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sexta-feira, 10 de março de 2017

A Cidade Global para além das Janelas Verdes

Em finais de 2015, é editado em Londres (com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian) o livro de Annemarie Jordan Gschwend e K. J .P. Lowe, The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon, recentemente galardoado pela Academia da Marinha e amplamente celebrado pela crítica internacional.

Rua Nova dos Mercadores, autor desc., séc XVI.
Imagem: Julia Dudkiewicz, Dante Gabriel Rossettis' Collection of Old Masters at Kelmscott Manor...

Nele, as autoras fazem uma reconstituição do ambiente da cidade de Lisboa no ciclo longo dos Descobrimentos, a partir de dois quadros que haviam identificado como uma representação da Rua Nova dos Mercadores, a principal artéria comercial no período do Renascimento.




Pelo ineditismo da sua visão e objetiva relevância histórica, o MNAA entendeu convidar as autoras a adaptarem o livro a uma exposição: A Cidade Global. Lisboa no Renascimento, que [foi] será inaugurada a 23 de fevereiro [de 2017].

Nesta mostra, que conta ainda com o contributo de Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014, como consultor para a História da Ciência, a visão do livro surge ampliada, ao mesmo tempo que se reformula e amplifica o plano ilustrativo, mobilizando um conjunto, o mais diversificado possível, de acervos, públicos e privados, nacionais e internacionais, numa amostra inédita de obras, todas creditadas ou pela documentação ou pela comunidade científica.

Lisboa Arte Pintura Rua Nova dos Mercadores aut desc sec xvi 06 MNAA.
Imagem: MNNA

Foi também alargado o núcleo dedicado à evocação da Lisboa de então, onde se buscou reunir exaustivamente todas as fontes úteis para a sua compreensão.

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Imagem: Wikipédia

Com o título "Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas", um artigo de Miguel Cadete, com Alexandra Carita e Hugo Franco, publicado na edição do Expresso de 18 de fevereiro de 2017, alega que os historiadores João Alves Dias e Diogo Ramada Curto "consideram falsa a pintura 'A Rua Nova dos Mercadores', peça central da exposição que será inaugurada na quinta-feira, com a presença de Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura". Neste artigo, onde a matéria em questão é do foro da História da Arte, Cadete limita-se a dar voz a dois historiadores, assumidamente não especialistas nesta área científica, deixando em silêncio os da especialidade, não obstante reconhecer os seus contributos, genericamente de orientação oposta.

De acordo com Cadete, o quadro que "até então (2010), estaria esquecido no espólio do pintor inglês do século XIX Dante Gabriel Rossetti e à guarda da Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor" é, como lhe terá garantido o historiador Alves Dias, "um quadro forjado no século XX a imitar o passado". No mesmo artigo, Cadete afirma que Ramada Curto sustenta "a impossibilidade de o quadro fazer parte do espólio de Dante Gabriel Rossetti", concluindo que "a sua autenticidade nunca foi comprovada".

Retrato de Dante Gabriel Rossetti,
William Holman Hunt, 1853.
Imagem: PubHist

A tese defendida por Jordan e Lowe, de que a obra terá feito parte da coleção de Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), foi, no entanto, confirmada em 2015, pela investigação científica, designa - damente no artigo publicado por Julia Dudkiewicz no The British Art Journal (vol. XVI, n.º 2): "Dante Gabriel Rossetti’s collection of Old Masters at Kelmscott Manor".

Jane Morris, The Blue Silk Dress, Dante Gabriel Rossetti, 1868.
Imagem: 5 Minute History

Contrariando as alegações difundidas pelo Expresso, a historiadora refere que, ao testamento de May Morris – filha de William Morris e herdeira de Kelmscott Manor – está anexada uma lista de 220 objetos, que May doou à Universidade de Oxford, juntamente com a casa que fora do seu pai. Nessa lista, com descrições dos vários itens, que englobam proveniências e localização na casa, surgem os dois quadros representando a Rua Nova dos Mercadores: "Two pictures of scenes in a city, part of D. G. R.’s things" (dois quadros com cenas de uma cidade, parte das coisas de Dante Gabriel Rossetti). 

Retrato triplo de May Morris, Dante Gabriel Rossetti, 1874.
Imagem: 5 Minute History

Rossetti e William Morris partilharam Kelmscott Manor alguns meses, em 1871, e entre 24 de setembro de 1872 e 11 de julho de 1874. Os dois quadros, e outras obras de Rossetti, também identificadas no testamento de May Morris (Mary Morris, Memorandum, 17 June 1926, part of Will and Testament of Mary Morris, London Probate Department, HM Courts & Tribunals Service), terão ficado em Kelmscott Manor quando, após um caso amoroso atribulado, Rossetti teve de abandonar repentinamente a casa.

Kelmscott Manor,
News from Nowhere, William Morris, Kelmscott Press, 1893.
Imagem: Wandering Educators

Acabaram, mais tarde, por ser incluídos nos bens de William Morris.

No mesmo artigo, Miguel Cadete levanta ainda suspeitas em relação à pintura O Chafariz D’el Rey, pertencente à Associação de Coleções/The Berardo Collection, que surge na exposição num contexto apenas documental e ilustrativo. 

Lisboa, Chafariz d’El-Rey, óleo sobre madeira de carvalho, 93x163 cm, autor desc. (Colecção Berardo), c. 1570.
Imagem: Lisboa, cidade africana

Apesar de esta pintura não ter tido ainda um exaustivo estudo monográfico, material e iconográfico, é uma obra sobejamente conhecida. Pertenceu, pelo menos desde finais do século XIX, à coleção do conde Adanero, de Madrid. Identificada como uma cena urbana, foi fotografada cerca de 1940 pela Casa Moreno/Archivo de Arte Español (existem exemplares desta imagem na Fototeca del Património Histórico de Espanha e na Black Archive Collection, da Universidade de Harvard). Não pode, pois, também aqui tratar-se, como refere Cadete baseado em Alves Dias, de "um quadro forjado no século XX a imitar o passado". 

Foi reconhecida como representando o Chafariz d’el-Rei no antiquário madrileno, Caylus Anticuarios, e divulgada em Portugal por Vitor Serrão em 1998 (IV Jornadas de História Ibero-Americana – As Rotas Oceânicas. Sécs. XV-XVII).

Entretanto, os historiadores da arte Fernando António Baptista Pereira, Vítor Serrão, Jean Michel Massing, Annemarie Jordan e Kate Lowe descreveram, estudaram e utilizaram como referência esta pintura, cabendo a Massing a divulgação de que a obra pertencia à coleção do conde de Adanero, por volta de 1893.

Panorâmica de Lisboa c.1540-1550  (ou 1570), Leiden University Library Bodel Nijenhuis Collectie, Leyden.
Imagem: Wikimedia

Finalmente, a pintura em causa fez ainda parte de várias exposições e foi reproduzida e comentada nos respetivos catálogos: Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX , Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999, com comissariado de Didier Lahon e Maria Cristina Neto; Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th & 17th Centuries, Washington: Smithsonian Institution, 2007, editado por Jay A Levenson, com a colaboração de Diogo Ramada Curto e Jack Turner;



Autour du Globe. Le Portugal dans le monde aux XVIe et XVIIe siècles, Bruxelas, Palais des Beaux-Arts, 2007-8, com comissariado de Jay A. Lavenson, com a colaboração de Jean-Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva, Regina Krahl, Diogo Ramada Curto e James Ulak; e Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, com comissariado de Jay A. Levenson, Jean Michel Massing, Julian Raby, Nuno Vassallo e Silva, James Ulak e Regina Krahl.

A Direção (1)


(1) Museu Nacional de Arte Antiga, Comunicado à Imprensa, Lisboa, 22 de fevereiro de 2017

Artigos relacionados:
Iconografia de Lisboa (de 1 a 9 e cronologia), maio 2016

A inauguração da exposição:
Património Cultural (fb)

A exposição:
MNNA: A CIDADE GLOBAL

Outros comunicados de imprensa:
Press release (pt)
Press release (en)

Referências:
Julia Dudkiewicz, Dante Gabriel Rossettis' Collection of Old Masters at Kelmscott Manor...

Web references:
artdaily.org
Alain.R.Truong

A (rua da) polémica:
Sobre as polémicas tábuas com trechos da Lisboa antiga
05.03.2017
Vítor Serrão, historiador de arte
A autenticidade de dois quadros que servem de âncora à exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, inaugurada na passada quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, continua a alimentar grande polémica. Os prós e os contras de uma discussão entre especialistas
“Lisboa Global”. Uma polémica local?
24.02.2017
Ana Maria Pimentel
Na inauguração da exposição “A Cidade Global – Lisboa no Renascimento” foram poucos os que disseram dar importância à polémica e até mesmo os que sabiam do que se falava
História de uma polémica na “Cidade Global”
23.02.2017
Ana Soromenho
A exposição “A Cidade Global Lisboa no Renascimento” chega esta quinta-feira ao Museu de Arte Antiga, para nos revelar o ambiente de uma das mais cosmopolitas artérias da cidade no tempo dos Descobrimentos. O centro comercial de Lisboa era, nesse tempo, a Rua Nova dos Mercadores, reproduzida num quadro que é a obra “cabeça de cartaz” da exposição e, tal como o quadro de outra vista da cidade, tem sido alvo de polémica entre os historiadores quanto à sua autenticidade
Ministro da Cultura já pediu exame laboratorial às “obras suspeitas”
21.02.2017
Alexandra Carita
Luís Filipe Castro Mendes diz que já foi pedida autorização aos proprietários dos quadros, “Chafariz D'el Rei” e “Rua Nova dos Mercadores” para analisar em laboratório a sua datação. O ministro quer que a polémica seja esclarecida. E defende que a exposição que integram, “Cidade Global”, no Museu Nacional de Arte Antiga, não se limita a estes dois trabalhos
Hugo Crespo: a autenticidade da Rua Nova é “indesmentível”
21.02.2017
Hugo Crespo, do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e colaborador no livro “The Global City”, considera que a autenticidade do quadro Rua Nova dos Mercadores que ilustra o cartaz da exposição “A Cidade Global” está provada no memorandum de May Morris
Conservadores do Museu de Arte Antiga não se entendem
21.02.2017
Miguel Cadete
Chafariz d'El Rei, um dos quadros presentes na exposição "A Cidade Global" que abre quinta-feira, gera controvérsia. Joaquim Caetano considera o quadro verdadeiro.Mas Anísio Franco acha que se trata de uma falsificação
Lisboa era uma cidade global?
21.02.2017
Diogo Ramada Curto, historiador
Duas pinturas da exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, que abre quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, levantam sérias dúvidas quanto à sua autenticidade
Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas
18.02.2017
Miguel Cadete, Alexandra Carita e Hugo Franco
Reputados historiadores portugueses consideram falsos dois quadros da exposição “A Cidade Global”

domingo, 17 de julho de 2016

Chafariz d’El-Rey

O Chafariz d’El-Rey no século XVI, pintura de autor desconhecido, que se supõe datar de 1570-1580, inscreve-se na linhagem da pintura da época, no Norte da Europa, centrada em cenas urbanas.

Lisboa, Chafariz d’El-Rey, óleo sobre madeira de carvalho, 93 x 163 cm, autor desconhecido (Colecção Berardo), c. 1570.
Imagem: Lisboa, cidade africana

Se a qualidade pictórica se revela algo medíocre, em contrapartida põe em evidência a flexibilidade da composição que permite proceder ao inventário das práticas lisboetas, inscritas num espaço limitado atrás pelas construções na velha Ribeira das Naus, sendo o primeiro plano consagrado às actvidades marítimas. (1)

Panorâmica de Lisboa (detalhe) c.1540-1550  (ou 1570), , Leiden University Library Bodel Nijenhuis Collectie, Leyden.
Imagem: Wikimedia

O Chafariz d'El-Rei é seguramente um dos mais antigos da cidade de Lisboa, podendo remontar ao período muçulmano. Aparece referenciado documentalmente pela primeira vez no reinado de D. Afonso II, em 1220, sendo então conhecido por Chafariz de São João da Praça dos Canos. É a partir das alterações sofridas no reinado de D. Dinis, em 1308, que passa a ser designado por Chafariz d' EL-Rei, em referência a este monarca.

Segundo Fernão Lopes, o chafariz secou em 1373, durante o cerco de Lisboa, e só teve obras em 1487, por ordem de D. João II, que manda fazer o encanamento do chafariz até ao mar, para abastecimento de água potável aos batéis ancorados.

O Chafariz d’El-Rey, década de 1570, sobre a Panorâmica de Lisboa da Leiden University.

Na época manuelina o chafariz terá sido coberto por um alpendre em cantaria, cobertura para a qual D. Manuel ordenara a autorização à Câmara de Lisboa em 1517, e que seria patrocinada por Lopo de Albuquerque. O chafariz, que era então a principal fonte de água potável da capital, estava encostado à muralha da cidade, e tinha seis bicas em forma de cabeças de animais. (2)


(1) Isabel Castro Henriques, Os Africanos em Portugal História e Memória Séculos XV-XXI, Lisboa, Comité Português do Projecto Unesco "A Rota do Escravo", 2011
(2) Direcção-Geral do Património Cultural

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os conjurados de 1640

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634.
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

A Hespanha estava nesse tempo em guerra com a França e como desta Nação tinha apparecido huma esquadra pelas Costas de Portugal, pareceo ao Ministro ter hum pretexto favorável aos seus desígnios: era necessário que em Portugal houvesse hum General em Chefe para commandar as Tropas que se destinassem para defender os Portos, onde os Francezes podessem fazer alguma invasão;

e nestas circumstancias enviou ElRei de Hespanha ao Duque de Bragança a nomeação deste emprego com muitas distincçôes, e com huma authoridade absoluta de fazer fortificar as Praças marítimas que devia visitar, augmentando, ou dirninuindo as suas guarnições como bem lhe parecesse, o que fez murmurar altamente a Corte de Hespanha, vendo a céga confiança com que parecia entregar-se o Reino todo á discrição do Duque de Bragança.

O segredo desta Commissão tão franca estava só entre o Rei do Hespanha, e o seu primeiro Ministro: tinha este mandado huma ordem muito secreta aos Governadores das Praças marítimas, que erão quasi todos Hespanhoes, para se assegurarem da pessoa do Duque achando favorável occasião, e para o fazerem passar logo á Hespanha, para cujo fim andavão costeando Portugal algumas naos Hespanholas.

O Duque de Bragança que via muito bem quão pouco sinceras erão tantas, e tão extraordinárias distincções da parte de Hespanha, fêlla cahir nos mesmos laços que lhe armava.

Escreveo ao primeiro Ministro para que representasse a ElRei o prazer com que elle acceitava o Posto que lhe conferira e no qual esperava justificar a sua escolha.

Foi então que o Duque vio quasi chegado o momento da sua exaltação ao Throno de seus Avós.

A authoridade do emprego de Governador das Armas lhe facilitou o poder nomear moderadamente os seus amigos, nos Postos em que hum dia lhe viessem a ser mais úteis.

Fez-se acompanhar de alguns Officiaes escolhidos, e de huma equipagem magnifica y própria da sua Grandeza, de sorte que nas Praças que visitou fez perder todas as esperan ças de se attentar contra a sua Real Pessoa.

Ninguém se lhe atreveo.

Em toda a parte por onde passava atrahia o coração dos povos y que admiravão a sua liberalidade, ouvindo a todos benignamente, e familiarizando-se còm a Nobreza de tal modo que todos absolutamente no interior o desejavão ter por seu Soberano.

Desta sorte chegou o Duque á Villa de Almada, (proposta dos Fidalgos) onde apenas se soube da sua chegada foi a Nobreza toda visitallo.

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.

D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada, e Pedro de Mendonça Furtado, estando sós com elle lhe communicárão a resolução em que elles, e muitos da sua qualidade estavão de o acclamarem Rei de Portugal, representando-lhe vivamente a desgraçada situação em que se achava este Reino, e que só se podião remediar tão lamentáveis ruinas querendo elle acceitar a Coroa.

Armas de Almada chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Que elles, e hum grande número de Fidalgos lhe offerecião todas as suas faculdades para o ajudarem a subir ao Throno, sacrificando com efficacia os seus bens, e as suas vidas, para vingarem a Nação da tyrannia dos Hespanhoes.

O Duque respondeo com muita modéstia, e com mais cautela y dizendo que convinha com elles no que lhe representavão a respeito da situação de Portugal, reduzido á ultima calamidade.

Que louvava muito o zelo que mostravão ter pela bem da Pátria, e que em particular agradecia muito a toda a Nobreza o quanto se interessava por elle; porém que duvidava do bom succesfo da empreza, por lhe parecer que não era ainda tempo opportuno de a pôr em execução, sem se tomarem todas as necessárias medidas com madura prudência.

Com esta resposta que o Duque não quiz fazer mais positiva partirão os tres Fidalgos, não desanimados do bom êxito da sua resposta, e determinarão logo fazer a primeira Junta dos Confederados com muito segredo, e cautela.

Os conjuração de 1640, Manuel Lapa, c. 1936.
Imagem: almanaque silva

Passou o Duque a visitar a Vice-Rainha Duqueza de Mantua , desembarcando no Terreiro do Paço onde se achava innumeravel povo para o verem passar. Taes forao as demonstrações de prazer , e de contentamento, que motivarão novo y e decisivo ciúme aos Hespanhoes que as observavão.

Entrando no Paço a visitar a Vice-Rainha, estavão na grande sala duas cadeiras, huma debaixo do docel para a Duqueza de Mantua, outra da parte de fora para o Duque de Bragança.

Thomé de Sousa Fidalgo de grande valor, e tronco dos Condes de Redondo, inflammado em zelo da honra do Duque, que, em presença de toda a Nobreza levantou a cadeira, e a collocou debaixo do Sólio, porque o Duque não tivesse a Audiência com menos decoro.

D. João (1604 - 1656), Duque de Bragança.

Este arrojo capitulado pelos Hespanhoes como hum crime, o trouxe em tribulação com a Corte de Hespanha dalli por diante.

Passados alguns dias recolheo-se o Duque a Villa Viçosa, livre dos laços que a malícia do primeiro Ministro lhe quizera urdir.

Tinha ficado em Lisboa o Doutor João Pinto Ribeiro criado particular do Duque e seu Confidente.

Este homem era activo , e com muita instrucçáo de negócios politicòs, aquém D. Miguel de Almeida chamou para a Conferencia da primeira Junta da Nobreza por conhecer a sua capacidade, esaber o quanto elle seriamente se interessava pela exaltação do Duque.

Juntárão-se em casa do Monteiro-Mór Francisco de Mello, (primeira Junta dos Fidalgos) seu irmão Jorge de Mello, D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada, Pedro de Mendonça Furtado, Antonio de Saldanha, e João Pinto Ribeiro , onde depois de bem ponderadas reflexões, assentarão em escrever ao Marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello, e a D, Affonso de Portugal, Conde de Vimioso, que assistião em Évora, para representarem ao Duque de Bragança os irreparáveis damnos, que se seguirião aos Portuguezes, se elle não aceitasse a Coroa que lhe offerecião, e que injustamente fora pelos Hespanhoes roubada a seus Avós.

D. Antão de Almada (1573 - 1644).
Imagem: Wikipédia

Que a occasião na conjunctura presente era a mais favorável, e opportuna, pois que as forças de Hespanha se achavão divididas pôr muitas partes.

Recebia o Duque estas persuasões, sem se determinar ainda a huma declaração aberta.

Pensava nas difficuldades que haviáo a vencer, e queria informar-se bem das medidas que se tomavão para emprehender huma acção que decidia da tranquilidade da Nação inteira, ou a precipitava na sua total ruina.

Tal era a sua prudência, esperando que João Pinto Ribeiro fosse de Lisboa, para lhe dar conta do que a este respeito se passava.

As demonstrações de alegria que o povo de Lisboa fizera, quando o Duque passou de Almada a visitar a Vice-Rainha, inquietarão muito a Corte de Madrid, fazendo grande impressão ao primeiro Ministro.

Lisboa, Terreiro do Paço, Dirk Stoop, 1650.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Começárão a haver suspeitas, de que a Nobreza de Portugal fazia particulares, e acauteladas Assembléas;

e certas vozes que se espalhavão, como presagas de grandes acontecimentos, tinhão augmcntado mais aquella inquietação.

ElRei de Hespanha convocou o seu Conselho, e para tirar aos Portuguezes a esperança de ganharem partido em alguma revolução que podessem meditar, resolveo que immediatamente fosse chamado a Madrid o Duque de Bragança, único Chéfe que em Portugal se podia temer.

Despachou-se logo hum Correio a Villa Viçosa com carta do próprio punho d'ElRei para o Duque, cheia de artificiosas promessas, na qual lhe ordenava que partisse a Madrid sem perda de tempo, para o acompanhar á expedição da Catalunha.

O mesmo Correio marchou immediatamente para Lisboa com ordem a todos os Fidalgos, para também partirem para Madrid.

Foi errado este ultimo plano do Duque de Olivares, porque sendo o seu fim tirar o Duque de Bragança deste Reino, e a Nobreza principal, aquelle tomou finalmente a resolução de acceitar a Coroa que lhe pertencia por Direito, e esta irritou-se novamente com as ordens que recebia, para ir acompanhar o Rei de Hespanha á expedição de Catalunha. [...]

Chegou finalmente o sempre memoravel, e glorioso dia de sabbado, primeiro de Dezembro de mil seiscentos e quarenta.

Armas do Rei de Portugal, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Apenas amanheceo, todos os Fidalgos Confederados, e os seus adjuntos se armarão, (dia feliz da acclamação) ajuntando-se huma grande parte delles em casa de D. Miguel de Almeida, d'onde partirão separados huns dos outros para o Paço, e para outros lugares a occuparem os Postos, que lhes estavão já destinados, D. Filippa de Vilhena, Condeça da Atouguia, heróica, e varonilmente ajudou a armar com as suas próprias mãos a seus dois Filhos, D. Jeronymo de Ataíde y e D. Francisco Coutinho exhortando-os com todo o valor para a gloriosa empreza a que hião.

D. Filipa de Vilhena, Vieira Portuense (1765-1805), 1801.

Conta-se que o mesmo fizera D. Marianna de Lencastre a seus Filhos, Fernão Telles, e Antonio Telles da Silva. [...]

D. João da Costa, e João Rodrigues de Sá com outros Fidalgos, e Pessoas Gonfidentes, forão a bordo dos dois Galeões de Hespanha que se achavão surtos no Tejo, armados em guerra, que sem mais resistência se renderão, a pezar de terem toda a guarnição de Infanteria Hespanhola, e estarem promptos a a fazer-se á vela.

Forão outros ao Castello, e mandarão a D, Luiz del Campo a Ordem da Duqueza, para que o entregasse; e duvidando este da Ordem, por não ir com a formalidade que elle queria, Mathias de Albuquerque, que alli se achava prezo, e que nada sabia com certeza da Acclamação, aconselhou ao Governador, que ou sahisse com o presidio que guarnecia o Castello, ou se puzesse em defensa, se o rumor que se ouvia pela Cidade passasse a mais.

Com effeito fechárão-se as portas, e prevenio-se a artilheria.

Requererão os Governadores á Duqueza segunda Ordem, para que se não fortificasse o Castello, a que D. Luiz del Campo obedeceo, e já Mathias de Albuquerque que nada lhe disse a este respeito, por ter noticias certas da Acclamação;

e como não houve tempo para se entregar com a solemnidade que o Governador queria, ficou naquella noite rodeado o Castello de todas as Companhias das Ordenaraças.

No dia seguinte foi D. Alvaro de Abranches, Thomé de Sousa, e D. Francisco de Faro com ordem definitiva para D. Luiz del Campo entregar o Castello.

Immediatamente mandou abrir as portas, entrou dentro D. Alvaro de Abranches, e tomou posse finalmente do Castello, em quanto não vinha ElRei y ou não chegava D. Alvaro Pires de Castro, Conde de Monsanto, e Aicaide-Mór de Lisboa.


Soltou Mathias de Albuquerque, e a Rodrigo Botelho, Conselheiro da Fazenda, que também se achava prezo.

Sahírão os Hespanhoes com a sua Equipagem, e com as honras militares por privilegio da Capitulação que fizerão, e forão conduzidos por D. Antonio Luiz de Menezes até ás Tercenas, onde se alojarão, e onde tiverão depois Passaportes d'ElRei com ajudas de custo, para que divididos passassem para Hespanha.

Rendido o Castello se entregarão nesse dia as Torres de Belém, Cabeça secca, Torre velha, Santo Antonio da Barra, e o Castello de Almada.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642, reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tanto pôde o exemplo e tanto pôde o medo. [...] (1)


(1) Roque Ferreira Lobo, Historia da feliz acclamação do Senhor Rei D. João o Quarto..., Lisboa, Na Officina de Simão Taddeo Ferreira, 1803.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Iconografia de Lisboa (cronologia)

Este breve alinhamento cronológico tem por objetivo, depois de clicada uma imagem, criar na lightbox um acesso a uma sequência imediata, temporal ou espacial, dos pictogramas, de modo que com simples avanços e recuos, a diferença ou a continuidade entre o que eles representam se possa evidenciar.

Panorâmicas — Lisboa Manuelina

1500-1510

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Imagem: Wikipédia

1513 (?)

Lisboa, iluminura do frontispício da primeira parte da Crónica de D. João I, Fernão Lopes, 1513 (?).
Imagem: A Iluminura

1521-1557

1521 - 1557, Galeria das Damas do Paço da Ribeira e Ribeira das Naus, Livro de Horas de D. Manuel, António de Holanda.
Imagem: PortugalWeb

1572

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun [Georgio Braúnio], Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

Anterior a 1580

As imagens estão ordenadas pelo conteúdo representado, embora, em alguns casos, tenham sido produzidas mais tarde.

Lisboa, Vrbivm praecipvarvm mundi theatrvm qvintvm Georg Braun  [Georgio Braúnio Agrippinate], Franz Hogenberg, 1598.
Imagem: Wikipedia

Anterior in 1580

Lisbona, Giuseppe Longhi, 1670.
Imagem: BLR

Anterior a 1580

Lisboa amplissima lusitaniæ civitas, totius indiæ orientalis et occidental:
emporium celeberrimum, 1619.
Imagem: World Digital Library

Anterior a 1580

Vista panorâmica de Lisboa, História Genealógica da Casa Real de Portugal, Simon Bening, entre 1580 e l584.
Imagem: British Museum

Panorâmicas — Período Filipino

1613

1613, Joyeuse entrée Filipe III de Castela, Castelo de Weilburg Alemanha.
Imagem: MNAA

1619

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Gravura Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

1620

Lisboa, Ex-voto, Nossa Senhora de Porto Seguro Roga a seu Precioso Filho por esta Cidade e sua Navegação de Lisboa,
Igreja de São Luís dos Franceses, c. 1620.
Imagem: do Porto e não só...

Vistas gerais e panorâmicas — Lisboa da Restauração

1662

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

1693

1693, Lisboa, Entrada de Giorgio Cornaro para a Primeira Audiência com D. Pedro II, 1693.
Imagem:

1680-1720

Lisbone, Ville capitale du Royaume du Portugal... Pierre Aveline (1656-1722) entre 1680 e 1720.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1730

Lisabona, Georg Balthasar Probst (1732-1801), c. 1730.
Imagem: Swaen

1730

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier, aut. desc. c. 1730.
Imagem: Wikipédia

Anterior ao terremoto de 1755

Vista geral da cidade de Lisboa capital de Portugal antes do terremoto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Vistas gerais — Lisboa Manuelina

1521-1557

Galeria das Damas do Paço da Ribeira e Ribeira das Naus,
Livro de Horas de D. Manuel, António de Holanda.
Imagem: MatrizNet

1521-1557

Rua Nova dos Mercadores em 1521, Livro de Horas de D. Manuel,
iluminura atribuída a António de Holanda.
Imagem: MNAA

1570-1580

Relativamente aos quadros abaixo, ou faltam painéis sequenciais ou complementares,  ou os originais foram, possivelmente, cortados.

1570- 1580, Lisboa, Chafariz d’El-Rey, autor desconhecido (Colecção Berardo).
Imagem: Lisboa, cidade africana

1570-1620

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London


Leitura adicional:
A genealogia das imagens de Lisboa...

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Iconografia de Lisboa (3.ª parte)

Uma outra modalidade de vistas panorâmicas e de edifícios isolados, muito em voga no século XVIII e nos princípios do imediato, consistia nas chamada vistas ópticas, que eram gravadas em cobre, geralmente toscamente coloridas, e com dimensões aproximadamente uniformes, destinadas a ser exibidas em câmaras ópticas ou cosmoramas, onde as "Vistas às avessas mostram o Mundo às direitas", como dizia, pelo ano 1809, o nosso bom José Daniel Rodrigues da Costa.

Lisboa, representação invertida da topografia da cidade, baseada em gravura precedente de Pierre Aveline, c. 1750.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Havia editores franceses, ingleses e alemães, que publicavam séries ou colecções destas vistas de monumentos, edifícios e cidades de todo o mundo, contribuindo assim para a propaganda das belezas e dos aspectos pitorescos dos diferentes países; constituíam elas o bilhete postal ilustrado e popular daqueles tempos.
Em 1946, o ano em o artigo foi escrito, durante o Estado Novo, o tema da governação espanhola, entre 1580 e 1640, era sensível e frequentemente evitado, fosse pela debilitação do orgulho nacionalista, fosse para não incomodar a, também nacionalista, Espanha de Franco.

Praticamente só Leitão de Barros abordou o tema, no filme Frei Luís de Sousa, na cena do incêndio, quando Manuel de Sousa Coutinho lança fogo à sua própria casa, em Almada, de modo a não albergar Filipe II de Espanha.


Tiremos então partido desse hiato pictórico, no texto original do engenheiro Augusto Vieira da Silva, para aqui intercalar algumas imagens do período Filipino, onde o Paço da Ribeira se evidencia pelo torreão maneirista, de Fillipo Terzi, que a partir de 1581 substitui a arquitectura manuelina, de Diogo de Arruda.

Vista geral da cidade de Lisboa capital de Portugal antes do terremoto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Umas dessas estampas são invertidas, a fim de que, quando introduzidas na câmara óptica, e com a margem inferior para baixo, se vissem os edifícios e os panoramas com o aspecto que eles naturalmente possuíam.

Os títulos, inscritos nas margens, superior ou inferior, eram também muitas vezes invertidos, de modo que, quando vistos, na câmara óptica, a sua leitura fazia-se ás direitas. Outras vezes, porém, as vistas eram direitas, de forma que introduzidas na câmara, mostravam os panoramas invertidos (da esquerda para a direita e vice-versa), o que não tinha inconveniente algum para os efeitos e fins que para o público se pretendiam obter com tais exibições.

Lisabona, Georg Balthasar Probst (1732-1801), c. 1730.
Imagem: Swaen

As vista ópticas da cidade de Lisboa, de que temos conhecimento, são geralmente cópias mui incorrectas, de estampas anteriores, panorâmicas e de edifícios, que se adaptavam ao formato e dimensões próprias para exibição nas câmaras ópticas.

Excepcionalnente encontram-se, sem serem destinadas a câmaras ópticas, algumas vistas de Lisboa invertidas, no que se refere aos seus lados direito e esquerdo, isto é, como o lado da foz do Tejo à direita do observador. Não sabemos explicar, senão por um equívoco do desenhador, o que levou este a praticar tal anomalia.

Lisboa amplissima lusitaniæ civitas, totius indiæ orientalis et occidental:
emporium celeberrimum, 1619.
Imagem: World Digital Library

As numerosas vistas panorâmicas produzidas durante este período de dois séculos que estamos considerando, isto é, até ao terremoto de 1755, eram feitas mui rudimentarmente.

Lisbona, Giuseppe Longhi, 1670.
Imagem: BLR

Os desenhadores copiavam os edifícios principais e característicos, que colocavam nos seus respectivos locais, e o espaço restante era preenchido com casaria, telhados, fachadas e janelas, dispostas de uma maneira mais ou menos arbitrária.

Lissbona, representação invertida da topografia da cidade,
Jeremias Wolff (1663-1724), segundo Friedrich Bernhard Werner (1690-1776).
Imagem: Paulus Swaen

Por isso o aproveitamento de tais estampas, como documento, para a história, deve ser feito mui criteriosamente, para não induzir em erros, como por várias vezes tem sucedido. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
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