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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Almeida Garrett por Bulhão Pato: no eremitério

Um dia de manhã a governanta, colossal nas formas, mas expedita e intelligente no seu lavor domestico, entrou no quarto e, entregando uma carta, disse:

— Veiu trazel-a agora um criado do sr. Garrett.


Palácio da Ajuda e torre do relógio, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Biblioteca Nacional de Portugal

O dono da casa interrompeu o trabalho e abriu a carta. Era longa. No fim da leitura voltou-se para mim, com ar prasenteiro, e disse-me:

— Uma boa nova; o Garrett vem passar o resto da primavera e o verão comnosco.

Fiquei pulando de contente. Viver com o grande poeta debaixo dos mesmos tectos, aprecial-o no trato intimo, ouvir-Ihe, da própria boca, os episódios da sua vida tão aventurosa, tão cortada de lances notáveis, era o máximo a que podia aspirar a minha imaginação juvenil e ardentemente impressionavel por tudo quanto era litterario. 

Raimundo António de Bulhão Pato (1828-1912).
Hemeroteca Digital

Preparou-se para o nosso hospede o quarto mais amplo e mais commodo que havia no eremitério.

Garrett mandou o seu saco de noite, uma pasta com manuscriptos, e o estojo de toilette, peça esta que, á primeira vista, podia parecer uma caixa de instrumentos cirúrgicos e juntamente uma botica portátil: tal era a quantidade de ferros cortantes em forma de canivetes, escalpellos e bisturis; as tesoiras de todas as dimensões, as pinças, as esponjas, de todos os tamanhos, e a enorme quantidade de frascos que encerravam finissimas essências combinadas pelos mais imaginosos e mais famosos perfumistas de Londres e Paris.

O dono da casa, vendo o estojo aberto diante do espelho, contemplou-o, como eu contemplava as notas, isto é, com os olhos arregalados de pasmo, e, passados alguns momentos, voltando-se para mim, disse com ar solemne:

— Ora veja o meu amigo de quantas cousas pôde precisar um homem n'este mundo!


Alexandre Herculano (1810-1877)
Wikimedia Commons

O auctor do "Fr. Luíz de Sousa" veiu para a Ajuda. Entravam os primeiros dias de maio.

O dono da casa dera liberdade plena aos seus hóspedes, para que os seus hospedes lh'a deixassem a elle também. Levantava-se às mesmas horas, almoçava e sentava-se á mesa do trabalho, como de ordinário. 

Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do "dolce far niente", que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçar-se na graciosa grinalda das "Folhas Caídas".

Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.

As gerações do romantismo literário em Portugal reunem-se na casa da Ajuda em 1849:
Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877) e Bulhão Pato (1828-1912).

Como os poetas tem de ser calumniados em tudo, a elle até o calumniavam na idade, e auctorisavam a calumnia com o longo catálogo das suaa obras.

Não se lembravam de que o cantor de D. Branca, como o cantor de Leandro e Hero, balbuciára ainda na infância a lingua sonora dos immortaes! 

Ás tardes discorriamos, com o dono da casa, pelo aprasivel Valle das Romeiras, onde Rebello da Silva passava uma temporada com Julio Caldas, e augmentada a romagem com mais dois companheiros, alargávamos, não raro, o passeio até ás proximidades de Carnaxide e Linda a Pastora. 

Luiz Augusto Rebello da Silva (1822-1871)
Wikipédia

Se eu fosse stenographo e houvesse transcripto as conversações dos três, que escutava em silencio durante aquellas tardes, em vez d'estas paginas incolores teria o leitor o livro mais elegante, mais espirituoso, mais variado e original da litteratura portugueza! 

Foi n'um d'esses passeios que Almeida Garrett delineou uma viagem monumental. 

O plano era o seguinte: 

Comprar-se um macho possante, para transportar bagagem e barraca de campanha. 

O auctor do "Monge de Cister" daria três ou quatro mezes de ferias á "Historia de Portugal".

Rebello da Silva acompanhava. Correríamos a Beira, o Minho e Traz-os-Montes a pé, e a pequenas jornadas. Os três escreveriam um livro: na própria phrase de Garrett:

Chafariz de Guimarães, Augusto Roquemont, 1847.
Imagem: Desde o tempo do barroco

"Far-se-há chronica de quanto virmos e ouvirmos".

A viagem não se realisou, principalmente, pelo aspecto que foram tomando as cousas politicas. 

Que bella chronica, que sumptuoso livro perdeu Portugal!

Findou a primavera, correu o verão, e só nas entradas do inverno é que Almeida Garrett regressou a Lisboa. 

N'esse inverno, entre outras cousas, escreveu o capitulo de um romance, que deve existir entre os manuscríptos que legou o poeta.

A leitura do capitulo foi pretexto para um jantar.

Garrett morava então na calçada do Salitre. O fino tacto do grande escríptor respirava em todas as cousas que o cercavam. 

Não era uma casa aquella — era um sanctuarío da arte!

Casa na rua Saraiva de Carvalho antiga rua de Santa Isabel onde faleceu Almeida Garrett.
[Casas onde, em Lisboa, residiu Almeida Garrett]
O Occidente, 30 janeiro 1899

A intuição, o gosto do seu espirito delicadíssimo, revelava-se no que apparentemente parecia mais insignificante.

Constavam os convivas de A. Herculano, Rebello da Silva, Lopes de Mendonça, Carlos Bento, D. António Jorge da Cunha Menezes e eu. 

D. António de Menezes tinha intelligencia fina e coração nobilissimo. 

Muito moço; alto, elegante, mas franzino e débil de compleição; os olhos claros; o olhar limpído, as pestanas longas. O vago ideal d'aquelles olhos fazia-nos scismar quando attentavamos n'elles.

A extrema pallidez do rosto prenanciava, já então, a terrível enfermidade que havia de arrebatal-o na flôr da vida. 

Na belleza das feições, que tinham os primores e mimos feminis, respirava, ao .mesmo tempo, a virilidade da sua alma e o valor áo seu animo provado já no campo da batalha. 

As mãos eram finas, mãos de rasa, como dizem os ingleses. 

Corria-lhe nas veias fidalguissimo sangue. Seu pae represratava os Menezes de Africa, sua mae era D. Anna Mafalda da Cunha, irmã do conde da Cunha, D. José; varonia das mais provadas, das mais antigas e mais íllustres âe Portugal.

Hoje, até para um homem das minhas idéas, faz bem ver um aristocrata de velha rocha.

É uma cousa artística. 

Desenjoa-sse a gente das gorduras de certos viscondes, que estoiram as luvas, por mais elastica que seja a pellica, com os nós das mãos ossudas e habituadas a puxar pelo cabo da enxada nativa, socia inseparável da sua linfancia. 

Uma tradicção viva do passado em face d'este presente é cousa agradavel: faz-nos lembrar que já tivemos uma sociedade legahneitte constituida: sociedade de gente limpa e gente branca. 

A distríbuiçao de fitas, de conmendas, de gran cruzes, de títulos, é o symptoma mais decisivo de que este systema que nos rege está a cair a pedaços. 

Todos os íntemacíonaes do mundo — dos republicanos já se não falla (ao que parece, os republicanos são ultra-conservadores em presença dos que proclamam a liquidação social) —, todos os intemacionaes, digo, a noya seita que apavora o espirito e faz tremer as carnes do burguez rotundo e do banqueiro anafado, annunciam menos um novo génesis social do que esta ambição de tratamentos, de distincçoes, de gerarchia, de que toda a ge&te ri, mas que quasi toda a gente quer. 

Quando a corrupção chega a lavrar no gosto, na lingua e nas idéas de uma sociedade, essa sociedade está irremediavelmente perdida.

Por exemplo: 

A um canteiro, que pôde ser um artífice de bastante merecimento chama-se hoje um esculptor.

Aquelle que dentro de um troço de mármore vè o Moisés, a Psyche, ou as Graças, como o designaremos? Que nome se ha de dar a Miguel Angelo, a Pradier, a Canova e a Thorwaldsen?

Ao café pediram todos, com viva instancia a leitara do capitulo. 

O poeta accedeu de boamente. 

Garrett lia com primor. Tinha uma voz masculina, cheia, poderosa, quando se exaltava na tribuna: um pouco áspera talvez; mas, assim que o assumpto o pedia, modificava as inflexões e conseguia todos os effeitos da declamação correcta. Nada de enphatico, de piegas, de amaneirado. 

Selo postal Almeida Garrett, 1957.
Delcampe

Declamava, como escrevia, com o mais apurado gosto e a maior naturalidade. Começou a leitura. 

Recordo-me bem que o romance principiava de modo original. O primeiro capitulo era a descripção da morte da heroina. 

Descripção admirável, como elle as fazia! Depois da leitura começou a discussão em que entraram: A. Herculano, Rebello da Silva, Lopes de Mendonça e Carlos Bento. 

A discussão era sobre o desfecho. O poeta tinha dois meios de resolver o problema, mas não lhe agradava nenhum. 

Depois de longo debate combinou-se um terceiro.

Carlos Bento tinha, n'esse tempo, grande enthasiasmo pelas letras, e, alem de ser conversador como ha muito poucos, possuia gosto finíssimo.

A politica, em que tem andado mettido de pés e cabeça — parece incrível — ainda não conseguiu acabar-lhe com isso!

Na entrada da primavera do anno seguinte o poeta voltou para o eremitério. 

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre, Alberto Carlos Lima, década de 1910.
 Arquivo Municipal de Lisboa

Sentia-se na força da inspiração. Os versos, com o ardor dos vinte annos, desatavam-se de dia a dia. Ao mesmo tempo gisava as scenas do seu grande romance "Helena", de que ha pouco sairam os primeiros capítulos, formosos quadros, que deixam o leitor suspenso em ardente curiosidade.

Ah! porque descaiu mortal a mão do artista!

Parece que o poeta presentia já a morte quando, com sorriso melancólico, me recitava estes lindos e apaixonados versos:

Bem o vés, o alaúde caía-me
D'estas mãos que não tem já poder;
E o som derradeiro fugiu-me 
Do hymno eterno que ergui ao nascer.
Ai! por ti, por ti só, á memoria
Vem saudades do tempo da gloria !

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Cabral Moncada Leilões

Oh! os poetas, os poetas!... Só elles têm alma de pagar as volúveis carícias da mulher com a immortalidade! (1) 


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, 1877

Mais informação:
Arquivo Municipal do Porto: Documentos com referência a Garrett, Almeida. 1799-1854, escritor
Casa onde nasceu Almeida Garrett Archivo Pittoresco, 4.º Ano, n.º 7, 1861
XXIV Anniversário da morte d'Almeida Garrett, O Occidente, 15 dezembro 1878
Centenário de Almeida Garrett, O Occidente, 30 janeiro 1899
Casas onde, em Lisboa, residiu Almeida Garrett
Almeida Garrett na Hemeroteca Digital de Lisboa

Artigos relacionados:
O partido setembrista, Lisboa 1836
Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836
O retiro de um velho romântico
Almeida Garrett
Garretismo
Os pincéis do Neogarretismo prévio



Internet Archive (referências biográficas):
Domingos Manuel Fernandes, Biographia politico-litteraria..., 1873
Teophilo Braga, Historia do romantismo em Portugal... Garrett, Herculano, Castilho, 1880
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo I, 1881
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo II, 1884
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo III, 1884
Alberto Bessa, Almeida Garrett no Pantheon dos Jeronymos, 1902
Alfredo de Pratt, O divino poeta, 1903
Latino Coelho, Garrett e Castilho, estudos biográficos, 1917

Internet Archive:(bibliografia):
Catão [1821], 2.a ed. 1830
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume II, 1904
...

Biblioteca Nacional de Portugal:
Bicentenário de Almeida Garrett
Roteiro bio-bibliográfico
Obras em formato digital
A Enciclopédia de Garrett Enciclopedista
Modernidade e Romantismo em Almeida Garrett
Viagens na Minha Terra: caminhos para a leitura de uma "embaraçada meada"
Modos de cooperação interpretativa na leitura escolar do Frei Luís de Sousa
A Question of Timing: Madalena's role as 'uma mulher à beira duma crise de nervos'
Catão em Plymouth
O Camões garrettiano
Um Auto de Gil Vicente and the Tradition of Comedy
Iconografia

Obras digitalizadas de Garrett, Almeida

Biblioteca Nacional de Portugal (bibliografia):
Hino Patriótico (poema), Porto 1820, folheto impresso [Recuper. por Teófilo Braga, in Garrett e os Dramas Românticos, Porto 1905]
Proclamações Académicos, Coimbra 1820, folhetos mss. [Reprod. in O Patriota, nº 67 (15 Dez.), Coimbra 1820]
Ao corpo académico (poema), in Colecção de Poesias Recitadas na Sala dos Actos Grandes da Universidade [...], Coimbra 1821 [Recuper. por Martins de Carvalho, in O Conimbricense, Ano XXVII, nº 2823 (14 Ag.), Coimbra 1874]
O Dia Vinte e Quatro de Agosto (ensaio político), Lisboa Ano I (1821)
O Retrato de Vénus (poema), Coimbra Ano I (1821) [Incl.: Ensaio sobre a História da Pintura]
Catão. Tragédia, Lisboa Ano II (1822) [Incl.: O Corcunda por Amor, farsa, co-autoria de Paulo Midosi]
Aos Mortos no Campo da Honra de Madrid. Epicédio, folheto [reprod. do Jornal da Sociedade Literária Patriótica, 2º trim., nº 18 (13 Set.), Lisboa 1822, vol. II, pp. 420-423]
Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1822, opúsculo [Colig. in Discursos e Poesias Fúnebres [...], Celebradas para Prantear a Dor e Orfandade dos Portugueses, na Morte de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1823]
Camões. Poema, Paris 1825
Dona Branca, ou A Conquista do Algarve (poema), Paris 1826
Da Europa e da América e de Sua Mútua Influência na Causa da Civilização e da Liberdade (ensaio político), in O Popular, jornal político, literário e comercial, vol. IV, nº XIX (Mai.), Londres 1826, pp. 25-81
Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, in Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos Autores Portugueses Antigos e Modernos, vol. I, Paris 1826 [Incl.: introdução A Quem Ler]
Carta de Guia para Eleitores, em Que se Trata da Opinião Pública, das Qualidades para Deputado e do Modo de as Conhecer (ensaio político), Lisboa 1826, opúsculo Adozinda. Romance (poema), Londres 1828 [Incl.: Bernal Francês]
Lírica de João Mínimo, Londres 1829
Lealdade, ou a Vitória da Terceira (canção), Londres 1829, folheto Da Educação. Livro Primeiro. Educação Doméstica ou Paternal, Londres 1829
Portugal na Balança da Europa. Do Que Tem Sido e do Que Ora Lhe Convém Ser na Nova Ordem de Coisas do Mundo Civilizado (ensaio político), Londres 1830
Elogio Fúnebre de Carlos Infante de Lacerda, Barão de Sabroso, Londres 1830, folheto Carta de M. Cévola, ao futuro editor do primeiro jornal liberal que em português se publicar (panfleto político), Londres 1830 [Pseud.: Múcio Cévola, 2ª ed. transcrita in O Pelourinho, nº V, Angra [1831?, com o título Carta de M. Cévola, oferecida à contemplação da Rainha, a senhora Dona Maria segunnda]
Relatório dos decretos nº 22, 23 e 24 [reorganização da fazenda, administração pública e justiça], Lisboa 1832, folheto [Reprod. in Colecção de Decretos e Regulamentos [...], Lisboa 1836]
Manifesto das Cortes Constituintes à Nação, Lisboa 1837, folheto [Reprod. in Diário do Governo, nº199 (24 de Ag.), Lisboa 1837]
Da Formação da Segunda Câmara das Cortes. Discursos Pronunciados nas Sessões de 9 e 12 de Outubro, Lisboa 1837
Necrologia [do conselheiro Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato], in O Constitucional, nº 272 (13 Dez.), Lisboa 1838 [Relatório ao] Projecto de lei sobre a propriedade literária e artística, in Diário da Câmara dos Deputados, Vol. II, nº 35 (18 Mai.), Lisboa 1839
Discurso do Sr. Deputado pela Terceira, J. B. de Almeida Garrett, na Discussão da Resposta ao Discurso da Coroa, Lisboa 1840 [Discurso dito do Porto Pireu, em resposta a José Estevão] Mérope, tragédia.
Um Auto de Gil Vicente, drama, Lisboa 1841.
Discurso do Sr. Deputado por Lisboa J. B. de Almeida Garrett na Discussão da Lei da Décima , Lisboa 1841, folheto
O Alfageme de Santarém, ou a Espada do Condestável, Lisboa 1842
Elogio Histórico do Sócio Barão da Ribeira de Saborosa, in Memórias do Conservatório Real de Lisboa, Tomo II (8), Lisboa 1843
Memória Histórica do Conselheiro A. M. L. Vieira de Castro, biografia, Lisboa 1843, folheto [Anón., sobre o ministro setembrista António Manuel Lopes Vieira de Castro]
Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa 1843 [Incl.: Adozinda (2ª ed.) e outros «romances reconstruídos»]
Miragaia, Lisboa 1844, folheto impresso [de Jornal das Belas Artes] Frei Luís de Sousa, drama, Lisboa 1844 [Incl.: Memória. Ao Conservatório Real, lida na representação do drama no teatro da Quinta do Pinheiro em 4 de Julho 1843]
O conselheiro J. B. de Almeida Garrett [Autobiografia], in Universo Pitoresco, nº 19-21, Lisboa 1844 [Carta sobre a origem da língua portuguesa], ensaio literário, in Opúsculo Acerca da Origem da Língua Portuguesa [...] por dois sócios do Conservatório Real de Lisboa, Lisboa 1844
O Arco de Santana. Crónica portuense, romance, vol. I, Lisboa 1845 [Anón.]
Os Exilados, À Senhora Rossi Caccia, poesia, Lisboa 1845, folheto [Reprod. in Revolução de Setembro, nº 1197 (31 Mar.), Lisboa 1845, p. 2, anónimo e título A Madame Rossi Caccia, cantando no baile de subscrição a favor dos emigrados]
Memória Histórica do Conde de Avilez, biografia, in Revolução de Setembro, nº 1210 (15 Abr.), Lisboa 1845
Flores Sem Fruto (poesia), Lisboa 1845
Da Poesia Popular em Portugal, ensaio literário, in Revista Universal Lisbonense, Tomo V, nº 37 (5 Mar.) – 41 (2 Abr.), Lisboa 1846; [cont. sob título:]
Da Antiga Poesia Portuguesa, in id., Tomo VI, nº 9 (23 Jul.), 13 (20 Ag.), Lisboa 1846
Viagens na Minha Terra, romance, 2 vols., Lisboa 1846
Filipa de Vilhena, comédia, Lisboa 1846 [incl.: Tio Simplício, comédia, e Falar Verdade a Mentir, comédia]
Parecer da Comissão sobre a Unidade Literária, in Revista Universal Lisbonense, nº 16 (10 Set.), Lisboa 1846, vol. VI, sér. II, pp. 188-189 [dito Parecer sobre a Neutralidade Literária, da Associação Protectora da Imprensa Portuguesa, assinado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, Visconde de Juromenha, A. Herculano e João Baptista de A. Garrett]
Sermão pregado na dedicação da capela de Nª Srª da Bonança, folheto, Lisboa 1847 [raro, reproduzido com o título Dedicação da Capela dos Srs. Marqueses de Viana (...) in Escritos Diversos, Lisboa 1899,
Obras Completas, vol. XXIV, pp. 281-284, redac.: Lisboa 1846]
Memória Histórica da Excelentíssima Duquesa de Palmela, Lisboa 1848 [folheto]
Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira, Lisboa 1849 [separ., reprod. de A Época. Jornal de indústria, ciências, literatura, e belas-artes, nº 52, tom. II, pp. 387-394]
O Arco de Santana. Crónica Portuense, romance, vol. II, Lisboa 1850
Protesto Contra a Proposta sobre a Liberdade de Imprensa, abaixo-assinado, folheto, Lisboa 1850 [Subscrito, à cabeça, por Herculano e mais cinquenta personalidades, contra o projecto de «lei das rolhas» apresentado pelo governo]
Necrologia de D.ª Maria Teresa Midosi, in Diário do Governo, nº 221 (19 Set.), Lisboa 1950
Romanceiro, vols. II e III, Lisboa 1851
Cópia de uma Carta Dirigida ao Sr. Encarregado de Negócios da França em Lisboa, Lisboa (19 Agosto) 1852 [litogr., sobre o tratado de comércio e navegação com o governo francês, que assinou como ministro dos negócios estrangeiros]
O Camões do Rossio, comédia, Lisboa 1852 [co-autoria de Inácio Feijó]
Folhas Caídas, poesia, Lisboa 1853
Fábulas – Folhas Caídas, poesia, 2ª ed., Lisboa 1853

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Augusto Roquemont (1804-1852)

Foi o jovem Tomás da Anunciação quem, em 1844, mais ou menos dirigiu uma revolta estudantil contra o favoritismo de que, num concurso de pintura de História, beneficiou o filho do mestre A. M. da Fonseca. 

Procissão, Augusto Roquemont, 1832-1849.
Imagem: iolanda andrade

Isso levou, por um lado, a pôr em causa o ensino deste, e, por outro, a descobrir a arte dum bastardo dum príncipe alemão que veio parar a Portugal secretariando o pai, aventureiro miguelista, e que por cá ficou.

Chafariz de Guimarães, Augusto Roquemont, 1847.
Imagem: Desde o tempo do barroco

Auguste Roquemont (1804-1852) formara-se por Itália e foi o retratista por excelência da nobreza nortenha, de sangue miguelista, ao mesmo tempo que pintava os costumes rústicos dos Portugueses – com significativa aprovação de Garrett, próximo autor de Viagens na Minha Terra, diante do "Folar", exposto em 1843.

Retrato de dama, Augusto Roquemont.
Imagem: Pedra Formosa

Assim, a pintura ainda não portuguesa mas em Portugal (e no princípio do século vimos outros estrangeiros debruçarem-se sobre idênticos temas) começava a interessar-se pela terra e os seus costumes, no que era um dos caminhos maiores do romantismo, a par duma temática histórica e dentro dum sentimentalismo que podia e devia cobrir as duas tendências.

Vareira,  Augusto Roquemont , 1847.
Imagem: iolanda andrade

Aí a separação se estabelecia com o mundo histórico de mestre Fonseca (1796-1890), fiel a um neo-classicismo mitológico aprendido em Roma, de 1826 a 1834, quando patrioticamente regressou ao Portugal liberal, disposto a colaborar na sua nova civilização.

Varanda de Frei Jerónimo (Convento da Costa, Guimarães), Augusto Roquemont ,1840.
Imagem: Pedra Formosa

Logo no ano seguinte realizou ele uma exposição particular em Lisboa, a primeira que aqui se viu, e, mais dois anos passados, coube-lhe, por direito indiscutível, a cadeira de pintura de história na recente Academia. 

Collegiada de Guimarães, Augusto Roquemont.
Imagem: Blogue do Minho

Em 1843, a sua obra-prima, ali exposta, mereceu-lhe elogios tornando-se o símbolo da sua arte e dum passado estético que, evoluído da Ajuda, não tinha mais futuro junto dos seus jovens alunos. "Eneas salvando seu pai Anquises do incêndio de Tróia" é uma excelente composição e a única de acertado carácter erudito, da sua espécie, em Portugal; só doze anos depois a obra seria contestada pela nova geração entretanto definida, sem que, porém, isso diminuísse o crédito público e oficial de mestre Fonseca que, jubilado em 1863, só faleceu com mais de noventa anos de idade. 

Revoltado contra o mestre, Anunciação procurou em vão apoio e lições de Roquemont, que visitou e do qual recebeu apenas vagos conselhos [...]

Retrato de Augusto Roquemont por José António Correia.
Imagem: Mestre José António Correia...

Anunciação marcaria os limites da pintura de paisagem dos românticos portugueses se não fosse a acção do seu discípulo e companheiro (e depois colega na Academia) Cristino da Silva (1829-1877) [...]

Autorretrato de Augusto Roquemont com 19 anos.
Imagem: Wikipédia

A esta pintura de paisagem e animalista liga-se uma outra temática de ar livre, atenta aos costumes populares, na via que Roquemont abrira. (1)


(1) José Augusto França, A Arte Portuguesa de Oitocentos, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992

Artigo relacionado:
Garretismo

Leitura adicional:
António Mourato, Augusto Roquemont, retratista e pintor de costumes populares

Mais informação:
O Real em Revista (pesquisa: roquemont)
Arquivo Municipal do Porto
MatrizNet

terça-feira, 18 de julho de 2017

Garretismo

O folar (costumes do Minho), quadro do sr. A. Roquemont

Não conhece Portugal o que não viu e estudou as nossas provincias do norte, mas especialmente o Minho. A raça, as feições, o trajo, os costumes, tudo alli é characterislico. O solo, o clima, a vegetação, a cultura, tudo alli é bello. São os campos mais verdes, as árvores mais esbeltas, os mulheres mais bonitas, e os baldios mais sinceros de todo o reino: do reino que alli nasceu e que d'alli se estendeu até aos Algarves.

O parocho da aldêa pedindo o folar, Augusto Roquemont, 1843.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Poesia e pintura portuguem hade-se ir fazer alli: em certos generos nunca se fara bem se o poeta, o pintor não conhecer e não copiar a nossa Arcadia, que é aquella provincia.

O Sr. Roquernont, artista distincto cujo principal character e merecimento é a verdade, por uma longa residencia no Minho é que se fez portuguez, artista portuguez legítimo, como ochala que sempre sejam todos os nossos naturaes.

Retrato de Augusto Roquemont por José António Correia.
Imagem: Mestre José António Correia...

Na última exposição de Lisboa (1843) notamos os dous lindos quadros de genero com que a illustrou: ambos eram do scenas minhotas, ambos cheios de graça e de verdade. O Sr. conde de Luckner, ministro de Dinamarca n'esta côrte, fez a aquisição d'estes dous quadros, avaliando como conhecedor que é, o seu muito merecimento. Por favor de S. Ex.ª poderam os Srs. Editores desta obra fazer copiar um d'elles e hoje tem a satisfação de o dar aos seus assignantes no presente desenho litographico. 

Representa o abbade, o parocho da aldea, entrando duma casa de lavrador a pedir o folar — dom voluntario dos freguezes ao seu pastor por occasião da festa de paschoa.

O parocho da aldêa pedindo o folar (detalhe), Augusto Roquemont, 1843.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sôbre tudo n'este quadro o effeito da luz é primoroso: o sol entrando pela unica janella da casa, vai tocar na extremidade de uma mesa, e de permeio allumia parte do berço aonde jaz uma criancinha. A restea de sol. reflectida por todo o pavimento, está distribuiria de forma que se distinguem perfeitamente os objectos, sem com tudo em nada perder da sua força o rigoroso escuro do fundo sabre que destacam as figuras do padre e do sachristão. 

N'esta parte da transparencia dos escuros pôde este quadro comparar-se nos da eschola flamenga de scenas familiares e interiores, aonde custa a perceber como, por meio de tons sempre diaphanos, se pode conseguir uma força extraordinoria que, pela sua grande transparencia, produz de ordinario unta perfeita illusão.

A verdade, a expressão, a naturalidade e o posição da figuras são, como ja dissemos, de quem conhece perfeitamente o paiz, a sua natureza e o seu povo.

O parocho da aldêa pedindo o folar (detalhe), Augusto Roquemont, 1843.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quem não vê na cabeça d'aquelle bom abbade um dos tantos singelos e bondosos pastores que d'antes contava a nossa egreja, cansados da edade e dos trabalhos da sua cura, modestos e obscuros heroes que fugiam da glória van do mundo, e praticavam, quasi as escondidas, todas as virtudes que fazem um santo e um grande homem?

O parocho da aldêa pedindo o folar (detalhe), Augusto Roquemont, 1843.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O sachristão tem uma physionomia natural, o velho pae do dono da casa faz na sua expressão devota um contraste bem notavel com certa indiferença que parece mostrar o filho. É o seculo passado e o presente. Nos mulheres que estão no fundo conhece-se, o par da devoção, a attenção que dão ás flores que coroam a imagem do Sancto-Christo. 

A mulher que vende os ovos, assim como o moço que os compra, estão bem characterizados. 

O parocho da aldêa pedindo o folar (detalhe), Augusto Roquemont, 1843.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O socégo do gato sentado ao sol, a innocencia da minina que junto do berço olha para a cerimonia sem a intender, tudo está primorosamente natural. É para admirar que o Sr. Roquemont sem modellos conseguisse tanto.  Com reminiscencia — e bem se vê que o quadro é feito d'ellas — ninguem poderia fazer melhor.

O parocho da aldêa pedindo o folar (detalhe), Augusto Roquemont, 1843.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tem este quadro 10 polegadas de altura, e 14 de comprimento.

A. G. (1)


(1) Almeida Garrett, O Folar, (Costumes do Minho), Quadro do Sr. A. Roquemont, Jornal das Bellas-Artes n.º 1, 1843, cf. O Real em Revista (pesquisa: roquemont)

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Os pincéis do Neogarretismo prévio

Leitura adicional:
António Mourato, Augusto Roquemont, retratista e pintor de costumes populares

sábado, 15 de julho de 2017

João Christino da Silva (1829-1877)

João Christino da Silva — o Christino — como todos lhe chamavam, foi uma das figuras mais originaes da sociedade lisbonense. Alto e esbelto, a sua bella cabeca de perfil judaico — ornada com urna basta cabelleira negra, annelada e romantica, e meio occulta sob as abas d'um chapou á Rubens, garbosamente inclinado sobre a orelha — apparecia e destacava-se d'entre a multidão em todas as reuniões publicas, nas exposições, nos theatros, nos circos, porque este artista foi, de todos os que tenho conhecido, o mais mundano, e portanto o mais popular.

João Cristino Silva, auto-retrato (detalhe).
Imagem: Arcadja

Escondia-se Annunciação e vivia com as suas pinturas no seu atelier da Academia, e ninguem, vendo-o ao lado de Christino, diria que eram irmãos na arte; o escultor Assis Rodrigues, com a sua formosa e fina cabeça toda branca, parecia um ecclesiastico; Metrass e Victor Bastos eram dois elegantes, e encontravam-se todas as noites na roda do Marrare do Chiado; Lupi com o seu porte elevado, serio e demorado nos movimentos e na expressão, tinha o aspecto d'um senador, d'um alto funccionario. Christino, só, no meio de todos os seus collegas, parecia ser o unico artista, porque só elle tinha o exterior da sua profissão.

Talento imaginoso, enthusiasta, expontaneo, facil e brilhante, poderia legar-nos obras notabilissimas, se não obstasse a isso, por um lado a mobilidade e a extrema sensibilidade do seu espirito, por outro as circumstancias sociaes do seu tempo, pouco propicias ao desenvolvimento das suas faculdades artisticas; por isso, e apesar da sua notavel estreia, aconteceu-lhe como n muitos outros, para quem o sol da arte, cheio de promessas e de esperanças na sua aurora, se enturva no meio da carreira, e desce nublado e triste ao occidente, deixando-nos só saudades e desillusões.

João Cristino Silva, auto-retrato.
Imagem: Arcadja

Discipulo da Academia de Lisboa, como todos os nossos artistas d'então e de hoje, entre o seu espirito irrequieto e os preceitos tradicionaes do ensino dos velhos académicos, seus professores, travou-se a lucta fatal dos periodos de transição, e o fogoso artista sahiu da Academia, e julgando achar na formosa arte de Benevenuto Cellini mais largos horisontes para o seu talento, dedicou-se á ourivesaria; porém, se a natureza o fizera artista, a arte nunca o fez rico, e não obstante a sua privança com os mais preciosos metaes, Christino, durante os dois annos que lavrou e poliu o oiro e a prata, convenceu-se de que por aquelle caminho náo poderia nunca chegar nem á riqueza, nem á gloria, e elle ao menos aspirava a um d'esses escopos do talento e do genio.

Dissera o turbulento artista adeus á Academia e pozera de lado a paleta e os pinceis, mas os antigos companheiros de estudo, esses conservara-os elle, e era na loja que Christino tinha de sociedade com o ourives Moutinho, que elles se reuniam, e vinham continuar as suas palestras, e discussões, iniciadas nas aulas e galerias do convento de S. Francisco. O fogo ainda lavrava sob as cinzas, e o amor do artista pela pintura ia em breve renascer n'elle mais vigoroso e ardente. Ao contacto e sob a influencia d'esse convivio, que dia a dia lhe avivava as recordações dos seus queridos estudos, e os imaginados triumphos que a sua imaginação phantasiava, eil-o de novo voltando ao gremio da arte.

João Cristino Silva, auto-retrato.
Imagem: MNAC

Dava o exemplo e já a lição a todos esses artistas, ainda no visor da mocidade, o que havia de vir a ser o primeiro entre elles — Annunciação. Christino estabeleceu o seu atelier n'uma mansarda, d'uma rua da velha Alfama, proximo da casa paterna. Ahi pintou elle os seus primeiros quadros, e ahi foi conhecido e protegido pelo distincto amador o sr. Moser, que n'aquelles tempos difliceis "hard times" era um dos rarissimos Mecenas dos que forcejavam por abrir cantinho no mundo da arte.

A paizagem e os animaes, foram os generos cultivados de preferencia pelo joven artista, que nos conselhos e nos louvores dos seus amigos encontrava o incitamento para maiores e mais arrojados commetimentos. Assim decorreram alguns annos, sempre trabalhando e progredindo, até que na exposição da Academia, em 1855, Christino apresentou o seu grande quadro "Os cinco artistas em Cintra".

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

O publico que concorreu a visitar essa exposição — que marcou epoca na historia da arte portugueza — a imprensa que d'ella se occupou largamente, e os amadores que se interessavam pelos progressos e pelos triumphos dos jovens artistas, todos foram unanimes em dar um dos primeiros logares a João Christino, e, como se não devesse faltar nada para que o seu triumpho fosse completo, D. Fernando "o rei artista" depois de ver o quadro, quiz conhecer o seu auctor. 

Ouvimos a Christino a narração dessa entrevista, a que elle foi com o espirito cheio a um tempo de turbação e de contentamento. É que a distinção não podia ser maior: apenas entrado na carreira tocara a meta das suas mais ambiciosas aspirações, e sentia-se já na estrada da gloria e da fortuna. D. Fernando, novo ainda, acolheu-o com a maior affabilidade, elogiou-o, e para que as suas palavras d'encarecimento tivessem todo o valor e influencia no animo do artista, comprou-lhe o quadro, que ainda tivemos occasião de ver nas magnificas salas do riquissimo museu do fallecido rei.

Feliz estreia e feliz edade Christino tinha apenas 25 annos! (1)

Em 1855, a França convidou as sciencias, as industrias e as artes de todo o mundo para um grande congresso, e os Cinco artistas, depois de figurarem no anno antecedente na exposição da Academia de Lisboa, foram enviados á grande Exposição universal de Paris com outros trabalhos de artistas portuguezes.

"N.° 1676 — João Christino da Silva — Cinco artistas cm Cintra — O colorido é formoso com quanto por partes avermelhado. Pela desenvoltura vê-se logo que são artistas as figuras do quadro. Prova-se á primeira vista boa atitude e cunho do bello. Entretanto quereriamos em menos symetria o acampamento e menos apuro no vestuario, porque, sem otlender susceptibilidades, julgamos poder afirmar que em Portugal, como em qualquer outro paiz, a negligencia é um dos caracteres distintivos do artista. Mas nem por isso deixaremos de concluir que a obra do sr. Christino da Silva é uma das mais notaveis que foi apresentada no grande concurso." 

Citamos a critica do jornal francez, não porque a julguemos primorosa, mas porque prova que n'aquelle enorme certamen a obra de Christino não passou despercebida. 

O que parece ter destoado mais ao critico na composição, é a symetria do que elle chama acampamento e o apuro do vestuario dos cinco artistas.

Emquanto á primeira observação discordamos, e achamos boa a composição do grupo principal, em que figuram Annunciação fazendo um estudo do natural, e por detraz d'elle Metrass, em pé, desenhando n'um album, rodeados por uma tamilia saloia, que a curiosidade natural ali chamou, e que contempla a obra, e segue attentamente o pincel do artista, que lhe vae debuxando a paizagem tão sua conhecida. 

Cinco artistas em Sintra (detalhe: Anunciação, Metrass e familia saloia), João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Seria talvez este grupo suficiente para um quadro, mas as tres figuras de Victor Bastos, Christino e José Rodrigues, que estão á direita, n'outro plano mais afastado, não prejudicam, antes completam, a composição. E pelo que respeita á excessivo elegancia dos trajes, todos nós que conhecemos os individuos ali retratados, sabemos que nenhum d'clles teve jamais o aspecto phantastico e funambulesco d'alguns "rapins d'atelier" do "Quartier latin", muito cabelludos e pouco penteados. 

Cinco artistas em Sintra (detalhe: Victor Bastos, Christino e José Rodrigues), João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Annunciação, sem pretenções a dandysmos, que não estavam em harmonia com o seu caracter e a modestia dos seus recursos, foi sempre correctissimo na fôrma de se apresentar. Metrass, relativamente rico, trajava com apurado gosto e era o que então se chamava um janota, não lhe ficava atraz Victor Bastos. De José Rodrigues pôde-se dizer o mesmo que afirmámos de Annunciação.

E Christino, de todos os cinco o mais phantasioso e de mais airada vida, apesar dos seus chapeus espectaculosos e do grande chale-manta, que elle traçava um pouco theatralmente, parecia uma d'essas figuras da Renascença, que vemos nos grandes quadros antigos, e nunca se confundia com os bohemios cheios de côr por dentro e por cujos retratos tanto abundam desde 1830 nos romances francezes.

Neste estudo, improvisado para acompanhar o excellente retrato gravado pelo sr. D. Netto, e a copia do quadro dos "Cinco artistas em Cintra", não podemos seguir passo a passo a carreira do nótavel pintor, nem analysar e discutir os meritos e defeitos das suas obras, algumas das quaes, como a "Primeira impressão da arte", a "Estalagem", a "Estrada da Povoa", compradas tambem pelo fallecido rei D. Fernando, faziam parte da Galeria do Palacio das Necessidades, mas o que podemos afirmar é que o futuro não correspondeu ás brilhantes promessas dos primeiros annos e que causas internas e externas, que seria longe expor aqui, fizeram com que o artista, chegado a menos de meio da sua carreira, parasse, e preferisse os encantos e attractivos do mundo no estudo e cultura das bellezas mais ideaes e abstractas da Arte.

Estimado por todos os que conheciam as qualidades do seu espirito e do seu caracter, Christino procurava por todos os modos completar a sua educação: lia muito, interessava-se por todas as grandes idéas, discutia com todos, e envolvia-se ás vezes nas mais altas questões artisticas e sociaes, supprindo com a vivacidade e a perspicacia natural as defficiencias da sua primeira educação.

Excellente observador, gostava muito de viajar, e o colorido das suas descripçóes era tão vigoroso como o dos seus quadros. Christino tinha a palavra facil e o gesto animado: a sua mão branca e longa — mão de artista, habituada a manejar o pincel — seguia e acompanhava admiravelmente a narrativa, accentuando o desenho dos typos, e os episodios e as scenas, ora dramaticas, ora comicas, que o artista ia narrando.

A cada nova excursão do pintor reanimava-se no espirito dos seus amigos a esperança de que ella lhe inspirasse algum grande quadro. Em 1867 visitou a Exposição universal de Paris, recebendo para esse fim do governo uni pequeno subsidio — 180$000 réis. 

O quadro que ali expoz foi muito apreciado, e o então celebre pintor Yvon, elogiando muito as suas qualidades de colorista, incitou-o calorosamente a proseguir no culto da arte, em que devia vir a ocupar um logar distinctissimo; porém nem as palavras d'animação do artista francez, nem as que depois ouviu da bocca dos hespanhoes, de Palmaroli, de Madrazo, Gisbert, quando enviou a Madrid, em 1871, a "Cruz alta de Cintra" e a "Fonte das Lagrimas", — que lhe valeram ser condecorado pelo governo do rei Amadeu, sendo a "Fonte das Lagrimas" reproduzida em gravura pela "Illustração hespanhola" — tiveram força para suspender a decadencia, e reascender no seu animo o fogo sagrado que o illuminava outrora, quando compunha e pintava os Cinco artistas.

Ó mocidade! As flores delicadas da imaginação, que ornam os phantasticos jardins com que sonha e se inebria toda a alma de verdadeiro artista — pintor ou poeta — esse tapete variegado de infinitos matizes, que parece, visto de longe, ser a estrada da vida; as visões graciosas, que ora surgem, ora desapparecem n'um horisonte ideal; as acclamações, as glorias e as apotheoses, com que a húmanidade corôa o genio, tudo isso murcha, desvanece-se, esvae-se, e transforma-se quasi sempre com o tempo, e não é raro que as flores se tornem em espinhos e as apotheoses em martyrio!

João Cristino da Silva.
Imagem: Wikipédia

Factos para outros talvez insignificantes, mas a que a excessiva impressionalidade de Christino deu uma importancia extraordinaria, a tal ponto o irritaram, que se tornou necessario recolhei-o ao hospital, d'onde sahiu, passado pouco tempo, completamente restabelecido, e coisa notavel para nós, profanos na sciencia medica — conservava na memora, e contava minuciosamente, tudo o que passára e soffera nesse perlado tristissimo da sua vida!

"Quando eu era Christo" —  dizia elle então, no principiar alguma d'essas narrativas, e seguia ninando com a antiga fuencia, descrevendo, muitas vezes em estylo faceto, um ou outro episodio da terrivel excursão, que fizera a esse reino da loucura, de que voltou apparentemente intacto, mas trazendo realmente no fundo da alma a terrivel nostalgia das lobregas regiões, para onde em breve e infelizmente havia de voltar.

Retrato de João Christino da Silva por D. Netto .
Imagem: O Occidente N.º 303, 21 de maio de 1887

Ferido novamente na cabeça e no coração João Christino falleceu, na força da vida, aos 72 de maio de 1877. Nascera a 24 de julho de 1829, e não tinha ainda, portanto, completado 45 annos. (2)


(1) O Occidente N.º 303, 21 de maio de 1887
(2) O Occidente N.º 304, 1 de junho de 1887

museu virtual ulisboa:
ficha de autor
coleção de gravura

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Alfeite visto da Piedade em 1850

Leitura relacionada:
Maria de Aires Silveira, João Cristino da Silva (1829-77), Lisboa, IPM - Museu do Chiado, 2000
Helena Carvalhão Buescu, João Cristino da Silva e o tema da paisagem na literatura portuguesa...

Mais informação:
João Cristino Silva (desenhos)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Os pincéis do Neogarretismo prévio

Ao longo deste estudo, analisámos as propostas neogarrettistas para a pintura: a sua consonância com a literatura, os temas paisagísticos rurais e marítimos como fundo para as cenas de género. A pintura de paisagens campestres e marítimas obteve um lugar de destaque na arte da época, não apenas por ser uma novidade importada de França por pintores como Silva Porto e Marques de Oliveira, mas pela transformação que os artistas lhe infundiram, fazendo-a corresponder à imortalização dos costumes populares portugueses [...]

À espera dos barcos, Marques de Oliveira, 1892.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nos ambientes marítimos, os pescadores que partem para a faina, ou que chegam da pesca; as varinas que os aguardam na praia com os seus trajes de trabalho; as mulheres que carregam as redes para as colocar a secar ou para as remendarem; os calafates que consertam os barcos, para impedir as infiltrações de água; as marinhas com pequenos veleiros ou as crianças que pescam ou brincam na beira da água.

Praia da Póvoa do Varzim, Silva Porto.
Imagem: Do Tempo da Outra Senhora

No campo, encontramos os camponeses com seus trajes de trabalho, de festa ou de ida ao mercado, em suas casas humildes, a alimentar os animais, nas procissões ou na lavoura. Os ceifeiros, os pastores e os lenhadores que trabalham pela manhã e ao fim do dia, e nas tardes de muito calor descansam à sombra, dormem a sesta e comem as merendas que prepararam em casa, são também frequentemente contemplados nestas telas do neogarrettismo. (1)

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

Silva Porto, sem ficar indiferente às várias correntes que em seu redor se desenvolviam, apenas uma serviu com devoção e maior sinceridade — a Naturalista — sem dúvida a mais consentânea com o seu robusto temperamento de meridional, preso à terra e aos seus virginais encantos [...]

A volta do mercado, Silva Porto, 1886.
Imagem: MNAC

O "Grupo do Leão", deu-nos um novo retratista do povo, um pintor que soube focar a alma popular, um artista que soube traduzir, com tintas de todos os matizes, as alegrias e as tristezas da grei.

O viático do termo, costume da Beira Baixa, José Malhoa, 1884.
Imagem: Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra

Talvez por isso, o povo português compreenda as pinturas de Malhoa, como as de nenhum outro pintor que, até agora, interpretou o sentimento popular [...]

A volta da romaria, José Malhoa, 1901.
Imagem: Coysas, Loysas, Tralhas Velhas...

O "Portugal columbano" é uma realidade meta-histórica mais real do que a outra que se escondia na sombra dum "Portugal malhoa", com seus sóis cortados às rodelas, suores e cios, em paganismo católico de romaria, cheirando a estrume de terra fecundada, de onde saía ainda a inexistente cidade nacional. Outro é o Portugal doloroso, preso na urbe jamais figurada mas adivinhada do impossível lado de fora dos retratos pintados por Columbano, e só necessária para lhes justificar a tragédia solitária e humilhada […] (3)

O sarau (ou O serão), Columbano Bordalo Pinheiro, 1880.
Imagem: WikiArt

Ramalho, tal como muitos outros pintores seus contemporâneos, lança-se numa espécie de recolha etnográfica, numa inventariação de sítios pitorescos que encantavam o público que visitava as exposições, fazendo-o deliciar-se com a contemplação de paisagens e motivos caracteristicamente portugueses. (4)


Na obra "Lavadeiras na Romeira, Alfeite", podemos observar várias lavadeiras que, usando os habituais trajes de trabalho e as cabeças cobertas por lenços para se protegerem do sol [...]

Lavadeiras na Romeira, Alfeite — Quadro de Ramalho Junior comprado pelo sr. Pereira da Costa, 1882.
Imagem: Hemeroteca Digital

Na obra "Praia do Alfeite", António Ramalho trata a temática marítima. Não nos apresenta, de forma tão explícita como fez Silva Porto ou João Vaz, o trabalho dos pescadores, mas a presença de uma varina e de uma criança com traje de pescador remetem de imediato o espectador para a importância das actividades marítimas. Tal como nas telas de Silva Porto ou de João Vaz, estas figuras parecem representar a família de um pescador que aguarda a sua chegada do mar [...]

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

Dos pincéis do Grupo do Leão, despontavam paisagens marítimas e campestres, pinturas de animais, de história, de costumes, sentimentalistas e cobertas de religiosidade, de trajes e de tudo o que se relacionasse com o popular de forma a através dele criar um discurso identitário. Conforme estudámos anteriormente, o neogarrettismo atribuiu à relação entre os portugueses e o mar uma importância extrema e foi esse o aspecto que a obra de João Vaz (1859-1931) sobretudo absorveu [...]

Barcos na praia com figuras, João Vaz.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Em "Barco na Praia com Figuras", observamos um barco que acaba de chegar ao areal e é recebido pelas mulheres vestidas com seus trajes de trabalho que recolhem as redes e as trazem para o areal. Estas mulheres são as peixeiras que vimos na tela de Marques de Oliveira, "À Espera dos Barcos", aguardando a ocasião de recolherem o peixe e as redes, que remendarão se for necessário [...] (5)


(1) Ivete Pio, Alberto de Oliveira: ideário nacional, págs. 119-130, Universidade de Aveiro, 2012
(2) Joaquim Lopes, Silva Porto, Lisboa, 1955 cf. Ivete Pio op. cit.
(3) Acúrcio Pereira, As Três Idades de Malhoa, Caldas da Rainha, 1955 cf. Ivete Pio op. cit.
(4) Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003 cf. Ivete Pio op. cit.
(5) Ivete Pio, op. cit.


Autores e obras referênciados no documento original:

António Carvalho da Silva (Silva Porto, 1850-1893) 
"Guardando um Rebanho" 
"Colheita – Ceifeiras" 
"O Campino" 
"Carro de Bois" 
"A Volta do Mercado" 
"Praia da Póvoa de Varzim"

Marques de Oliveira (1853-1927) 
"À Espera dos Barcos" 
"Vista da Praia"

José Malhoa (1855-1933) 
 "A Corar a Roupa" 
"Músicos em Dia de Festa" 
"Milho ao Sol" 
"As Promessas"

António Ramalho (1858-1916) 
"Lavadeiras na Romeira, Alfeite" 
"Ponte de Guifões" 
"Vista do Espinheiro" 
"Praia do Alfeite"

João Vaz (1859-1931) 
"Barco na Praia com Figuras" 
"Pescadores na Praia" 
"Desembarque de Peixe"

Henrique Pinto (1853-1912) 
"Entre o Milheiral" 
"A Saída do Rebanho" 
"O Almoço" 
"A Perrice" 
"Na Eira"

Carlos Reis (1863-1940) 
"Mendiga" 
"Serra da Lousã, Paisagem com casa, figuras e milheiral" 
"O Baptizado"