terça-feira, 9 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): Lutas Civis

Constituída em 1834 a liberdade da nação portugueza para nunca mais perecer, começava a pratica das instituições, imperfeita no desenvolvimento como obra humana, mas civilisadora na missão e progressista nos resultados. 

Retrato de D. Pedro IV (detalhe), John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Só a escravidão politica é isenta de imperfeições nos seus mechanicos movimentos, que obedecem à lei de uma só vontade, imposta a um rebanho de seres, não a uma sociedade de homens. 

Dividiu-se a gente liberal [v. A Belemzada, Lisboa 1836]. 

Retrato de D. Maria II (detalhe), John Simpson, c. 1837.
Imagem: Wikipédia

Entendiam uns que, n'aquelle tempo, a Carta Constitucional continha a totalidade das liberdades necessárias ao progresso da nação e ás regalias dos cidadãos, receiando que o ultrapassar os limites d'ella abrisse para as mesmas liberdades os perigos de 1820.

Não concordavam outros no receio, e opinavam por constituição mais larga. Estes se appellidaram setembristas, porque, logo dois annos depois, em setembro de 1836, conseguiram levantar na capital o grito da revolução que logrou a victoria [v. O partido setembrista, Lisboa 1836].

Receberam o nome de cartistas os que perfilharam a idéa contraria. D'esta divisão se originou a serie de revoluções durante quinze annos a que veiu pôr termo a regeneração em 1851 [...]

Victoriosa em Lisboa a revolução de setembro que tinha por chefe a Passos Manuel, jurada pela rainha m a constituição de 1823 com as alteraçoeg que um fur toro congresso lhe introduzisse, tentaram resistir os cartistas [v. Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836].

Manuel da Silva Passos (1801-1862) 01.jpg
Imagem: issuu

Nenhum dos dois marechaes tinha prestado juramento á nova ordem de cousas, e Saldanha escrevendo ao ministro da guerra, declarava que assim procedia para se reservar a faculdade de a combater.

Vila da Ponte da Barca, 1864.
Imagem: Hemeroteca Digital

A 12 de julho de 1837 insurgia-se um batalhão de caçadores na villa da Barca, e em differentes pontos do reino rebentavam outros levantamentos [...] (1)

*
*     *

No dia 22 de dezembro de 1846 deu-se a batalha de Torres Vedras.

Torres Vedras.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duque de Saldanha tomara o pulso á revolução. Era de facto uma revolução popular de sangue vivo do paiz e com homens á sua frente: Sá da Bandeira, conde das Antas, conde de Bomfim e o velho general Álvaro Xavier Coutinho da Fonseca e Póvoas, soldado portuguez de que elle, Saldanha, mais se arreceava.

Póvoas provou-lhe bem quanto valia nos desfiladeiros, valles e chapadas da Serra da Estrella.

Decorrido mais de meio século de paz podre, não se calcula hoje o que eram as paixões politicas d'aquelle tempo. Estou convencido, como já disse por vezes no percurso d'estas Memorias, que o medo d'essas paixões, que tinham rompido nos maiores ímpetos dez annos antes nos dias torvos da Revolução de Setembro e da Belemzada, é que levou os caudilhos da Maria da Fonte a ter mão n'um golpe decisivo, golpe que, sem abalar as instituições, poria em grave risco a coroa de D. Maria II.

Voltarei a este assumpto.

No dia 22 de dezembro de 1846 o duque de Saldanha achava-se porventura na situação mais difficil de toda a sua longa e brilhante carreira militar.

Na frente — Torres Vedras — estava o conde de Bomfim com a divisão onde havia soldados escolhidos, officiaes intelligentes e bravíssimos, tendo por chefe do estado maior nem mais nem menos do que Luiz Mousinho de Albuquerque [...]

Torres Vedras from the North-West.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Conde de Bomfim, comquanto a sorte nem sempre lhe fosse propicia no campo da batalha, era destemido e general illustrado.

A lenda do confessionário e da bandeira preta seria irrisória se nâo tivesse o fel da calumnia [segundo Oliveira Martins, baseado em João de Azevedo, Os dois dias de Outubro, ou a história da prerrogativa, "dizem que ao começar a batalha o pobre general sempre infeliz se escondera numa igreja, metido num confessionário, com uma bandeira preta cravada no telhado a indicar um hospital de sangue"].

Na rectaguarda, a dois passos, Saldanha tinha em Tagarro, Alcoentre, Cercal, o conde das Antas, "que o podia e devia entalar a cada momento contra as posições invencíveis de Torres Vedras".

Os rapazes da Maria da Fonte, rapazes e velhos, bateram-se com desenganada bravura. A matança foi terrível!

A batalha começou pelas onze da manhã. N'um relançar de olhos, Saldanha viu que a tomada do forte de S. Vicente era o ponto capital do assalto. O conde de Bomfim tinha lá dois mil homens da flor da sua gente.

O duque, esfregando as mãos (todos os homens de guerra teem o seu tique, o d'elle era este) bradou:

— A artilheria? 
— Ainda não chegou.
— Ximenes? 
— Marechal!
— O Sola que tome com a brigada o forte de S. Vicente á baioneta [...]

Torres Vedras, Morro do Castelo e Rio Sizandro.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Apesar da noite tormentosa, dos caminhos de Torres Vedras n'aquelle tempo, a noticia de Saldanha ter ganho a batalha chegou a Lisboa com espantosa rapidez.

Logo de manhã o aspecto da cidade tornara-se sepulcral. Nem os próprios vencedores se atreviam a manifestar as alegrias da victoria. Centenas de pessoas tinham nos dois campos parentes carnaes e amigos. Havia como que um cheiro a sangue e a morrão de enterro.

Mulheres, mães, irmãs, amantes, reviam no rosto contrahido pela anciosa incerteza alguma coisa da loucura, e, não raro, faziam perguntas desvairadas!

No crescer do dia chegavam ao hospital da Estrella os feridos, alguns moribundos.

Os grilhetas, a legião sombria d'aquelles desgraçados que andavam a dois e dois pelas ruas, atrellados como cães por grossas correntes, foram separados para serviço das macas.

Que préstito fúnebre [...]

A extrema anciedade que agitava a capital seguiu-se a apathia morna que sobrevem nas grandes catastrophes.

A chegada dos presos de Torres Vedras a Lisboa e a entrada d'elles nas presigangas [navios presídio] do Tejo augmentou ainda o tom mortuário da capital.

Uma necropole!

Quando algum raro dia d'aquelle tempestuoso inverno rutilava todo azul e oiro, faiscando na Tejo, illuminando os quintaes e as hortas da cidade, Lisboa era porventura mais triste. Ermas as ruas, desertas as praças, janellas cerradas.

Aqui e além ouviam-se as risadas crystallinas do rapazio desenfreado, com bandeiretas de farrapos, espadas de canna, divididos em dois bandos, simulando a batalha das vésperas e prenunciando as que deviam seguir-se.


As creanças a foliar no meio das grandes tragedias comprimem-nos amargamente o coração, porque nos lembram o durum genus, a ferocidade da origem humana!

Via-se a cada passo, não só a tristeza, mas a miséria impacta nas physionomias [...]

Os operários absolutamente sem trabalho, todos os géneros de primeira necessidade pela hora da morte; nenhuma transacção commercial.

Os empregados públicos, com muitos mezes de atraso, acudiam a rebater os ordenados por um desconto enorme.

Quantos d'esses empregados, que pertenciam a diversos batalhões, vi eu trazerem, em pleno dia, debaixo do braço, o pão de munição para o repartirem pela familia.

Supplemento Burlesco ao Patriota, 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

As notas do banco trocadas por menos de metade do seu valor; os cabos de policia deitando mão aos moços adolescentes, sem distincção de classe, para lhes sentarem praça no exercito da rainha.

Depois da batalha, como já disse, os próprios adversários não se atreviam a celebrar ruidosamente o enthusiasmo do triumpho.

Só a rainha não poude ter mão em si. Quando a guarda de honra chegou ás Necessidades, D. Maria II, abrindo com as próprias mãos a realenga sacada, na sua voz sonora e vibrante de jubilo, clamou:

— Victoria, rapazes!

Os cabellos, em saccarôlhas, fluctuavam ás refregas da quadra tempestuosa, as rosas da mocidade saltavam-lhe das faces accesas pela commoção da victoria. O que podem as paixões politicas!

Esta senhora, exemplo de esposa e de mãe, não se lembrava de tanta viuva e de tantos órfãos; de Mousinho de Albuquerque, gloria da pátria e amigo de seu pae nos dias da adversidade; do sangue fraterno que tingia a corrente arrebatada do Lisandro na força da invernia.


Torres Vedras, Rio Sizandro, Marques Abreu, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Alguns cortezãos quizeram negar o facto, mas foram obrigados a engulir o impudor da lisonja, porque o facto teve por testemunhas centos de pessoas e uma d'ellas fui eu [...]

A inabalável dedicação á sua pessoa lh'a provaria o duque d'alli a cinco annos, na noite de 15 de maio de 1851, no theatro de S. Carlos, obrigando-a a tragar o boccado mais amargo de toda a sua vida, sacrifício que ella fez com senhoril e regia dignidade [v. A ditadura regeneradora de Saldanha ...] (2)

Marechal Saldanha, capa dos livros de Barbosa Cohen Entre duas revoluções 1848-1851, volumes I e II (detalhe).
Imagem: University of Toronto

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*     *

Depois de 6 de outubro, Antas e Sá da Bandeira entraram na lucta, suppondo que a rainha fraqueasse vendo a altitude do paiz, e, sem o seu apoio, Costa Cabral baqueava para sempre do poder.

Com Saldanha tornava-se fácil qualquer accordo, voltivolo e malleavel como sempre foi em politica. A coisa, porém, mudava de aspecto.

O Espectro n° 49, 18 de maio de 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sangue accendeu as paixões, e a tenacidade da rainha converteu a ira dos adversários em rancor entranhado. Se os da Junta entrassem em Lisboa, a soberana, antes de abdicar, teria de refugiar-se n'uma nau ingleza.

Como todos os homens da emigração e do Porto, Sá da Bandeira e Antas amavam D. Maria II. 

Entrada apenas na adolescência, intelligente, formosa, expatriada, uma creanca quasi, fora a estrella polar, ou, direi antes, a noiva immaculada e espiritual da grande revolução. Receavam que a democracia exaltada, na sua justa cólera, lhes abatesse o idolo!

Periclitavam acaso as instituições quando a rainha abdicasse?

Quem falava n'esse tempo em Republica, não digo só em Portugal, mas em toda a Peninsula? Além dos Pirineus, a revolução de 1848, movimento imprevisto e ephemero, ainda estava longe.

Incendie du Château-d'Eau, place du Palais royal, le 24 février 1848, Eugène Hagnauer.
Imagem: Pinterest

Para mim é fora de duvida que a Maria da Fonte não triumphou pela tibieza das espadas d'esses dois homens.

Os académicos apertavam com Sá da Bandeira. Queriam combater:

Somos jovens, livres somos,
Somos de mais portuguezes,
O dever nos chama á guerra,
Affrontemos seus revezes!

Chegou o dia 1 de maio de 1847. Dia luminoso de primavera. As primeiras frechas de sol batiam nas serranias do Alto do Viso.

Vista de Setúbal, fotografia n° 18 do Album pittoresco e artistico de Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Quantos veriam aquelle sol pela derradeira vez!

Os clarins tocavam a alvorada no campo inimigo, e os académicos, na guarda avançada, trepavam o monte cantando:

Quando da pátria
Soa o clarim
Ninguém nos vence,
Morremos, sim!

Tiros das avançadas, crescer do fogo, calar baionetas; cavallos á carga ; troar dos canhões. Combate rápido, mas tigrino.

Castello-Branco, uma das nossas melhores espadas, aleijado da mão direita nos assaltos do Porto, matou com um tiro de pistola o Pancada, também um valente. Pancada era do campo de Sá da Bandeira; Castello-Branco do Vinhaes.

Galamba, o guerrilheiro, o dragão, acudiu a vingar o seu camarada, e decepou a cabeça de Castello-Branco com uma tremenda cutilada.

Fernando Mousinho, commandante dos académicos, que perdera o pae em Torres Vedras, cahia ás primeiras descargas, atravessado pelos peitos, como havia dez annos tombara no Chão da Feira com egual ferimento. Joaquim Guedes de Carvalho e Menezes, da casa dos condes da Costa, teve o braço partido por uma bala de fuzil. 

Os académicos deixaram cinco dos seus camaradas no monte ensanguentado. Dois d'elles fôram assassinados depois de prisioneiros.

Nas quebradas umbrosas do Alto do Viso quem, noite cerrada, vae subindo de Setúbal para Azeitão, lá descobre uma luz como estrella pallida, luz que vem de uma ermidinha onde os dois inimigos, Pancada e Castello-Branco, descançam abraçados na paz da morte [...]

Na tarde de 1 de maio de 1847 a aragem do sul trazia a Lisboa os echos do canhão do Sado.

Ao Terreiro do Paço, noite alta, chegavam as macas com os feridos, alguns moribundos.

Lisboa, Praça do Commercio, gravura de João Pedro Monteiro (1826-1853) c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sangue em Torres Vedras, em Val-Passos, em Vianna do Alemtejo, nas ruas de Lisboa, no Alto do Viso! [...] (3)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907
(3) Bulhão Pato, Idem

Mais informação:
Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha I, 1880
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha II, 1880
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 I, Lisboa, Manuel Gomes, 1901
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 II, Lisboa, Manuel Gomes, 1902
Guerra Civil Portuguesa
Cronologia do Liberalismo

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sábado, 6 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (2 de 2)

É agora em Lisboa. O Porto passara o encargo para a capital, que recebia com o encargo o sublime exemplo em que tinham tido olhos fitos quantos ouviam narrar os padecimentos e esforços da cidade invicta.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando em julho abrira Lisboa as portas á divisão liberal [v. Almada Virtual Museum: Guerras Liberais], principiaram os habitantes a correr às armas, e foram-se organisando os batalhões de voluntários fixos e moveis [...]

Solicitando porém no principio de agosto auctorísação do imperador, e recebendo-a para executar o que entendesse, forçou as linhas sitiadoras do Porto a 18 de agosto, e libertando-o como o tinha salvado, pôde immediatamente realisar o complemento do seu grande plano, correndo a Lisboa, trazendo uma valorosa divisão, trazendo-se a si próprio, e chegando exactamente quando o perigo, pelos motivos expostos, ia ser tremendo.

Logo no dia immediato o imperador e elle correram os arrabaldes [...]

Lisbon, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Mas eis que se approxima o exercito realista, e defronta com Lisboa no dia 3 de setembro. Estabelecida se acha a grande linha realista contra a grande linha constitucional.

Cairá Lisboa, ainda insufficientemente fortificada por falta de tempo, diante do desproporcionado exercito que a vem conquistar? [...]

Ás cinco bens e meia da madrugada n'aquelle dia 5 de setembro, onze mil homens em seis columnas saem das linhas realistas para irromperem as constitucionaes. Ameaçando o centro pelo Campo Pequeno em breve se conheceu qne era por ali um ataque falso.

Na sua direita, porém, bifurcando-se, ao deixarem Sete Rios, uma parte da força investiu pela estrada de Campolide, outra pela de Palhavã; aquella para auxiliar o movimento pelo flanco direito, esta para tomar a quinta Louriçal, e d'ella passar para a quinta do Seabra (quinta Bahia).

Linha de defesa da cidade de Lisboa, 1835.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infelizmente para os atacantes o grande reducto da Atalaya (ponto importantíssimo das posições liberaes) dominava as estradas investidas de Campolide e Palhavã. 

A columna realista que proseguia para Campolide, nao podendo romper, deixa de auxiliar o movimento da sua companheira de Palhavã, e assiste á batalha sem intentar novos accomettimentos.

É a brigada realista e imponente do valoroso coronel Dubreuil que vem atacar em Palhavã o palácio e jardim Louriçal com a mira na quinta, e d'esta para a do Seabra [...]

Tinham sido vencidos por Saldanha os generaes seus patridos; acabavam de o ser os generaes francezes [...]

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Nao se parecia com um rio; era o Tejo um salão de crystal. Meia Lisboa se cruzava n'elle. Outra parte da população lhe bordava as margens.

Battle of Cape St. Vincent of 1833.
A squadron of Portuguese frigates commanded by British Admiral Napier on behalf of the Queen Maria Liberal faction defeated King Miguel’s Absolutist squadron, in the Portuguese Civil War
Imagem: The Westphalian Post

Esquadra portugueza, esquadras de Inglaterra e de França, embarcações mercantes, fragatas, faluas, barcos de todas as praias na extensa linha e em todas as direcções, quantas musicas tinha a cidade compondo a orchestra d'aquelle salão immenso, as senhoras de azul e branco, os homens com seus trajos de festa, o enthusiasmo em todos os corações, a curiosidade em todos os rostos, e o sol abrilhantando o espectáculo: tal corria a manhã d'aquelle dia 23 de setembro de 1833.

E o que é que, despovoando a capital sitiada, levava ao Tejo n'aquelle delírio os habitantes, desde o imperador até o cidadão mais humilde?

Barra dentro havia entrado na vespera a rainha que symbolisava a constituição dos portuguezes.

Quem era? uma menina. D'onde vinha? da proscripção. Que demandava? um sceptro que desencadeava algemas. Três coroas lhe cingiam a fronte juvenil: a inocencia, a desgraça e a emancipação dos povos. A innocencia tornava-a sympathica; a desgraça, heróica; a emancipação das gentes fazia-a adorável.

Rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

Já corria pelo Tejo todo o como ella era. Gentil, como os seus quatorze annos; a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro; porte nobre; rosto reflexivo; no olhar, o sobresalto do que via; no sorriso, o prazer de ser ali o culto de todos.

Sobre o Tejo saudavam-na as salvas das torres, das esquadras, dos fortes. Na cidade esperavam por ella os batalhões nacionaes e a povoação. Quantas mães lhe não tinham sacrificado os filhos! [...]

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No dia 24 [de maio de 1834] quando o marechal Saldanha em Montemor o Novo (a um dia de marcha apenas) ia atacar os restos do inimigo em Évora, recebe um officio do general realista Lemos, pedindo um armistício, e mandando-o também pedir ao duque.

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Gravura, Honoré Daumier, 1833
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Terceira continuou a marchar sobre Extremoz. Saldanha respondeu-lhe que para dar mais uma prova do horror com que tinha visto derramar o sangue portuguez fazia alto n'aquella villa, de Montemor, mandando pedir ao duque da Terceira, a quem animavam os mesmos desejos, para vir ali, a fim de o ouvirem ambos; mas impreterivelmente no dia seguinte. 

Consultado logo por Saldanha o governo, sobre o armistício, o governo recusou-o, ordenando que o exercito realista depozesse incondicionahnente as armas.

Saldanha continuou a marcha sobre a cidade de Évora, fez alto com a sua divisão, no dia 26, em Arrayolos e Évora Monte para dentro em quatro horas, de combinação com o duque da Terceira, cair definitivamente sobre o inimigo, e de todo o aniquilar, quando n'esse mesmo dia se apresentou o general Lemos, tendo dado a sua causa por vencida.

Á noite foi assignada em Évora Monte a convenção pelos dois marechaes e por aquelle general. O imperador decretava a amnistia e as estipulações da mesma convenção [v. Wikipedia (en)].

No dia 30 o marechal Saldanha entrava na cidade de Évora e perante elle depunha as armas o exercito realista. No dia 31 occupavam a praça de Elvas as forças do duque da Terceira, que, a três léguas d'aquella praça, tinha o seu quartel general na Azaruja.

S.M.I. o Senhor D. Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora
D. Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses,
Nicolas-Eustache Maurin,1832.
Imagem: Wikipédia

Terminara a lucta, e vencedora ficava, para nunca mais perecer, a liberdade portuguesa. (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerras Liberais (LeoT)
Guerras Liberais (AVM)

Mais informação:
Guerra Civil Portuguesa
António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo..., Lisboa, Typ. Universal, 1863
Cronologia do Liberalismo
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836

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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (1 de 2)

No dia 26 de Janeiro de 1833 chegava às aguas do Porto o conde de Saldanha, com alguns companheiros da emigração, e na manha de 28 effectuava o seu desembarque.

Duque de Saldanha por John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Mas porque não figurava o conde de Saldanha entre os seus camaradas desde o dia 9 de julho do anno anterior em que a expedição liberal aportara á praia do Mindello?

Vista da praia da Arnosa de Pampelido onde desembarcou o senhor Dom Pedro à frente do exército libertador.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Aprestava-se em França a expedição, quando, escolhido previamente o conde de Saldanha para chefe do estado maior do sr. D. Pedro, este, mandando-o chamar no dia 13 de janeiro de 1832, lhe communicava que o embaixador, de Hespanha promettia em nome do seu rei a neutralidade na futura guerra civil portugueza, sob a clausula de que Saldanha nao fosse à frente da expedição, e que, dado o caso contrario, Fernando VIl interviria com um exercito de quarenta mil homens [...]

E era exactamente a 24 de janeiro d'esse anno de 1833, no próprio dia em que Solignac, estreiando-se no commando salvador abandonava ao inimigo o importantíssimo monte do Crasto na Foz, que Palmella, repellindo da maneira mais nobre e mais digna certas arguições do nosso governo sobre o desempenho da sua commissão politica, declarava de Londres ao imperador ter occultado officialmente a lord Palmerston a fraqueza em que estava a causa liberal, e recordava ao mesmo imperador as suas próprias palavras dirigidas a elle Palmella: "A suspensão de armas para nos salvar deve ser dentro de trinta dias da data da minha escripta (16 de novembro)" [...]

Carta topográfica das Linhas do Porto (detalhe), 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O almirante Napier, que na guerra liberal quinhoeiro foi também de louros tão gloriosos, escreve que no dia 28 de janeiro desembarcavam na Foz os generaes Saldanha, Stubbs e Cabreira, e que, apesar de estar a causa já sem esperança obedeceram com presteza ao chamado, tomando então Saldanha o commando da linha esquerda, e estabelecendo o seu quartel general na Foz, a posição mais arriscada de toda a linha da defeza [...]

Mostrada logo a Solignac por Saldanha a urgência de occupar o montículo do Pinhal, onde se jogava a sorte da causa, Solignac respondeu-lhe que nao seria temeridade unicamente, mas loucura o emprehender tomar o montículo nas novas condições em que se achava defendido, e ordenou positivamente a Saldanha que o não tentasse fazer [...]

Na seguinte noite o desobediente general atacava à bayoneta, com quatro companhias, o piquete realista, desalojava-o e occupava o indispensável montículo [...]

Acceita a demissão de Solignac no dia 13 [de junho de 1833], era no dia 14 nomeado chefe do estado maior imperial o conde de Saldanha [...]

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É uma hora d'aquelle dia 5. O exercito sitiador ataca a linha esquerda do Porto (sobre Lordello) em todo o semi-circulo da defeza, desde o Carvalhido até á casa da fabrica do Antunes.

Carta topográfica das Linhas do Porto, 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duas columnas realistas, saindo de seus entrincheiramentos, avançam, entre a quinta do Wanzeller e a casa do Plácido, no intento de cortarem as communicações do Porto com a Foz.

A primeira columna ataca o centro e a direita da fabrica do Antunes, o ponto visivelmente mais arremettido. O capitão Pedroso, de infantería 15, á frente da sua companhia e com parte da quinta, investe com tal denodo os realistas, de posse, no primeiro impeto, de parte da fabrica disputada, que os desaloja apesar da desproporção das forças, emquanto o valoroso brigadeiro Duvergier, seguido de algumas companhias do segundo regimento de infantería da Rainha, repelle a reserva da columna que primeiro tomara a posição; mas recebendo n'um braço o ferimento mortal que lhe ha de produzir a morte, é substituído por Zuppi, que, apesar de ver cair ferido também gravemente o bravo capitão Victoríno, sustenta a posição tenazmente [...]

O inimigo estava sendo ali protegido por um vivíssimo fogo dos seus reductos de Serralves e das baterias da margem esquerda do Douro; mas Saldanha, que dirigia pessoalmente o fogo nos pontos atacados "com a perícia e acerto que o distinguia", manda logo collocar em fogo cruzado e nos ângulos convenientes a única peça e o obuz de que as podia dispor, e por este modo auxilia as novas cargas de infanteria pelos flancos e em frente da fabrica, tornada a atacar pelos realistas por todos os lados.

Em presença d'aquelle movimento estratégico e repentino, combinado com o arrojo da execução, vê-se desanimar a linha do inimigo, estorcer-se como longa serpente, ceder, desistir, retirar-se, e proseguindo na idéa de cortar a linha da Foz, ir flanquear pela direita a quinta do Wanzeller [...]

Carta topográfica das Linhas do Porto (detalhe), 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Iam dar cinco horas quando os derradeiros tiros denunciavam o termo da batalha, começada na esquerda, seguida no centro e finalisada na extrema direita [...]

No mesmo dia 5 de julho, em que Saldanha ganhava tao brilhante victoría, estrelando o seu novo cargo de chefe do estado maior imperial, vencia também um combate naval nas aguas do cabo de S. Vicente o vice-almirante Napier, que vimos largar da barra do Porto com a expedição commandada pelo duque da Terceira.

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Clareia o crepúsculo d'aquelle dia 25 de julho, e lá está elle já, rodeado dos seus, no ponto mais fraco, e portanto mais serio, de toda a linha da defeza, junto á quinta Wanzeller, sereno o semblante, apurando o ouvido, pondo a alma nos olhos, na apparencia tranquillo como intrépido, no interior agitado como general que se desejasse multiplicar por todos os logares da lucta.

Entrance of the river Douro, Edward Belcher, 1833.
Imagem: ICGC Cartoteca Digital

Commandantes, officiaes, soldados, quantos a distancia permittia que o vissem, tinham os olhos fitos n'elle, e d'elle recebia cada combatente um dos raios que partiam d'aquelle astro da victoria; confissão de todos os que militaram debaixo do seu commando.

Batem cinco horas. Restruge nos ares a primeira descarga geral da artilhería realista dos reductos de Serralves, do Crasto, do Verdinho, da Furada e de lodos os outros de ambas as margens do Douro. "Rainha e Carta", responde nos corações toda a linha liberal á mortifera salva que annnnciava o assalto.

Dera signal o campo inimigo. Á descarga geral das baterias principiaram a sair dos entrincheirammtos realistas quatro differentes colnmnas de todas as armas, acompanhadas de dezeseis bocas de fogo [...]

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Vencedora estava após horas successivas toda a linha esquerda do exercito liberal, desde a Foz até o centro, nas quatro posições capitães, fechos do férreo cinto que apertava o Porto [...]

Vista da invicta cidade do Porto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Conde de Saldanha, tenente general dos reaes exércitos, chefe do meu estado maior. Tomando em consideração a perícia com que vos houvestes no memorável dia 25 de julho, repellindo consideráveis forças inimigas em seus successivos e desesperados ataques contra as principaes posições das linhas do Porto, pondo em pratica com a maior dexteridade e coragem as minhas ordens, dando disposições tão habilmente concebidas como energicamente executadas, carregando com poucos officiaes do estado maior e vinte lanceiros a força superior, que tentando occupar os postos avançados entre o Bomfim e Guellas de Pau, nao pôde resistir ao impeto de tão grande bravura, alcançando-se em resultado de tantas proezas uma completa victoria... por estes motivos hei por bem, em remuneração de tao distincto merecimento e de tao altos serviços, elevar-vos á dignidade de gran-cruz da muito nobre ordem da Torre e Espada do valor, lealdade e mérito [cf. Chronica Constitucional de Lisboa, 28 de agosto de 1833]."

Oporto, Porto, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: David Rumsey

Não podera Saldanha até ali emprebender a guerra offensiva, mas fora obrigado a limitar-se á defensiva. É chegado o momento. Vae irromper. Batalha nenhuma dera ainda, em que a previdência, a estratégia, a barmonia das disposições lograssem occasião de attingir o alto ponto que vamos presencear [...] (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerras Liberais (LeoT)
Guerras Liberais (AVM)

Mais informação:
Guerra Civil Portuguesa
António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo..., Lisboa, Typ. Universal, 1863
Cronologia do Liberalismo
Um Portuense, O cerco do Porto, Porto, Typ. de Faria & Silva, 1840

Iconografia Portuense:
Cabral Moncada Leilões
do Porto e não só...
Porto de Agostinho Rebelo da Costa
Porto Património Mundial

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): na Campanha de Montevideu

De Lisboa se fez à vela Saldanha em 27 de julho de 1815 no navio Despique, e outros officiaes, entre elles o brigadeiro Sebastião Pinto, que viera trazer a ordem do governo para se organisar a expedição dos voluntários.

Entrada da baía e da cidade do Rio a partir do terraço do convento de Santo Antônio, Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Museu Nacional de Belas Artes

Em hora propicia levantou ferro, depois, a expedição composta dos quatro mil oitocentos e trinta e um voluntários.

Ao Rio de Janeiro aportaram a cavallaria e a artilheria em princípios de novembro de 1815, e a infanteria a 4 de abril de 1816 com viagem de quarenta e quatro dias [...]

Longe nos levaria o historiar a minuciosa campanha de Montevideu, que durou cinco annos, de 1816 a 1821. Longa foi e cortada de obstáculos, por differentes circumstancias.

Revista na Praia Grande das tropas destinadas a Montevideu, Jean-Baptiste Debret.
Imagem: Google Arts & Culture

Primeiramente porque teve de ser feita em duas capitanias, dirigidas por dois generaes, e todos sabem as difficuldades que se originam do commando dividido.  Acrescia o modo diverso de peleja nos dois campos. Por ultimo, o systema das operações de Artigas, substituindo ás batalhas francas a ardilosa divisão das forças, contrariava a estrategia estabelecida [...]

A primeira brigada (de que formava parte o regimento conmiandado por Saldanha) fora encarregada dos movimentos exteriores da praça de Montevideu, pertencendo-lhe vigiar o inimigo nas circumvizinhanças da cidade, e defendel-a.

Sortidas importantes e proveitosas se realisaram. Em fins de janeiro de 1818 aguella primeira brigada foi rendida pela segunda brigada, que até ali fizera a guarnição da praça, e, em seguida, mandado Saldanha tomar o commando de uma columna importante na divisão do general Curado, ao longo do grande rio Uruguay [...]

A João Carlos de Saldanha foi entregue o commando da columna ligeira, que, em movimentos contínuos, devia sustentar, contra as forças de Artigas, o extenso território ao longo do importante rio Uruguay.

Revista na Praia Grande das tropas destinadas a Montevideu, Jean-Baptiste Debret.
Embarque da Infantaria portuguesa, na Ponta da Areia, Praia Grande, Rio de Janeiro, em 7 de Junho de 1816.
Imagem: Google Arts & Culture

Este rio era a fronteira Occidental da capitania de Montevideu, que a separava das províncias de Entre-Rios e Corrientes, pertencentes ao inimigo.

Conhecer-se-ha a importância de toda esta margem, onde Saldanha operava, se se considerar que as indicadas provindas de Entre-Rios e Corrientes eram o ponto de apoio, o vasto arsenal, por assim enunciar, onde Artigas e os seus generaes se iam refazer quando vencidos, e d'onde, por meio de novas combinações estratégicas, repassando o mesmo Uruguay, vinham intentar novos combates no grande território disputado [...]

Esta cavallaria dos feros gaúchos é que a brigada de Saldanha ia ter defronte de si durante a disputada guerra.

Contra os exércitos francezes já estavam affeitos os nossos bravos; contra aquella gente e aquella cavallaría, ainda não [...]

Para os seus soldados disse então Saldanha (com o intuito de os animar): que no dia seguinte iam combater os de Artigas, homens como elles, que n'aquella campanha tinha Portugal os olhos fitos, que lhes caberia a gloria de vencer, e que elle seria o primeiro que irromperia contra o inimigo, contra a celebre cavallaria de Artigas commandada pelo afamado Lavalléja. Se bem o disse, melhor o fez.

No dia seguinte, nas vastas planícies do Uruguay, Saldanha, á frente dos seus cavalleiros, irrompia furioso contra o furioso gaúcho. A cavallaria portugueza, qual a romana á voz de César, lançava-se intrépida contra a cavallaria oriental, invencível e medonha como a dos antigos bárbaros, seus predecessores.

A gloria coroou os nossos, nas campinas americanas, á voz do guerreiro que parecia celebrar com os triumphos o pacto da victoria. "Quando acabou o combate, narrava Saldanha, todo eu era sangue e miolos, da cabeça aos pés". — Acertara o César lusitano: a decima legião não precisava dar lições à legião de Portugal.

Só n'uma das manhãs não menos de cinco arrojadas cargas deu Saldanha á frente da sua cavallaria Pintam factos taes o arrojo d'aquellas luctas [...]

Corre o anno de 1819. Os dois capitães generaes Lecor e o conde da Figueira operam de accordo.

Lecor intenta abrir as communicações pelo rio Uruguay entre a capitania de Montevideu e os povos das Missões, situadas no alto da capitania do Rio Grande, procurando tambem evitar que as forças inimigas passem para áquem do celebre rio nos pontos acima do Salto.

Era um plano complexo e importante. A columna de Saldanha, já reunida à divisão do general Curado, é mandada apoiar a passagem do rio Negro, executada pela columna do coronel Marques, fazendo juncção logo em seguida as duas columnas. e indireitando ambas, sob o comnando de Saldanha, para a barra do Arroyo dos Curraes, estabelecendo-se em communicação com as forças do conde da Figueira.

Approximavam-se os grandes acontecimentos. Tinham já succumbido os intrépidos vice-chefes de Artigas, Verdum, Aranda, Tallier e outros. 

Vista de Montevideu desde La Aguada.
Imagem: Miscelánea

Em outubro Fructuoso Ribeiro é também destroçado. Ao Napoleão da Banda Oriental soava a hora do Waterloo americano.

Reapparecendo, com forças novas, nas nossas fronteiras, e levando tndo a ferro e fogo, Artigas conseguira pôr em debandada a columna do general Abreu até ao Passo do Rosario, mas, junta a esta columna a do general Camara, reuniram-se-lhes também as forças do conde da Figueira, que tomou o commando, cabendo-lhe dar um golpe mortal na campanha de Artigas.

Os orientaes, acampados em posição forte na margem esquerda do rio Taquarembó, esperaram os nossos.

No dia 22 de janeiro de 1820 o conde da Figueira atacou por ambos os flancos as forças do caudilho Latorre e dos seus intrépidos sub-chefes Sotello e Cahiré, destroçoa-as, salvando-se Latorre á garupa de um indio, succumbindo na peleja Sotello e muitos officiaes superiores, ficando mortos no campo oitocentos inimigos e aprisionados quatrocentos e noventa.

Artigas, em Maloojo, não se tendo podido reunir á divisão de Latorre, mas conseguindo congregar os dispersos, alcançou (por um movimento estratégico digno d'elle) passar o Uruguay para o seu território de Corrientes, no intento de se reforçar.

Restava ainda o perigo d'este sangue novo magicamente inoculado no exercito por aquelle espirito invencível, que não quebrava, e que por tantos annos logrou suster-se contra as forças que se lhe oppunham e contra os povos que o detestavam.

De janeiro a maio pacificára-se todo o interior da Banda Oriental (a capitania de Montevideu). Fructuoso Ribeiro, rendendo-se ao general Lecor, entrava ao serviço de Portugal [...]

Combate dos Portugueses contra os Hespanhóes, Montevideu 1817.
Imagem: Os voluntários reais

Terminava a campanha de Montevideu que dilatava o nosso terrítorío, conquistando toda a Banda Oriental do Rio da Prata.

Entrada dos Portugueses em Montevideu em 1821, gravura de Gilberto Bellini.
Imagem: Revisionistas

Esta recebia o titulo de provincia Cisplatina, acceitando jubilosa o encorporar-se na monarchia portugueza.

Succedia este facto glorioso no anno de 1821.


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Mais informação:
Os voluntários reais
Uniformes do Exercito brasileiro, 1730-1922
Invasión luso-brasileña
Montevideo antiguo

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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): na Guerra Peninsular

No dia 27 de novembro de 1807, decorridos três mezes depois de João Carlos de Saldanha ter sido despachado capitão effectivo, o príncipe regente, acompanhado da família real e de parte da corte, saia a barra de Lisboa, fugindo aos francezes commandados por Junot, deixava em seu logar uma regência, e recommendava à nação que recebesse o exercito invasor como verdadeiro amigo, amigo porém ao qual sua alteza fazia as honras da pátria, abandonando-a para o não ver. 

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

O reinante fugido, a nobreza dispersa, o commercio paralysado, exhausto o erário, a esquadra singrando para os mares americanos e deixando na orphandade o Tejo em perigo, a invasão irrompendo, com duas calamidades, a amisade fingida e a assolação desrebuçada: eis o quadro lastimoso. 

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
Imagem: ComJeitoeArte

Em tão densas trevas só uma luz entreluzia esmorecida ás vistas geraes, mas concentrando em si toda a força do brilho que na propicia occasião lançaria em jorros: era o povo [...]

oooOooo

Acabámos de ver o moço João Carlos demittido, em 1807, a pedido seu, e aguardando o ensejo de tudo sacrificar pela salvaçao da pátria.

Meses depois, quando, meiado anno de 1808, se levanta a nação, corre logo às armas João Carlos, sendo reintegrado por decreto de 30 de setembro no posto de capitão, encorporando-se, com o bravo regimento 1 , na divisão do general Bernardim Freire de Andrade.

Marcha para o campo da batalha em julho de 1809, commandando a oitava companhia do seu regimento [...]

Decorrem cinco mezes. Fora chamado a Thomar, temporariamente, para ajudante de campo do brigadeiro Miranda Henriques, depois visconde de Souzel. 

 Tomar.
Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., George Cumberland
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Beresford, nomeado commandante em chefe do exercito portuguez, acabava de o organisar, estatuindo que a táctica ingleza fosse applicada á nossa tropa. Que era difficil a transformação pratica, sem tempo sufficiente, salta á vista menos perspicaz. 

O capitão João Carlos de Saldanha lançou-se a estudar, praticamente, por acto espontâneo e com todo o ardor, os exercidos de brigada conforme a táctica novíssima, e quando Beresford, chegando a Thomar, passa revista á divisão do general Blunt, este general apresenta a Beresford o capitão João Carlos, "como o único official já completamente habilitado para commandar pela táctica referida", como o provou, commandando ali um regimento. 

Beresford, enthusiasmado, promove a major por distincção militar, em 2 de dezembro de 1809, o moço João Carlos, com dezenove annos de idade, preteridos por aquelle comportamento especial de Saldanha quasi todos os Capitães do exercito, e manda-o desde logo encorporar no seu regimento 1, "por querer nas fileiras o major mais distincto do reino" [...]

Desenrola-se a monumental campanha peninsular.

Succede-se brilhantemente a serie das batalhas que foram assombro do mundo.

Na celebre batalha do Bussaco (27 de setembro de 1810) vê-se o major João Carlos de Saldanha, no meio de um fogo infernal reunir as duas companhias de granadeiros dos regimentos 1 e 16, e no sitio fronteiro ao quartel general de Wellington, á frente do novo e por elle improvisado batalhão, repellir denodadamente o inimigo.

A view of the sierra de Bussaco at St. António de Cantaro, 27 Sep. 1810.
A series of views of the Principal Occurrences..., Major St. Clair.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O comportamento do batalhão mereceu o titulo de bizarro, e o joven Saldanha tomava-se, por aquelles brilhantes feitos, digno de elogios especiaes.

The Battle of Bussaco.
Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

De 7 a 19 de janeiro de 1812 tomava parte com o seu regimento 1 no assedio e assalto de Giudad-Rodrigo, que ficaram immortaes. 

A brigada de Pack (de que o regimento 1 de Saldanha era o primeiro corpo de infanteria), uma das destinadas ao assalto, convertendo espontaneamente o ataque simulado n'um ataque verdadeiro, e no impeto fazendo prisioneiros a quantos se lhe oppunham, comportou-se de tal modo, que lord Wellington declarava officialmente no dia seguinte haver mesmo excedido as suas esperanças; e entre os regimentos que especialmente se distingiuram recommendava o regimento 1. 

A distant view of Ciudad Rodrigo.
A series of views of the Principal Occurrences..., Major St. Clair.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na batalha dos Arapiles (Salamanca) a 22 de julho o seu regimento na brigada de Pack foi um dos que investiram aquelles montes, conseguindo arrojadamente apoderar-se da altura, e pelejando as tronas quasi braço a braço. 

The Battle of Salamanca.
Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Com a distincção costumada combateu na acção do Carrião a 23 de outubro, na dereza da passagem do [rio] Thormes de 8 a 14 de novembro, no combate de S. Munhoz a 27. 

Salamanca [passagem sobre o rio Tormes].
Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em setembro d'esse anno fora promovido a tenente coronel, preteridos vinte e três majores, e entre elles majores inglezes, como também por distincção havia sido promovido a major, preterida a maior parte dos capitães [...]

Principiava a campanha de 1813. Os francezes tinham sido arremessados para fora de Portugal pelo exercito alliado, e os nossos perseguiam o inimigo por Hespanha. A brigada de Pack (infanteria 1, a que Saldanha pertencia, 16, e caçadores 4) formava a vanguarda da esquerda do exercito.

Na brilhante batalha de Victoria (21 de junho de 1813) Saldanha esteve sempre no fogo desde o meio dia até á noite [...]

The Battle of Victoria.Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Esta a immortal batalha de Victoria a 21.

D'ali a três dias a mesma brigada foi mandada tomar uma posição no caminho para Villa Franca, e tomou-a valorosamente.

Não relata Saldanha o nome da povoação. Era a aldeia de Veasayn. O general Graham participava que o ataque e a tomada de Veasayn se tinham executado da maneira mais brilhante. 

O inimigo fora expulso arrojadamente, evacuando em seguida Villa Franca, ponto de que a nossa gente se queria apossar e que logo occupou.

Villa Franca.
Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Succediam-se os combates sem interrupção: o inimigo perdendo e recuando, os nossos vencendo e arremessando-os.

No dia 25 os francezes, firmando pè, esperam o nosso exercito, a distancia de uma légua antes de Tolosa. 

Deu-se a batalha. "É tal a natureza do terreno (escreve João Carlos textualmeníe), que só vendo se é que se pôde conceber; a quasi todos pareceu impossível poder desalojar d'ali o inimigo, mas o bravo sir Thomás Graham dispoz logo a batalha. 

"A minha brigada" e a de Bradford "atacaram de frente". Ás seis Horas da tarde os francezes começaram a ceder e a retirar-se para Tolosa. 

"Tolosa é murada, e os francezes tinham fechado as portas e barricado as ruas, porém o nosso segundo Wellington, que nao acha difficuldades, mandou avançar a artilheria, e com ella arrombou as portas.

Entrámos em Tolosa à noite. Hontem e hoje fizemos alto, e com effeito se este trabalho durasse mais quatro dias sem descanso, parece-me que morria de fome e de somno. Os meus comprimentos a todos, e as manas que se lembrem de pedir a Deus que eu possa ainda ter o gosto de as ver."

N'esta ultima recommendação transparecem vivamente os perigos que elle arrostou no decorrer da terrível batalha.

Mas lá vae succedendo uma scena formosíssima, que a todos impressiona e que aos próprios combatentes commoveu com lagrimas. Que é? Arrombadas as portas de Tolosa, o exercito alliado principia a tomar uma a uma as ruas barricadas. As famílias hespanholas estão todas (como è natural) encerradas nas casas, implorando o Deus da victoria a favor do exercito que principia a entrar e a combater [...]

O marechal Soult, correndo em soccorro da praça, perdeu a batalha, sendo obrigado a retirar-se, e Pamplona veiu depois a capitular.

Está sitiada a praça de S. Sebastião.

Mapa San Sebastian.
Historical military picturesque... George Landmann.Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


No primeiro assalto á praça (a 25 de julho) o seu regimento 1 foi dos escolhidos para atacarem a brecha. Em todo o tempo que marcharam fora das trincheiras e du- rante o assalto, uma chuva constante de granadas de mão, bombas, metralha, paus em braza, lhes foi verdadeiro tormento [...]

Nem de dia nem de noite cessava sobre os nossos o fogo da praça. As sortidas do inimigo eram incessantes: hífructifero â primeiro assalto à praça de S. Sebastião, é ordenado segundo assalto para o dia 31 de agosto. O que não se consegue em dia de Santa Maria, consegue-se n'outro dia  [...]

Ha mais; foi exactamente pela maneira admirável por que João Carlos commandou o seu regimento na batalha de Nive que o príncipe regente de Inglaterra, alem de o condecorar com a medalha de conunando n'aquella batalha, como contemplou outros commandantes de corpos, lhe fez a elle a distincta e excepcio- nal especiaUdade de lhe enviar a placa da mesma medalha, que sua alteza mandou expressamente cunhar em Londres para lha offerecer [...]

O príncipe regente de Portugal, nao querendo reconhecer menos, nem menos galardoar os serviços do moço João Carlos, na guerra peninsular, quando este, anno e meio depois, chegou ao Brazil para a campanha de Montevideu, nomeou-o cavalleiro da Torre e Espada, condecorou-o com uma commenda da ordem de Christo, e as distincções com que o recebeu e tratou foram tantas, que (formaes palavras de Saldanha): "Com mil vidas não as pagaria" [...]

As nuvens dissipavam-se . Napoleão embarcara , depois da abdicação, para a ilha de Elba, e os soberanos alliados tinham entrado em Paris. Na manhã de 28 de abril a guarnição franceza achava-se formada na explanada de Bayonna, defronte d'ella a tropa sittiadora, também formada. Bate meio dia.

O general Thouvenel arvora na cidadella a branca bandeira das flores de lis, e toda a artilheria da praça rompe uma salva real. Corresponde-lhe a artilheria que cerca Bayonna. Estrugem os vivas aos alliados e á libertação dos reinos europeus, abrem-se as portas a exercito sitiador.

Dia verdadeiramente grande para aquellas almas, saciadas do fogo e ávidas da paz. "Acabaram-se emfim os nossos trabalhos", escrevia Saldanha dois dias depois. 

St. Sebastian.
Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., George Cumberland
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sim, acabavam-se-lbe os trabalhos da que para outros podera ser uma campanha completa, quando para elle era unicamente o preludio da vida marcial. Terminava a guerra em 1814. 

O sol da independência brilhava finalmente, com todo o esplendor, no céu peninsular. (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerra Peninsular (LeoT)
Guerra Peninsular (AVM)

Mais informação:
Peninsular War
Anglo-Portuguese Army

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