tela, transformando-a num poema, que o seu culto pela natureza engrandecia.

Recanto de aldeia, Póvoa de Varzim, Marques de Oliveira c. 1882.
Imagem: MNAC

Se Silva Porto pôde ter um successor é de certo Marques de Oliveira quem occupará esse logar, embora a sua maneira de interpretação seja bem diversa e outro o modo por que a sua sensibilidade é emocionada [...]


Bairro dos pescadores, Póvoa do Varzim, Silva Porto, c. 1881.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em companhia de Silva Porto, que ia estudar paisagem, partiu logo para Paris. Ahi foi seu mestre Cabanel, e frequentou também o curso nocturno d'Yvon. Expoz no Salon de 1876 um bello retrato de senhora, partindo n'esse mesmo anno para a Itália, ainda em companhia do seu mallogrado amigo, percorrendo n'essa occasião juntos a Bélgica, a Hollanda, a Inglaterra e a Hespanha. (1)


(1) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos,
Illustrações de Casanova & Ramalho, Pref. de Fialho de Almeida, 1896, Livraria Ferin, Lisboa.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Grupo do Leão (3.ª parte)

António da Silva Porto (1850-1893) aparece como o chefe natural e incontestado do "Grupo do Leão", em simultâneo com a actividade de professor da aula de Pintura de paisagem na Academia Real de Belas Artes de Lisboa, desde 1879. 

Na Pastagem, Silva Porto, 1883.
Imagem: Casa dos Patudos

Assim duplamente exerce uma desejada influência e doutrinação estética, ora junto de condiscípulos, ora de alunos.

Silva Porto no seu atelier, Columbano, 1883.
Imagem: Casa dos Patudos

Renovador da pintura de ar livre, colhe a essência dessa atitude numa profunda sensibilidade que interpreta a natureza nos aspectos fundamentais, a que não é alheio um íntimo lirismo, alicerçado em sólidos conhecimentos de desenho e de estudo do natural.

José Malhoa (1855-1933) mostra-se de central importância na cultura portuguesa, pelo entendimento que transmite do seu ofício de pintar, numa obra que percorre os aspectos da ruralidade do país, desde a paisagem à realidade dos costumes e das vivências do quotidiano.

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Imagem: Provocando

Assim recolhe o conteúdo autêntico dum panorama humano diversificado, a que não é estranha a compreensão da sua relação com o meio, a natureza envolvente, a paisagem que recria e humaniza. 

José Malhoa por António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: Cores e cheiros

Dedica-se ainda ao retrato, quer de personagens populares, quer da burguesia citadina. Rigoroso e directo, não usa eufemismos com os modelos, exprimindo o que os seus olhos vêem e capta a sua subjectividade. 

O fado, José Malhoa, 1910.
Imagem: Wikipédia

Entretanto, o seu trabalho vai sendo atravessado por trechos de imensa frescura, de paisagem, de marinha, de recantos de jardins, transformando-os em momentos duma particular poética resultante da interpretação dos fenómenos lumínicos.

Na Praia das Maçãs, José Malhoa, c. 1926.
Imagem: MNAC

Malhoa paisagista revelar-se-á ao longo da sua carreira de artista em duas vertentes distintas e complementares: a paisagem pura, despovoada, exercício de pintura pelo prazer de pintar; e a paisagem como suporte do humano, enquadramento natural e testemunha de costumes e vivências.

A volta da romaria, José Malhoa, 1901.
Imagem: Coysas, Loysas, Tralhas Velhas...

É todo um imaginário comum que Malhoa aborda em arte de notáveis recursos técnicos e de uma atenta observação da atmosfera e luminosidade dos nossos dias, traduzindo-as com a justeza a que, por vezes, empresta a alacridade e a crueza de cor que as paisagens, as pessoas e as coisas efectivamente assumem.

António Ramalho (1859-1916) protagoniza também lugar de relevo no “Grupo do Leão”. 

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube


Discípulo de Silva Porto na Academia Real de Belas Artes, e beneficiando de pensionato em Paris (1882-1884), revela-se sensível paisagista e detentor de notáveis recursos na pintura de retrato.

João Vaz (1859-1931) destaca-se pelos seus dotes de paisagista, mas, muito em especial, como marinhista.

Rio Tejo, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

 Obra de João Vaz (1859-1931)Galeria de imagens no Facebookclique para aceder
Obra de João Vaz (1859-1931)
Galeria de imagens no Facebook
clique para aceder


Discípulo de Tomaz da Anunciação (1818-1879) na Academia Real de Belas-Artes, e depois seguidor de Silva Porto, atinge nas suas principais obras uma compreensão completa e profunda dos valores lumínicos, atmosféricos e espaciais.

O mais velho do Grupo é José Moura Girão (1840-1916), cuja formação, na Academia Real de Belas Artes, recaiu num tempo ainda alheio ao anúncio do Naturalismo. No entanto, adere convicta e decididamente à novidade nascente, dela deixando impregnar-se a sua vasta produção artística.

O meu primeiro ovo, Moura Girão, 1914.
Imagem: Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro

Encantado e incansável observador dos bichos de capoeira, foi um pintor muito apreciado pelo verismo e graciosidade que imprime às suas obras, com frequência cenas rurais, onde os temas animalistas assumem relevo.

Manuel Henrique Pinto (1853-1912) perfila-se como paisagista e pintor de género ao gosto naturalista. Cursa a Academia Real de Belas Artes e aí encontra como mestres Anunciação, Joaquim Prieto (1833-1907) e José Simões de Almeida (1844-1926).

O Convento, Figueiró dos Vinhos, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos no Flickr

 Obra de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)Galeria de imagens no Facebookclique para aceder
Obra de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)
Galeria de imagens no Facebook
clique para aceder


Os aspectos da vivência rural constituem as linhas principais da expressão da sua pintura, apoiado pelo exercício do desenho de atenta observação, sensibilidade e rigor.

Armando aos pássaros, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Cabral Moncada Leilões
Manuel Henrique Pinto (1853-1912) e José Vital Branco Malhoa (1855-1933), ainda quase meninos, encontram-se pela primeira vez na Academia Real das Bellas Artes de Lisboa. Um vinha de Cacilhas, do outro lado do Tejo, num tempo sem cacilheiros, e nos primeiros anos faltava muito às aulas, por isso se mudou para a cidade. O outro, parece que com uma perna partida, veio das Caldas da Raínha para casa do "mano Joaquim" a fim de curar a mazela e abraçar vida nova. Acabaram por se juntar nas aulas e corredores de S. Francisco e fizeram-se amigos para toda a vida.

Alunos da Academia das Belas Artes, precursores do Grupo do Leão, 187?.
Da esquerda para a direita em cima, João Rodrigues Viera, José Moura
Girão, Veríssimo José Baptista, Manuel Henrique Pinto e João Vaz.
Em baixo, José Malhoa.
Imagem: Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos no Flickr
Dos professores que ali tiveram, sem esquecer Thomaz José da Anunciação (1818-1879) e Miguel Ângelo Lupi (1826-1883), dois houve que mais os marcaram – Joaquim Gregório Nunes Prieto (1833-1907) e José Simões d’Almeida júnior (1844-1926).

in Provocando
João Ribeiro Cristino (1858-1948), o mais moço dos artistas do “Grupo do Leão”, cursou a Academia Real de Belas Artes, assumindo a sua carreira artística acentuada importância como gravador.

Palácio e Quinta Real do Alfeite, João Ribeiro Cristino, in Occidente Revista Illustrada, março, 1887.
Imagem: Hemeroteca Digital

Todavia, a influência de Silva Porto determina a estreia de Cristino como paisagista, que, desde a "Exposição de Quadros Modernos" de 1881, apresenta óleos, a par de provas de gravura em madeira.

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

João Rodrigues Vieira (1856-1898) é discípulo de Anunciação na Academia Real de Belas Artes; encontra os seus temas preferidos na paisagem e na natureza-morta, género em que é apreciada a frescura que imprime a frutos e flores.

Leilão de pesca, Praia da Nazareth, João Rodrigues Vieira.
Imagem. Palácio Nacional da Ajuda no Facebook

No fim do mercado (Leiria), João Rodrigues Vieira.
Imagem: Internet Archive

José Joaquim Cipriano Martins (1841-1888), aluno de Miguel Ângelo Lupi (1826-1883) e de outros mestres, na Academia Real de Belas Artes; é um paisagista, mas sobretudo retratista de merecimento, que deixa obras dignas do Grupo e do movimento que integra.

Paisagem, José Joaquim Cipriano Martins.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook

O retrato é a expressão essencial da obra de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), que também se compraz na composição de naturezas-mortas e na pintura monumental, além de escassas paisagens de tonalidades discretas e húmidas.

Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

Uma segura técnica, que continuamente aperfeiçoa e desenvolve, não só através do óleo, mas ainda no desenho e nas subtilezas do pastel e da aguarela, suporta a coesa e determinada progressão da carreira de Columbano.

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908
Imagem: Pintar a Óleo

Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) revelou-se um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou a uma contínua intervenção atenta e crítica à vida portuguesa.

Raphael Bordallo Pinheiro, A Parodia-Comedia Portugueza, Vinte Annos Depois, 1879 - 1903 (detalhe).
Raphael Bordallo Pinheiro — O Caricaturista
Raphael Bordallo Pinheiro — O Ceramista
Imagem: Internet Archive

Permanecem de surpreendente actualidade os seus comentários à política, à economia, à sociedade da época, nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que não raro reflectiu na cerâmica que, a partir de 1884, logra revitalizar na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

Moringue Gonzaga Gomes, Museu Rafael Bordalo Pinheiro.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Expõe com o Grupo, enquanto as revistas que edita – "O António Maria" e os "Pontos nos ii" – inserem comentários caricaturais às obras dos companheiros.

Cena da galeria da Paixão de Cristo, Rafael Bordalo Pinheiro.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

É, pois, na época do "Grupo do Leão" que Rafael Bordalo Pinheiro se fixa nas Caldas da Rainha e dá novo incremento de modernidade à cerâmica tradicional, aí criando também a galeria da "Paixão de Cristo" (1887-1899), obra única de cerca de sessenta figuras de estatuária de terracota à escala humana, distribuídas por nove cenas, recriação de extraordinária expressividade e valor plástico e iconográfico, que se pode apreciar em galeria própria, no Museu José Malhoa.


(1) Matilde Tomáz do Couto, O "Grupo do Leão" (1881-1889), Jornal da Caldas, 16 de setembro de 2014
cf. revista LION, ed. junho/agosto de 2014


Leitura relacionada: 
Zacarias d'Aça, Lisboa moderna , Lisboa, Tavares Cardoso, 1906
Margarida Elias, O Grupo do Leão de Columbano Bordalo Pinheiro, Revista de História de Arte n.° 5, 2008

Nuno Saldanha, O Leão d'Ouro e a Génese do Naturalismo na Pintura Portuguesa 1885-1905
do Porto e não só: Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (I parte)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Grupo do Leão (2.ª parte)

Corria o ano de 1880 e tivera lugar a penúltima exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, à qual concorrem alguns dos artistas que viriam a integrar o agrupamento e que logo se manifestam insatisfeitos com o carácter já obsoleto desses salões.

Grupo de artistas e fundadores da Sociedade Promotora das Belas-Artes (1861-1901), c. 1862.
Zacarias d'Aça (1839-1908), escritor; José Maria Alves Branco (Fl. 1862), médico; Joaquim Pedro de Sousa (18??), artista plástico; Francisco Lourenço da Fonseca (1848-1902), pintor (1818-1906); José Ferreira Chaves (1838-1899), pintor;Luís Ascêncio Tomasini (1823-1902), pintor; José Rodrigues (1828-1887), pintor; Júlio de Castilho (1840-1919), 2º visconde de Castilho, escritor e olisipógrafo; Francisco de Assis Rodrigues (1801-1877), escultor; Domingos de Sousa e Holstein Beck Borges Coutinho (1897-1969), 5º duque de Palmela [?]; Carlos Krus. Fl. 1862, artista plástico; Joaquim Nunes Prieto (1833-1907), pintor;  José Gregório da Silva Barbosa (Fl. 1862).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Cervejaria Leão d’Ouro, na antiga Rua do Príncipe, hoje Rua 1º de Dezembro, em Lisboa, é o ponto de encontro, o cenáculo onde se reúnem artistas e literatos, convivendo e animadamente debatendo as ideias e as doutrinas que chegam de França, através de revistas sempre alvo de particular atenção ou dos pensionistas de regresso.

Des glaneuses dit aussi Les glaneuses, Jean-François Millet (1814-1875).
Imagem: profondeurdechamps

Assim se verifica em torno de Silva Porto, o "divino mestre", como jovialmente o distinguem com amizade e admiração, perante as almejadas novidades estéticas que personaliza; delas se impregnam e duma doutrina que profundamente os interessa, na predisposição que aspira à mudança e à ruptura com esquemas do passado.

A Charneca de Belas, a introducção do Naturalisno em Portugal, Silva Porto, 1879.
Imagem: MNAC

É o advento do Naturalismo introduzido [por Silva Porto e Marques de Oliveira, tendo o primeiro, mais tarde, feito parte do] pelo "Grupo de Leão" e traduzindo-se num verdadeiro movimento, fundamentado na teoria positivista que aponta a experiência directa como princípio e a imitação da natureza e do quotidiano como objecto da arte.

Marques de Oliveira  Praia de Banhos, 1884.
Imagem: MNAC

Nesta perspectiva, o artista procura recriar a realidade, em função da ideia que concebe do seu conteúdo, e estabelecer as relações e dependências das partes, de modo a extrair os caracteres do todo; assim alcança as qualidades universais e permanentes para as fixar e valorizar.

O Naturalismo pictórico assume esta filosofia, por via duma vivência de ar livre [que se deve ao desenvolvimento da invenção de John Goffe Rand, em 1841, a bisnaga com tinta], que colhe os motivos do natural e os transpõe para o suporte.

Dame en blanc sur la plage de Trouville, Eugène Boudin, 1869.
Imagem: Musée d'art moderne André Malraux

Reformula-se o entendimento de todo o visível, numa atitude que visa a posse da verdade, pelo estudo coerente e firme da cor e da forma.

José Malhoa, Paisagem, 1889.
Imagem: MNAC

Os valores lumínicos encontram-se no cerne desta plástica; definem e motivam a pesquisa do "Grupo do Leão", a sua compreensão da atmosfera e do sol, dos contrastes de sombra-luz, os cambiantes, os matizes e transparências que ressaltam e, porque não, o raro divisionismo permitido.

A aliança da luminosidade e da cor é extraordinariamente coesa nos percursos que o naturalismo investiga e desbrava. com frequência, se revelam indissociáveis estes aspectos fundamentais da pintura, numa ambivalência que desvanece os limites da matéria e fazendo surgir a luz e os valores cromáticos como factores comuns do mesmo fenómeno, quantas vezes dum imenso lirismo.

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

A apreensão da forma vem a resultar destas conquistas, ora errante, ora sensual ou documental, mas quase sempre apaixonada e cruel, ao pretender apoderar-se do verismo imediato e do carácter concreto que transparece nas coisas e nos seres.

Nesta panorâmica cultural e estética se insere e se perfila o “Grupo do Leão”, inicialmente contando com Silva Porto, José Malhoa, António Ramalho [ou Ramalho Junior], João Vaz, Moura Girão, [Manuel] Henrique Pinto, [João] Ribeiro Cristino, Rodrigues Vieira, Cipriano Martins e o entalhador Leandro de Sousa Braga (1839-1897), apoiados por Alberto de Oliveira (1861-1922), grande entusiasta do Grupo.

Grupo do Leão 1883-1884,
ferrotipo (espólio de Columbano, Museu do Chiado), 1883-1884.
Imagem: Margarida Elias, O Grupo do Leão...,
Revista de História de Arte n.° 5, 2008

Columbano, bolseiro em França, junta-se-lhes em 1883 e Rafael Bordalo Pinheiro em 1885.

A maior parte destes pintores encontra-se representada no Museu José Malhoa, num discurso em que se destacam as temáticas que a cada um mais atraiu e onde sobressai a sua expressão artística, seja a paisagem, o retrato ou a pintura animalista, seja a marinha, a natureza-morta ou as cenas de género.

Dois artistas pintando à beira-mar (Roque Gameiro e Mamia na Praia das Maçãs),
José Malhoa, 1918.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Almoçageme

Sublinhe-se ainda a contextualização de Bordalo na cerâmica das Caldas, desafio que abraçou na época do “Grupo do Leão”. (1)


(1) Matilde Tomáz do Couto, O "Grupo do Leão" (1881-1889), Jornal da Caldas, 16 de setembro de 2014
cf. revista LION, ed. junho/agosto de 2014


Leitura relacionada: 
Zacarias d'Aça, Lisboa moderna , Lisboa, Tavares Cardoso, 1906
Margarida Elias, O Grupo do Leão de Columbano Bordalo Pinheiro, Revista de História de Arte n.° 5, 2008

Nuno Saldanha, O Leão d'Ouro e a Génese do Naturalismo na Pintura Portuguesa 1885-1905
do Porto e não só: Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (I parte)