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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma outra Lisboa...

Rui Manoel Baptista Velho de Palma Carlos (1948-2008). Pintor neofigurativo, também arquitecto, escritor, ilustrador e poeta.

Lisboa anos cinquenta, Rui Palma Carlos, 1981.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A sua obra denota um fascínio pelos pintores do princípio do séc. XX e é especialmente dedicada a retratar fachadas de prédios antigos, casas tipicamente portuguesas, solares, etc. chamando a atenção para a sua recuperação urgente ou para a sua conservação intercalando figuras que podem entrar em diálogo, revelando um misto de humor e de nostalgia.

Em terra dos bem-casados, Rui Palma Carlos, 1981.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Rui de Palma Carlos ilustrou diversas obras, nomeadamente de Camillo Castello Branco, Eça de Queiroz, Abel Botelho, Joaquim Paço d'Arcos, etc. — e tem escrito e ilustrado livros infantis.

Lisboa, Rua Maluda, Rui Palma Carlos.
Imagem: BestNet Leilões

Expôs em diversas galerias, sobretudo no Palácio Foz (1973, 1974, 1988 e 1989) e no Casino Estoril (1977, 1981, 1983 e 1985). (1)

Rui Palma Carlos, Colecção Casas de Lisboa.
Imagem: Ilustração Antiga

Obras do Autor: "Eu Fui Ao Fim de Portugal" (1993); "Lisboética E Outros Poemas (1977); "A Casa da Carochinha" (1981); "A Carochinha Muda de Casa" (1981); "História da Família Corrente" (1993); Obras em gaveta: "Viagem Ao Centro Da Minha Terra" e "Era Uma Vez Uma Família Maluca". Obra Impressa: Serigrafias; Litografias e Colecções de Postais. (2)

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E quanto a nós que, a seu tempo, lhe conhecemos as aguarelas, as serigrafias, as litografias e as colecções de postais, como "Casas de Lisboa", edição Margrape de 1985, vimos na posição da cor e na envoltura do traço uma ingenuidade demonstrativa e intencional, que recriava ambientes lineares, como se fosse um Cézane descomplicado ou uma "Pixel Art" recente.

Lisbon, Portugal.
Imagem: Archipics in Deviant Art

Arquitecto de formação, pressupunha isometrias, ainda alheias ao "AutoCAD" mas de onde se deduzem "renderings" que nos remetem para passagens incessantes por uma outra Lisboa que persiste.

Lisboa Lisbon by night. Tribute to this wonderful city.
Imagem: Behance


(1) Arcadja  cf. Palácio do Correio Velho
(2) Real Abranches

Informação relacionada:
Croniquetas de Lisboa

sexta-feira, 17 de março de 2017

Leão d'Ouro (1885) cervejaria museu

Em boa hora d'enthusiasmo innovador os fantasistas pintores, que compõem o triumphante "grupo do Leão", — tão celebrado já e estabelecido e applaudido n'esta capital formosa, que é de marmore e de fabuloso granito sobretudo para as esturdias manifestações artisticas,— se lembraram de decorar originalmente as paredes da escolhida cervejaria onde passam as noites em alegre convívio amigo, e que, depois de certa mudança, se investiu do titulo colorido de "Leão d'ouro", como que evocando a tradição lentamente apagada das velhas estalagens, que se vão esborrondando e sumindo na poeira tenebrosa e bafienta do esquecimento, numa sepulchral subversão de romantisados cardanhos ramalhetados com verde loureiro, rubicundas e roliças Maritornes, maus lençoes povoados de pulguedo, guisados frustes d'aldeia, vinhos azêdos, nao esquecendo os celebres assaltos feitos, ás horas caladas da noite, por barbudos homens de fera catadura reforçada pelo trabuco das lendas.

Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro (detalhe), editado com desenho de João Ribeiro Cristino, 1885.
Imagem: Provocando uma teima & O Occidente n.° 229, 1 de maio de 1885

Pois, vivamente impulsionados pelo seu capricho, e com um absoluto desinteresse quasi nababico, conseguiram em pouco tempo transfor-mar uma loja acachapada de tosca estructura, n'uma especie d'interessante museu-livre, faustosa-mente forrado com pinturas opulentas, de caracter vario, nas quaes cada um pôz sem duvida o melhor do seu talento, atiçado pelo esforço nobre d'emulação n'este pittoresco, saudavel, e fecundo concurso.

E creio que d'ora em diante muito forasteiro ha de ir no Leão d'ouro examinar attentamente os quadros que o ornamentam, se lhe convier saber qual o cothurno e o pulso d'alguns modernos artistas portuguezes, que ainda não acharam nas galerias nacionaes, albergadas sob a negra aza madrasta do peco estado, um pobre modesto logar para uni só quadrinho bem pequenino. 

Entra-se, e olhando para a direita por uma supersticiosa precaução d'enguiço, admira-se logo a tela ampla onde Malhoa pintou um effeito ridente, vermelho e radiante d'alvorada, desabrochando luminosamente sobre um deserto brejo, n'uma suprema explosão d'ouro e sangue transparentemente fundidos, com alguns farrapos isolados de nuvem que parecem coagulados, escurecidos e avéssos á serena festa musicante da mocidade do dia, gorgeiada pelos passaros.

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat

Debaixo do ceu resplandecente a paysagem plana e verdosa desdobra-se ainda confusamente, empastada de sombras, acreamente velada pela fulva luz diaphana que vem amarellecer as aguas baças do primeiro plano, onde umas tufadas tabúas se ramificam n'uma disparatada mancha japoneza, emquanto que, do outro lado, um barco escavacado emerge a prôa limosa e podre, lembrando a cabeça informe d'um monstro habitante da soalheira laguna.

Evidentemente o artista apaixonou-se pelo seu assumpto, que lhe pediu urna verdadeira pyrotechnia de cor; foi sincero e exuberante, surprehendendo o flammame espectaculo da natureza acordando festivalmente; e com o pincel soube fazer obra de poeta. É tambem de Malhôa uma tira ao alto, trabalho de pequeno (alego, em que, por traz diurnas enroscadas ramarias dc macieira em flór, se vê uma torre de negro aspecto perfilada no ar e cercada pelo vôo torneante e brincalhão das andorinhas, repatriadas no cortejo da primavera.

Em seguida, encontra-se um destes quadros magistraes de Silva Porto, uma paysagem repousada feita com a sua experiente superioridade, que sempre nos faz a impressão de que cada tom e cada toque por elle empregados sabem perfeitamente o togar que occupam, na obra d'arte, compenetrados e orgulhosos.

Enche o lado esquerdo da tela uma cerrada massa verdenegra d'altas oliveiras, com as espessas folhagens duras esburacadas dc sombras, os grossos troncos pardos e retorcidos sahindo do solo como convulsos braços de gigantes mal enterrados; algumas cabras pretas trituram hem pacificamente, no primeiro plano; depois, sob a aunosphera azul manchada largamente dc branquejantes nuvens, estende-se o campo vestido d uma verduira intensa, saciada de humidades, pondo em destaque algumas esqueletaes arvores nuas e outras já toucadas d'uma florente brancura primaveral. O conjuncto é d'uma tranquilla harmonia, simples e forte como a natureza. 

O quinteiro (Carriche), Silva Porto, 1885.
Imagem: Veritas

João Vaz tem uma marinha, d'um encantador effeito decorativo. O sol pôe-se, atravessando um dourado luzeiro translucido por cima d'uma lingua de casaria lisboeta, que se acinzenta na sombra; e nas aguas mansas do Tejo, onde o ceu esfumadamente brumoso se reflecte, uns barcos tapam o alvacento horisonte com o vulto escurentado das suas velas em calmaria, escorridas.

Ha um socego em todo o quadro, illuminado d'uma tepida claridade vaporosa e como coada, e executado sobriamente n'uma tonalidade quente e doce, alourada por vezes, que o torna um bello pedaço de pintura risonha, e ao mesmo tempo caractenstica n'esta cidade de beira-mar.

Monteiro Ramalho. (1)

Naturalmente, Raphael Bordallo descobriu e executou, com a sua graça incessante, cousa que destacasse, risse áparte pela sua barulhenta novidade foliã.

N'um painel de azulejos, — porque estão imitados, realisados tão enganadoramente, que ninguem se atreve a farejar sequer a existencia de uma recondita e suterrada tela, — Bordallo tracejou espirituosamente as divertidas caricaturas de todos os bons companheiros do grupo, mostrando cada qual pelo mais saliente e typico lado da sua individualidade ou da sua pessoa.

Azulejos fingidos (detalhe), Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Assim, o Alberto de Oliveira, esgrouviado e louro, com a jubosa cabelleira esvoaçate, procura amavelmente trespassar um catalogo ao refestelado e sceptico leão, que o acolhe com um riso marôto, emquanto saboreia a sua cachimbada fumosa; o pacato, brando e quedo Silva Porto cavalga turbulentamente um touro, agarrando-lhe os agudos cornos n'um jubilo de animalista;

Silva Porto, Ribeiro Christino e Alberto Oliveira
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Vaz anda escarranchado n'uma canõa virada; Malhôa, não contente com o seu vezeiro costume de furtar arvores para as suas paysagens, arrancou uma algures e lá vae com ella ao hombro;

José Malhoa
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Vieira, com a sua gorducha cara alegrada pela sempiterna risada, avança hilariantemente a cabeça d'entre as folhas d'uma rosa; o Columbano, baixinho e ironico, empunha vigorosamente a sua enorme paleta carregada de tintas, tendo perto o sorridente Martins que prepara os seus pinceis; Antonio Ramalho, pequenino e rotundo, faz o oficio de rir, pousado nas alturas como um gordo pardal bigodoso;

emquanto que o Gyrão, com uma cabeça expressiva de inspirado, ala-se montado n'um allo fantasmagorico, seguido de um comico bando de coelhos armados de lapis, e precedido por uma ranchada corredora de patos a quem o Pinto abre caminho, calvo e agitando as suas curtas azas batentes de joven gallinaceo.

Moura Girão Manuel e Henrique Pinto
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Emtanto Christino abre alvoroçadamente o seu indispensavel guarda-sol, como que precavendo-se contra o vento de loucura que saccode freneticamente os seus camaradas; e o proprio Raphael parece fugir á tempestade ruidosa que semeou, rindo rasgadamente, pansudo e elegante como um sileno mundano, ás cavalleiras no seu corpulento e nervoso gato assanhado, que não tarda a desabar estouvadamente em cima do nosso amigo Manuel e do seu consolado patrão.

Eu cá, francamente, acho que esta extravagante comeostção bohemia é uma das mais fulgurantes fantasias, que tem produzido a verbo endiabrada do brilhante satyristo. Que o dono da casa lambem apanhou o seu retrato, collocado justamente sobre o reposteiro luxuoso em que a sr.a D. Maria Augusta Bordallo maravilhosamente bordou um chimerico leão batalhante.

Pintou-o Columbano, que lhe quiz dar um curioso aspecto archaico, parodiando certas obras-primas ingenuas e trabalhadas de Alberto Durer.

É magnifica a esguia tela em que Vieira aninhou perfumosamente algumas rosas sensuaes emmolhadas com begonias, debaixo d'uma fófa cortina amarella com prégas quebradas, por onde a sombra negreja.

Este fino colorista, cuja rica paleta rutila promessas, nunca por certo nos mostrou, como neste quadro delicioso e d'um solido valor, uma felicidade d'execução tio segura, fresca, espontanea, e cheia de luz. 

Com um attrahente assumpto muita vez usado — e reusado — e renovado, dilecto ao seu pincel que lhe sabe aproveitar habilmente a variada abundando, Gyrãoo fez um quadro de primeira ordem, onde uns bonitos coelhos em sucia róem folhas de couve vorazmente, dentro de uma capoeira espaçosa, emquanto que um altivo gallo, duma naturalidade admirava!, olha d'alto empoleirado numas grades, tendo ao lado a passiva gallinha aninhada e uma pequena cascata de hervas pendentes, salpicadas de floritas. 

Uma capoeira, Moura Girão, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Por seu lado, Christino deu uma vistosa e agradavel paysagem, com um curvo riacho de aguas verdoengas e lisas, sobre que se debruçam os choupos reverdecidos da tenra folhagem recem-aberta, deixando desafogado o primeiro plano onde umas atarefadas lavadeiras esfregam a sua roupa suja laboriosamente.

E estamos em frente da obra, que soberbamente tem provocado o mais pertinente interesse. É um vasto quadro pintado por Columbano, no qual reapparecem os do "grupo do Leão" reunidos familiarmente em torno de urna longa mesa onde pouco pantagruelicamente figuram reluzentes copos com restos de cerveja ou de vinho, preferido pelos rapazes mais abertamente meridionaes, com uma airosa basofia de raça.

As figuras são de tamanho natural, postas n'uma pittoresca desordem, em altitudes desalinhadas e á vontade de quem está abandonadamente n'um facil cavaco intimo, chalaceando e rindo, ou escutando n'uma indifferença; — e é extraordinaria a pujança brusca, impetuosa, fluente, como agitada de uma febre de observação feliz, com que o valente pintor brochou todos estes corpos bem animados da real vida, colhidos, transplantados victoriosamcnte da sua existencia de cada dia.

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

É um trabalho de mestre, com proporções quasi athleticas, que indubitavelmente lhe veem da facunda e poderosa factura; nem mesmo se repara na carestia da côr: tamborila-nos insistentemente na lembrança um Franz Halls, um Rembrandt, e, numa vaporisaglio de reminiscencia, as figuras surgem-nos vagamente com largos chapeus cavalleiros ou górros farfalhudos de plumas, negros gibões avivados dc rendas, espadas, pedrarias. Ha profundos defeitos, que diabo, palpavets, graúdos, inexoraveis; mas se o grande talento rebelde do Columbano não encerra o dom da pachôrra, e descuida portanto os lados mais materiaes da arte, na presença d'uma obra d'este alcance temos decididamente que lhe perdoar isso, e sem nos fazermos rogados, porque ahi está o grão mestre pintor Rubens que não é positivamente o que se diz perfeito.

Columbano.
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Bofé, amigos meus, que não sei se esta afortunada casa é uma cervejaria, ou "restaurant" ou café, ou botequim, ou o quê; sómente me quer antes parecer que é um benefico e hospitaleiro museu, onde uma pessoa que se preze dc bom gosto póde digerir extasiadamente, n'uma capitosa contemplação d'obras d'arte.

Monteiro Ramalho. (2)


(1) O Occidente n.° 229, 1 de maio de 1885
(2) O Occidente n.° 230, 11 de maio de 1885

Leitura relacionada:
Os quadros do "Leão d'Ouro", Diário de Lisboa, 7 de abril de 1939
Nuno Saldanha, Artistas e Espaços de Sociabilidade no século XIX, O “Leão d’Ouro”... (1885-1905)
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra (v. p. 55)
Provocando uma teima
Margarida Elias, o Grupo do Leão de Columbano Bordalo Pinheiro...
Clara Moura Soares, A Galeria de Pintura do Restaurante "Leão de Ouro":
Percursos de uma Colecção, ARTIS,
Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, nº 6, 2007
Restos de Colecção

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Val de Pereira

Em sessão da Câmara Municipal de 26 de março de 1866, propôs o vereador Isidoro Viana que a azinhaga chamada de Vale do Pereiro passasse a ter a denominação de travessa de São Mamede, por estar no seguimento da mesma travessa, dando-se-lhe maior largura. Para isto bastava expropriar uma terra de semeadura e umas barracas velhas e insignificantes. Foi a proposta discutida e em seguida enviada a informar à Repartição Técnica. Até hoje.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Imagem: Museu de Lisboa

Esta azinhaga de Vale do Pereiro começava no Salitre e ia acabar no caminho ou rua daquele nome em frente da quinta de Santo António, apertada entre os muros da do Cordoeiro, à direita, e do casal da Carvoeira, à esquerda. 

Aproximadamente seguia a directriz da nova rua de Rodrigo da Fonseca que serve de testa ao Bairro Barata Salgueiro.

Da quinta do Cordoeiro, pouco sei; do casal alguma coisa pude apurar. Ficava encravado entre o Salitre, a estrada e a azinhaga de Vale do Pereiro, e constava de casas e outras dependências, terras de semear, olival, vinha e poço de engenho. A carvoeira que lhe deu o nome chamava-se Nazaré e era a proprietária das terras. Em 1820 e tantos pertencia o casal ao súbdito alemão Bento Guilherme Klingelhoefer.

Lisbon, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Falecido este em 1841, os administradores liquidatários da herança puseram o casal em praça e foi arrematado, não sei por quem, nesse mesmo ano.

No estremo dele vê-se hoje o respiradoiro do túnel do Rocio. 

A designação de Vale do Pereiro ou de Pereira e Val de Pereiro é vulgar de sul a norte do país. A corografia do Baptista cita numerosos locais desse nome, com variantes na grafia e no género. 

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O nosso Vale de Pereiro, às abas de Lisboa, remonta ao século XV, pelo menos, e é de crer provenha ainda de mais vetustas épocas. 

Em um dos livros da Mitra Patriarcal, colecção recentemente entrada na Torre do Tombo, encontram se três documentos referentes a este local, os quais passo a analizar.

É o primeiro uma escritura de emprazamento feita pelo arcebispo de Lisboa D. João, em três vidas, a Gil Martins do Poço, de uma vinha e olival em Vale do Pereiro. Está datada de 22 de março de 1442.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Diz o documento muito precisamente: huma vinha e olival que son no Val de Pereira asima danda Luçus (Andaluz) asêrca da dita cidade que son de sua Meza Arsebispal e partem da parte do fundo do Soão (sul) com olival de Cathelina Feya que hora é de Bertholomeu Fernandes e da parte do Aguião (norte) com caminho Velho e deshy tornando através com olival de João Esteves créligo rasoeiro de São Lourenço e deshy entestar da parte do aguião (norte) por Marcos e cómaros e como se vay asima com olival e vinha de João de Lisboa mercador e deshy como se vay em redor e com vinha do Cabbido que ora traz Pêro Soayres Mercador e deshi como se torna arredor da parte da travesia com caminho de Éreos (herdeiros) junto com herdade de São Dominguos que foi do Berton, que chamam... e deshi como se torna afundo da parte do avrego (sul) com herdade que foi de dito Bertholomeu Feyiiandes e deshi mais afundo com vinha do Titulo da Conezia de Pêro Domingues, filho de Dominguo Annes, criado de El-Rey e vai-se accabar no dito olival de Cathelina Feya...

S. Sebastião da Pedreira, Largo do Andaluz e St.a Marta, vista tirada de Vale do Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O segundo documento é um instrumento de que consta pagar-se ao referido arcebispo quinhentos e setenta e dois reais brancos, de foro da referida propriedade. Isto é, o mencionado Gil Martins do Poço, como trazia arrendada a um tal João Vasques, escrivão da Távola do Conde de Ourém, uma quinta que possuía em Vale do Pereiro (ou Val de Pereira) e este lhe estava em dívida ainda de rendas anteriores, transferia para êle, emquanlo lhe durasse essa obrigação, o pagamento do foro, da tal vinha e olival, ao arcebispo de Lisboa.

O estromento, datado de 2 de março de 1448 reza assim:

Saibam os que este estromento pirem que na era do Nascimento de Nosso senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta e oito annos dous dias do mes de março, yia cidade de Lisboa no paço dos Tabelliaens, pareceo hy Gil Martins do Poço morador na. dita cidade e dice que hera verdade que elle tinha huma quinta em termo da dita cidade onde chamam Val de Pereira arrendada por nove anos a João Vasques, escrivão da Tavola do conde dourem, (morador ?) na Judiaria dessa mesma por dez escudos douro em cada hum anno de renda pagados em duas pagas, segundo era contheudo no estromento do dito arrendamento, a qual quintaa com todas suas pertences o dito Gil Martins deu e aconteceo em partilhas a Gomes e Annes de Óbidos, escudeiro do Senhor Regente, marido de Catherina de Serpa, seu neto por parte da dita sua molher e que porem a elle Gil Martins aprazia como logo aprouve e mandou que o dito João Vaz da dita renda de dei escudos dê e pague ao arsebispo de Lisboa em cada hum anno, por dia de Páscoa quinhentos e settenta dous reaes brancos que o dito senhor arsebispo hade haver de foro de huma vinha e olival e herdades que com a dita quinta andafn e o que sobrar se pague a Gomes Eanes de Óbidos. . . etc. 

Lisboa, St.a Marta vista tirada de Vale do Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O recibo de pagamento do foro aludido feito por João Vás ao arcebispo de Lisboa em 6 de Julho de 1451, constitui o terceiro documento.

Como se viu pelas transcripções feitas, o território de Vale de Pereiro achava-se, naquele tempo, retalhado em quintas, olivais e vinhas, umas da Mitra Patriarcal — grande proprietária no termo de Lisboa — , e outras de particulares.

Segundo me parece da leitura atenta das complicadas confrontações, conclue-se ficar a propriedade da Mitra ao norte da azinhaga de Vale do Pereiro, onde, em 1755 e anteriormente mesmo, ficavam as terras fragmentadas dos Congregados do Oratório, hoje inclusas no ainda projectado Parque Eduardo VII. O caminho velho que ficava da parte do norte, bem poderia ser a estrada de Palhavã.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fiquemos nisto. A designação de Val de Pereira ou de Vale do Pereiro, é antiquíssima; a Mitra possuía ali propriedades, assim como o Cabido; Gil Martins do Poço tinha uma quinta e o resto retalhava-se em vinhas e olivais de diversos donos.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O plantio da vinha era muito comum aqui às abas de Lisboa desde remotos tempos. E ver as Memorias para a Historia das Inquirições nos primeiros reinados de Portugal, publicadas em 1815, por João Pedro Ribeiro, numa inquirição feita — é de supor durante o reinado de D. Afonso III — a quantidade de vinhedos mencionados como pertencentes a várias ordens reli- giosas e militares. Os frades de São Vicente, entre muitos bens, possuíam uma vinha in Anduluzes (em Andaluz), outra in loco qui dicitur Alvaladi, e outras muitas no Lumiar, Charneca, Chelas, Leceia, Telheiras, Carnide, etc. Os frades de Calatrava tinham uma vinha in Arrujos (Arroios) e os de São Tiago e os Hospitalares, cada um a sua. Foram elas que forneceram até o século XVI o apreciado vinho do termo, então chamado de Campolide.

Pelo espaço de quatrocentos anos que de alterações se não fizeram!

Lisboa, rua do Salitre, vista tirada de Vale de Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quantos emprazamentos, quantas vendas, quantas mudanças de proprietários!  De Andaluzes à Cotovia e a Campolide, por todo esse vasto trato de terreno, passou o vendaval dos séculos. Vale do Pereiro cem vezes transmudou a sua face matizada de vinhedos, de olivais e de searas verdejantes, cortada de azinhagas e de carreiros, esmaltada de muros de defesa, de cômoros e de marcos divisórios. Assente a poeira dos des troços produzidos nesse largo período, é que vamos agora examinar o arrabalde. 

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era assim este sítio pela ocasião do terremoto, e foi-o ainda por muito tempo. Entrando na rua pelo lado do Salitre ficavam à esquerda as terras dos padres da Congregação do Oratório, que acabavam junto ao muro da quinta de Santo António, cujos restos ainda conheci e cuja casa de larga portada seiscentista, de cantarias boleadas, ainda hoje faz razoável figura entre os caixotões aparelhados à moderna, no troço que sobrevive da rua arrabaldina. 

Lisboa (Vale do Pereiro), estado actual das obras na Avenida da Liberdade, Ribeiro Cristino em O Occidente, julho de 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

Seria esta quinta aquela que, nos princípios do século XVIII, aparece denominada de Vale do Pereiro nos registos paroquiais de São Sebastião da Pedreira?

Nesses prestáveis e por vezes tão mal tratados informadores, vi que tal propriedade pertencia em 1708 ao padre Frei Pedro Borges, do hábito de Aviz, o qual nela faleceu em 6 de março desse ano, e que, em 28 de março de 1713, nela falecera também, José da Nóbrega Botelho, filho de Francisco da Cruz Nóbrega e de Andresa de Sousa Botelho.

O sítio de tal nome é já apontado em 1603 no assento de óbito de uma Margarida do Rio, mulher de um tal Pedro Fernandes, e a primeira vez que toma a designação de rua é em 1731, em igual documento respeitante a Marta de Almeida, viuva de D. João Maldonado.

Noutro assento de 1702, da paróquia de São José, fala-se em casas novas junto a Vale do Pereiro, sinal de que o subúrbio se começava a povoar.

Lisboa Arte Pintura Paisagem e animais [vista do Vale do Pereiro], João Cristino da Silva, 1859.
Imagem: MatrizNet

Pegada às casas da quinta de Santo António, via-se a ermidinha de Nossa Senhora da Mãe de Deus e dos Homens, de que já se falou, ao tratar de São Mamede, e depois mais terras dos Congregados até à azinhaga da Torrinha, cortadas a meio por um caminho (chamado beco de Santo António em 1833), que dava serventia à propriedade.

Entre esse beco e a quinta é que, mais tarde, se construiu, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo,o abarracamento de Vale de Pereiro, para quartel de um dos regimentos da província, chamados em 1755 para policiar a cidade, e zelar pela segurança dos seus habitantes.

Parada militar no quartel de Vale do Pereiro, Paulo Guedes, 1906.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não sei qual dos regimentos, mandados vir nessa ocasião iria ocupar o abarracamento, após os bivaques dos primeiros meses, se o de dragões de Évora, se o de Cascais, se o de Peniche, se o de Setúbal ; o certo é que, em 1784, estava aqui albergado o de Infantaria do conde de Aveiras, em 1799, o de Lencastre, em 1834 o de infantaria 2 e ultimamente o 2 de caçadores que saiu para a Cova da Moira onde esteve até à sua extinção. O quartel de Vale do Pereiro ficou então servindo para quaisquer dependências de serviços de administração, e assim foi apodrecendo, como está sucedendo ainda ao de Campo de Ourique, manchando o bairro com o seu aspecto miserável. 

Creio que foi um litígio complicado, que obrigou o município a ter suspensa durante muito tempo a demolição do quartel pombalino. Os terrenos onde êle assentava pertencem, ou pertenciam, aos herdeiros da falecida condessa de Gamarido, cujos possuidores, a esse tempo, o cederam para aquele fim exclusivo, com determinadas cláusulas. Foi uma destas cláusulas que durante anos susteve de pé o vetusto casarão.

Primitivamente constava apenas de dois barracões postos a par, paralelamente à rua. Em 1784 fizeram-se-lhe obras. Repetiram-se estas em 1798, no sentido de alargar-lhe os cómodos que eram poucos. Em 1804 já se achava concluído, como se vê da planta levantada nesse ano pelo engenheiro Fava. 

Carta topographica de Lisboa e seus suburbios..., Duarte José Fava, reprodução de 1807.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 5 de junho de 1908, como tal litígio se augurasse longe ainda de solução satisfatória, entendeu o quartel começar a demolir-se por iniciativa própria. Na madrugada desse dia desmoronou-se com estrépito, parte do edifício.

Hoje nada resta do velho pardieiro, e o alinhamento da avenida de Braamcamp está concluído. O prolongamento da rua de Rodrigo da Fonseca é que parece, ignoro porquê, estar ainda para demora, apezar de, em 15 de dezembro de 1914, se ter feito, por sessenta contos de réis, à senhora condessa de Foz de Arouce, a expropriação da parte da quinta dos Arciprestes ne- cessária para tal fim.

Aí por 1770 e tantos abundavam por aqui os militares em moradias junto do quartel. Furriéis, tambores-mores, cabos e soldados, albergavam-se nas casas abarracadas que enxameavam no local. Escusado será dizer qual seria a maior percentagem da população feminina.

Quando constou em Lisboa, na segunda quinzena de março de 1817, que el-rei D. João VI, escolhera para receber o preito da corte do Rio de Janeiro, pela sua subida ao trono, o dia 6 do mês seguinte, sábado de aleluia, os comandantes dos regimentos da guarnição da cidade resolveram dar um público testemunho da sua calorosa adesão a tão fausto acontecimento. Soube-se, que na véspera do dia festivo sairia o bando do Senado da Câmara determinando uma iluminação geral para a noite seguinte e, eis a oficialidade dos regimentos lisboetas, entusiasmada a preparar as luminárias dos quartéis.

Depois da parada no Terreiro do Paço, Rocio e ruas comunicantes, de todas as tropas de linha e milicianos, Guarda Real de Polícia, Atiradores e Voluntários Nacionais, e da revista e marcha que se lhe seguiu, retiraram para os seus aquartelamentos e principiaram os fogos de artifício e a pasmaceira das iluminações. Um dos regimentos que mais luziu no desempenho da sua vistosa homenagem, foi o de Vale do Pereiro, o bravo 16 de Infantaria.

Sigamos a descripção do prospecto segundo a notícia da Mnemosine Lusitana.

No corpo central da ornamentação luminosa que cercava a porta principal do abarracamento, figurava uma latada sobre um fundo de buxo e de loiro, de que se recobriam as paredes nesse ponto da fachada. Por cima corria uma balaustrada coroada de trofeus militares, entre os quais avultavam dois escudos com os dizeres "Amor" e "Gratidão", sobrepujados, estes, de um grupo de nuvens, que na ocasião da inauguração se abriram para patentear o retrato de el-rei.

Sob o retrato lia-se esta quadra:

Immune Portugal hum Deus promette, 
Campo d'Ourique ouvio seu Santo Brado; 
As promessas de hum Deus mudar não podem 
O Tempo, a Morte, nem Desgraça, ou Fado.

Entre os quatro pilares da latada que suportavam a balaustrada, de cada lado da porta, liam-se estas:

A Pátria de seus Filhos Amor pede, 
Dos Vassalos o Rei Fidelidade: 
Juramos defender em todo o tempo 
A Fé, a Pátria, as Leis, a Magestade.

Sois Monarcha, Senhor, dos fieis Lusos, 
Que não sabem curvar-se a extranho Dono; 
E quando por Sob'rano vos aclamão 
Em cada coração vos dão hum Throno. 

As entradas da dupla rampa de acesso ao portão, estavam ornamentadas com arcos de buxo, rematados por um leão, das garras do qual pendiam fitas com o dístico:

Perseverando, Lisboa. Regimento n.° 16

O muro da rampa revestido de ramos de loiro, terminava, em cada uma das extremidades, junto ao arco, por duas figuras, imitando mármore, toucadas de um cocar de plumas, e sopesando escudos, nos quais se lia, em um: 

Do insigne Regimento, audaz, temido, 
As batalhas tu vês, nas quaes, ó Lusos, 
Vencedor sempre foi, nunca vencido.

e noutro:

Ás Lusas Legiões soube dar Glória 
Beresford imortal, e em sua frente 
As conduzio ao Templo da Memória.

Na extensão do parapeito do muro, achavam-se disseminados vários medalhões, contendo os nomes e as datas de todos os combates, batalhas, sítios, bloqueios e assaltos em que o 16 tomara parte, desde o combate de Albergaria, em l0 de maio de 1809, até o sítio de Bayona, que durou desde 27 de fevereiro a 28 de abril de 1814.

No centro do parapeito da meia laranja, fronteira à porta do quartel, avultavam as armas reais de Portugal por baixo das quais se lia, num transparente, esta quadra:

Do Tejo ao Ganges sem temor levadas 
Dando Fama aos Annaes da Antiguidade 
Desde o Tejo ao Garona as conduzimos 
Fazendo temer Gallia em nossa idade.

Um grande número de luzes abrilhantava esta ornamentação, e bom seria que assim fosse para desviar as atenções do povinho, dos malíssimos versos que, como amostra do estilo literário da época de D. João VI, ofereço à curiosidade do leitor.

Tais foram as festividades feitas pelo regimento de Vale do Pereiro, em 1817.

Continue-se a descripçao de Vale do Pereiro ao tempo do terremoto.

Planta do terreno compreendido entre a linha de cumeada da Cotovia, Rato, Amoreiras e Arco do Carvalhão e a linha de talveg de S. José, St.a Marta e S. Sebastião da Pedreira, feita em 1756, pelos Carlos Mardel, Eugénio dos Santos, Elias sebastião Poppe e António Carlos Andreis; acrescentada com o traçado conjectural das ruas do bairro de Pombal e a baixa da Cotovia [nota: o topo da imagem indica o lado nascente].
Imagem: Internet Archive

A azinhaga da Torrinha, atravessava o chamado, hoje, Casal Mont'Almeida até à circunvalação e prolongava-se ainda depois até Campolide. A planta inserta no primeiro volume desta obra elucidará melhor o leitor do que todas as minhas indicações.

Lisboa, Avenida da Liberdade, comemorações do IV Centenário da Índia, Feira Franca.
Litografia de Ribeiro Cristino e Roque Gameiro, 1898.
Imagem: PAM

Depois da azinhaga, ficava a quinta do mesmo nome, em cujo âmbito se erguia a torrinha octogonal, que, por tanto tempo, alindou com o seu ar um tanto ou quanto misterioso, aquele local.

Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 01 Paulo Guedes AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nesta, quinta esteve em 1804 um colégio de que era director e proprietário, o professor Luís Maigre Restier. Nesse mesmo ano se mudou para Xabregas e, mais tarde, em 1833, estava, ainda com o mesmo nome, na travessa das Mónicas. Tempo depois ocupou, as casas e o torreão, uma fábrica de velas de estearina de que era sócio ou corrector de vendas o conhecido Castelani. Não era raro vê-lo agenciando a sua vida por estas paragens, dando regabofe aos ga rotos que se compraziam em trazê-lo às vaias, chacoteando do seu bigode ruivo e da sua figura ridícula.

A torrinha, sacrificada às exigências do progresso, começou a demolir-se em sexta feira santa, 20 de abril do ano findo, após uma comprida e porfiada resistência ao camartelo municipal do seu último morador, o francês Gustavo Mathieu, que ali tinha instalada uma oficina metalúrgica e onde demorava há mais de 25 anos.

Vi desaparecer com pena a simpática torrinha que era tanto da fisionomia daquele sítio, e comigo decerto muitos lisboetas sentiram a mesma pena.

Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 02 Benoliel AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esculápio, no Século de 21 de abril do ano último, fez, como extremado amigo da cidade, o seguinte epicédio ao pobre torreão setecentista do dr. José de Sousa Monteiro:

"Vetusto monumento de fé republicana de outras eras, anda o camartelo municipal a derruí-la, para dar seguimento ao parque Eduardo VII, que já se desenha esplendoroso ao cimo da Avenida, coroando a rotunda e o lugar onde, para as calendas gregas, se há-de erguer a tão falada estátua ao Marquês de Pombal. O leitor amante das antiguidades de Lisboa que vá vê-la nos seus derradeiros momentos, a célebre Torrinha onde se faziam dantes os comícios republicanos e onde os janízaros da municipal se fartaram de espadeirar o povo e os propagandistas da ideia nova. Faz pena vêr a Torrinha a cair aos bocados, em holocausto ao progresso e ao aformoseamento da plástica citadina!"

Dão-te a morte; coitadinha,
E tu morres fria e calma 
Torrinha que eras "Torrinha", 
Do teatro da minha alma.


Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 03 Bárcia AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Seguia-se à Torrinha a casa e quinta de Manuel de Jesus, que há pouco também foi a terra e onde residiu desde as ultimas expropriações municipais, o sr. António Fernando Silva, chefe do serviço dos jardins da Câmara. Sobre o portão desta moradia, que ficava a cavaleiro da avenida de Fontes Pereira de Melo, avultava (julguei eu, por muito tempo, que fosse um brazão) um ornato feito de alvenaria com certa elegância decorativa. Na demolição lá se foi também.

Este Manuel de Jesus, que suponho um pequeno proprietário arrabaldino, era casado com uma tal Isabel Francisca que faleceu, em i5 de dezembro de 1737, nesta sua casa do Vale de Pereiro.

Lisboa Pintura a óleo do Parque Edurdo VII Vale do Pereiro 03 AML.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A esta casa seguia-se um pedaço da quinta das Lagens que se prolongava para o norte-poente, e depois dependências muradas da propriedade, a esse tempo, de Domingos Ferreira de Aguiar, a qual tornejava para o pitoresco largo de Andaluz [...] (1)


(1) Matos Sequeira,   Depois do Terremoto, Volume II, Academia das Sciências de Lisboa, 1917

Leitura adicional:
Ruy Travassos Valdez, A Quinta da Torrinha ao Vale do Pereiro

sábado, 13 de agosto de 2016

Geração de 70 e Quinta da Rabicha

Ramalho Ortigão tem phisionomia e não a perde nunca. Fomos de uma vez á horta da Rabicha: elle, Anthero do Quental, Jayme Batalha Reis, Alberto de Queiroz, João Burnay, Oliveira Martins... 

Geração de 70, o Grupo dos Cinco: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.

O nome de Oliveira Martins é hoje conhecido no paiz; áquelle tempo não pôde dizer-se que o fosse: havia produzido apenas um livro sobre Camões e a sua obra em relação á sociedade portugueza e ao movimento da renascença, editado no Porto, com o titulo de Camões e os Lusíadas.

O publico não conhecia nem o passado d'esse escriptor nem o seu género de estudos, nem a originalidade do seu methodo. Em vez de viver na intimidade dos livros de litteratura amena, que andam mais em uso, e se encontram por ahi em todas as estantes e livrarias, entregára-se sempre esse moço ás obras severas dos pensadores, estudando-as era boa ordem, annotando-as, nunca as deixando meio exploradas, e adquirindo grande abundância de conhecimentos. Talento reflexivo, philosophico, averiguador.

Coisa singular: tão dissimilhanles como eram as nossas predilecções litterarias, cntretinhamo-nos muito conversando de letras. Sabia o Proudhon na ponta da língua, e entrava pelos philosophos e políticos d'essa família; mas, de vez em quando apparecia, de manhã, em minha casa, e nunca encontrei espirito que melhor sentisse o folhetim do que elle.

Os Vencidos da Vida: António Maria Vasco de Melo César e Meneses, Luís Augusto Pinto de Soveral, Carlos Félix de Lima Mayer, Francisco Manuel de Melo Breyner, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Carlos Lobo d'Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, Eça de Queirós e J. P. de Oliveira Martins
Imagem: Wikipédia

Sempre guardei lembrança d'isso, e, como podem calcular, a minha estimação por elle tornou-se mais affectuosa. É um philosopho e ao mesmo tempo um artista. Oliveira Martins; tem grande e alto raciocínio, e ao mesmo tempo sensibilidade de poeta. Com que amor elle estudou os Lusíadas, e a vida venturosa, romantica, heróica, do Camões, lucta do talento contra a riqueza e a tolice!

Mas, emfim, n'aquella tarde da Rabicha, sinceramente se lhe figurou que, épico por épico, não ficasse a dever nada ao outro quem compozesse uma caldeirada em seis cantos — que tantos eram os que iam saudar, cantando-a ás auras e aos Arcos das Aguas Livres — a canto, por talher! — essa obra que emprehendi.

João Burnay havia mandado conduzir para alli, não sei se n'uma padiola se n'um omnibus, um roast-beef. Pela minha parte, para não deixar na sombra esse clarão de meu engenho, cumpre-me dizer-lhes que havia tomado perante Deus, elles, a Rabicha, e a minha consciência, o encargo glorioso de confeccionar lá mesmo a caldeirada das caldeiradas.

O ponto de reunião era na rua da Piedade, á Praça das Flores, — onde morava então Anthero do Quental. Alli nos juntámos n'um dia de verão esplendido, e partiu a caravana ao meio dia. Estava um sol de rachar. Poucos passos adeante ia resolver-se mandar buscar seges, mas ouviu-se uma voz sahir de um kiosque apostrofando-nos:

— Que! Seges?! Qual diabo! Vamos a pé!

Era Ramalho Ortigão, que assim exprimia as suas convicções por baixo de um panamá; mas um panamá, façam-me favor! digno emulo d'aquella couve heróica, que de uma vez deu sombra ao exercito de Napoleão! Encontrámos a guarda, — parou o official, pasmado, e os soldados iam cahindo de pasmo...

Na Rabicha a impressão foi profunda. Ramalho, alegre, risonho, ousado, explicou ao dono da fazenda, homenzarrão intrépido e de alta e antiga fama de valente com os homens e terno com o femeaço, pimpão reformado, a quem uma bala levara o braço direito, que, apesar de maneta, tinha a linha.

Ao principio aquelle homem não percebeu bem isto; mas, quando de iá sahimos, ás oito horas, havendo alli chegado ás quatro, já elle próprio, maneta, explicava ás criadas da horta, qual d'ellas tinha a linha, e qual d'ellas não tinha a linha.


Anthero do Quental, que já chegara aos annos, não por certo do retiro e do silencio, mas da meditação severa, horas da madureza melancholica em que um homem, ao fazer a comparação do caminho que já andou com o que tem para andar, cuida avistar o segundo mais curto que o primeiro, parecia outro n'esse dia, tão juvenil e espontâneo era o contentamento em que estava.

Os Vencidos da Vida (com excepção de António Cândido) fotografados por Augusto Bobone em 1889, no jardim da casa do conde de Arnoso, na Rua de S. Domingos à Lapa: marquês de Soveral (Luiz Pinto de Soveral, 1850-1922), Carlos Lima Mayer (1846-1910), conde de Sabugosa (António José de Mello Cezar de Menezes, 1854-1923), Oliveira Martins (1846-1894), Carlos Lobo d’Ávila (1860-1895), Eça (1845-1900), Ramalho Ortigão (1836-1915), Guerra Junqueiro (1850-1923), conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Mello, 1855-1911) e conde de Ficalho (Francisco Manoel de Mello Breyner, 1837-1903).
Imagem: Lisboa Desaparecida

Oliveira Martins, vivamente sensibilisado pelos resultados obtidos, esteve a ponto de chorar de gosto ao ver a graça com que Ramalho ajudava a criada de Bournay — visto como Bournay mandara ir, além do roast-beef, uma criada franceza, ou á franceza pelo menos, isto é, de touquinha branca, saia curta e o avental de algibeirinhas consagrado pelas melhores vinhetas do Bertall — a pôr a mesa.

Lisboa, Aqueduto das Águas Livres. Retiro da Quinta da Rabicha encerrado, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Elle ia á quinta colher as flores mais variadas, elle as enfeixava em bem armado ramilhete, elle estabelecia os desenhos mais interessantes, mercê da disposição gentilmente matizada d'ellas ; depois, vendo-me deante do grande tacho destinado á ceremonia solemne da caldeirada, perguntou-me tremulo de ternura:

— Já estás refugando, Júlio?

Eu não dizia nada. Mas Jayme Batalha Reis, que, durante aquelle acto, não tirava os olhos de mim, respondia com commoção:

— Já; já está a refugar !
— Quantas cebolas, Júlio? — perguntava Ramalho.
— Vinte e uma! — dizia Jayme. — Vinte e uma! — Cebolas verdes, em quartos!...
— Est-ce possible?! — exclamava a criada franceza, ou á franceza, consultando Ramalho Ortigão com o olhar.
— Je m'égare!... — retrucava Ramalho — E, (voltando-se para mim) que mais lhe deitaste?...

Eu não dizia nada. Alberto de Queiroz, debruçando-se brandamente, propunha-se metter o nariz no tacho. A tanto pôde a sede do saber, e quiçá uma juvenil ambição, acredora de estima, conduzir a mocidade!

Alberto de Queiroz era então um adolescente. Entrava na vida curioso de conhecer as luctas e difficuldades, ou sadias e revezes do destino dos escriptores e dos artistas. Dotado de uma percepção rara, e de uma avidez de estudar que ninguém combinaria facilmente com os ares de dandysmo com que elle passeava ao sol ou á chuva o seu janotismo, os que o viam, sem o conhecerem bem, consideravam apenas n'elle um rapazinho rendido a dois coquetismo, o coquetismo da elegância e o das le- tras, na idéa de que elle não quizesse d'ellas senão o que essas santas comadres offereçam de commodidade momentânea á existência de um rapaz, — a saber, os bilhetes de entrada nos theatros, os convites para bailes, para regatas, para as inaugurações de linhas férreas; e para as varias festas em que a vaidade ou a especulação do mundo, no habito em que estão de viverem colladas á publicidade dos reclamos, como a santola ao costado dos navios, recorrem aos que tiverem uma columna de jornal a disposição da patacoada humana.

Mas não. Levava-o para as letras o amor sincero que lhes tinha; ficava contente do seu dia, quando um trabalho de outrem lhe dava ao espirito a doce satisfação de apreciar; e, prova não só da aptidão das suas faculdades, mas da generosidade do seu coração, tudo era como que desempenhar-se de um empenho que houvesse contrahido comsigo mesmo de não se limitar á estimação silenciosa, e tirar, da comprehensão brilhante e fácil de que a natureza o prendara, a consolação mais útil e benéfica para os que trabalham, qual a de não se limitar a aprecial-os de si para si, mas abrindo a janella que dá para a rua. por assim dizer explical-os ao publico, convidal-o a prestar a sua attenção ás producções d'elles; e, mercê do talento e da generosidade de animo, empregar em os fazer sobresahir, em lhes dar luz, a diligencia que os egoistas e os mediocres tanto applicam e de tão boa gana a pôr os outros na sombra.

— Que mais lhe deitaste ? — tornava o Ramalho a perguntar.

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Jayme Batalha Heis, que, a titulo de eu o conhecer desde pequeno, e haver sido um dos primeiros a maravilhar-me da rara lucidez do seu espirito, merecera da minha benevolência o tel-o ao meu lado, recitou n'estes termos:

— Salsa, pimenta, sal, cabeça de safio e de eirós, coloráo, caril! tudo ás voltas, na fritura do refugado, um pouco antes de se lhe atirar com dezoito tomates grandes! em pedaços! três colheres de vinagre, oito de azeite! lulas e ostras, além de peixe de sete qualidades: ruivo, tainha, chocos, saíio, eiroz, peixe-gallo, xarroco!...

Porque os convivas, ao ouvirem isto, estivessem a ponto de se torcerem e retorcerem todos de commoção, em gentis ataques nervosos motivados pelas sensações d'este dia, resolveu-se, como medida de prudência, emprehender um passeiosinho de distracção, para não estarem alli concentrando por mais tempo uma attenção illimitada no tacho, em que tantos e tão extraordinários acontecimentos se estavam passando.

Ribeira de Alcântara na zona da Rabicha, José Artur Leitão Bárcia.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim foram pela quinta adeante até á estrada de Campolide. Andavam trabalhadores a arranjar a estrada.

— Vossemecês são das Obras Publicas? — perguntou-lhes Ramalho.
— Sim, senhores! — respondeu um d'elles, que se achava a contas com uma pedrinha, procurando com arte o melhor modo de a encravar no chão...


Elle chamou os companheiros e entretiveram-se a contemplar aquelle espectáculo.

— É curioso! — ponderou. Qual fosse o fim do trabalhador ao pegar n'aquena pedrinha, bem o comprehendiam elles; porém, com que habilidade elle se desempenhava de tal missão!

Piscava um olho...
Piscava o outro...
Mirava a pedrinha d'aqui, mirava-a d'alli...
Punha-a ao direito...
Olhava para ella bem, — e punha-a atravessada...
Apalpava-a...
Assoprava-a...
Espreitava-a e admirava-a, como faz um ourives a uma pedra preciosa, que se lhe figure de boa agua e com grande vida...

Depois, com geitos de observação que fariam honra a um mathematico, encanastrava-a em cima de outras, como quem está a fazer a caminha para uma creança, devagarinho, com extremos de quem sabe amar maternalmente, porque assim digamos...

Ramalho, tirando da algibeira do peito o seu lenço de assoar finíssimo, dirigiu-se áquelle trabalhador das Obras Publicas, pediu-lhe para que o attendesse, conferenciou com elle mysteriosamente; depois, voltando-se para os companheiros:

— Segurae nas pontas d'este lenço! Todos seguraram o lenço pegando-lhe pelas pontas, de forma que não deixassem cair o que elle continha, e assim voltaram em procissão até á Rabicha.

A caldeirada estava prompta. Eu passeava agitado. Aquelles instantes pareciam-me de um comprimento excessivo... Tinha a imaginação sobrexcitada por idéas de gloria... Haveria querido n'aquelle momento ler alli á mão algumas paginas de leitura austera que me puzessem em afinação de modéstia... Mas, não se poderia arranjar isso n'aquelles sítios.

Puz-me a meditar as palavras do Ecclesiasta: Vaidade das vaidades... Nada me acalmava. Parava machinalmente deante do tanque, via-me na agua e comprimentava-me a mim próprio, como elle, esperava eu, teriam de comprimentar-me pela caldeirada... Oh! Essa idéa fazia-me empallidecer... Ouvi-lhes as vozes. De cabeça erguida e attitude altiva esperei-os, firme.

Lisboa Aqueduto das Águas Livres Ponte da Rabicha, Ferreira da Cunha, antes de 1938.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

— Está prompta a caldeirada! — bradei. 
E o echo dos arcos das Aguas Livres repetiu: — Caldeirada!...

Jayme Batalha Reis dirigiu-me a palavra:
— Que dirias de Sócrates, se ai ém de philosopho, fosse industrial? Eu ia dizer... Anthero do Quental deu um passo á frente:
— Que dirias de Napoleão, se, além de guerreiro fosse pianista insigne?


Eu já, por um triz, ia a fallar... Oliveira Martins, pondo-me a mão no hombro, contemplando-me longamente:

— Que dirias de Thomaz de Carvalho, se, além de tudo que sabemos d'elle, fosse também capitão de navios?

Já a resposta me ia pela lingua adeante...

— Que diremos de ti, querido amigo, — proferiu Ramalho commovido — que, além das occupações do teu officio, te propões ser o que ha mais sublime entre as diversas espécies do saber humano, — cosinheiro!

À tua dedicação á humanidade é sem limites; o teu amor ao trabalho é digno do espirito scientifico de um grande século... Aqui te trazemos um presente!

Tens ouvido fallar no suor do povo?
— Muitas vezes. 
— É uma curiosidade rara, mas encontra-se. Pedimos um pinguinho d'isso a um trabalhador das obras publicas, que anda alli adeante na estrada, e eil-o aqui...

Entendemos que aquelle pinguito de suor do povo podia, mercê de que a raridade augmente o valor ás coisas, constituir o mais glorioso baptismo de um cosinheiro voluntário...

Lisboa Ponte da Rabicha Eduardo Portugal.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

E, soluçando de jubiloso enternecimento:
— Para a mesa, amigos !
— Para a mesa!... (1)


(1) Júlio César Machado, A vida alegre..., Lisboa, Editora de Mattos Ferreira & C.a, 1880