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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Caminho de Ferro de Lisboa a Cintra em 1887

É sabido que as linhas ferreas têem a particularidade de operarem a transformação das zonas que atravessam, mas uma transformação tão radical como a que esta de que nos occupamos realisou no sitio de Alcantara, é que poucas se podem gabar de conseguir.

Estação principal em Alcântara, João Ribeiro Christino.
O Occidente n° 301, 1 de maio de 1887

Onde estavam terrenos maltratados, repositorios de immundicies, vêem-se hoje espaçosos barracões elegantes; onde corria agua infecta num caneiro assassino dos pobres moradores das visinhanças, ostenta-se agora a bem lançada estação de passageiros; nas velhas margens antigamente chamadas Horta Navia assentam-se actualmente os primeiros rails da nova linha. 

Até o velho S. Pedro parece destinado a mudar de logar.

E verdadeiramente, o bondoso santo não estava ali bem; elle que tem por missão guardar as portas do ceo, não se podia sentir ã vontade ás portas da cidade, embora por essas se entre na rua do Livramento.

A nova linha é, como se sabe destinada não só a ligar a capital á fresca e poetica Cintra, como lambem á villa de Torres Vedras, região muito importante pela sua producção vinícola, e muito notavel na historia, pelos memoraveis combates que ali se feriram, n'aquelia guerra fratricida que tantas vidas custou ao nosso paiz e entre outras, a do valoroso campeão Mouzinho de Albuquerque, e ainda se destina a nova linha a ser a vanguarda da futura linha de Torres á Figueira e Alfarellos, onde se deve ligar á linha do norte. 

A extensão total actualmente em exploração é de 28 kilometros, e em breve será de mais 17, quando abrir a parte do Cacem a Torres Vedras. 

Estação do Cacém
O Occidente n° 304, 1 de junho de 1887

As estações são ao todo 11 com 3 apeadeiros. 

São muitas, e algumas importantes, as suas obras de arte, das quaes a principal é o grande tunnel de Alcantara ou dos Terramotos, nome dado águelle sitio por motivo das grandes transformações que a catastrophe de 1755 n'elle operou. O primeiro traçado nao inclina este tunnel, seguindo a falda da montanha, evitando assim o consideravel custo da obra. 

Os terrenos neste ponto, porém, não offereciam estabilidade e por isso preciso foi emprehender este trabalho que veio agravar consideravelmente os gastos da construcção. 

Tunnel dos Terremotos, João Ribeiro Christino.
O Occidente n° 301, 1 de maio de 1887

A sua extensão é de 540 metros, em recta, e a profundidade maxima 52 metros. 

Retrocedamos, porém para descrever a estação de Alcantara, representada n'uma das nossas gravuras.

Esta estação foi construida, como acima se diz em grande parte sobre o antigo caneiro, que para isso teve que ser coberto em mais de 240 metros, alterando-se-lhe tambem em grande estensão o curso das aguas, para accommodaçãoo das diversas dependencias da gare. 

Comprehende esta um edilicio para passageiros, com salas de espera, vestibulo de bagagens, escriptorios para o inspector, telegrapho, chefe da estação, etc., formando um parallelogramo de 95 metros por 10 dc fundo. 

O accesso para passageiros e bagagens faz-se pelo lado do poente, onde a entrada é coberta com uma elegante marquise. Até dentro d'este recinto de entrada vem a linha americana que a companhia Carris de ferro construiu expressamente para serviço da estação e que liga á rede geral, pela rua do Assento, (onde os vebiculos descarrilam com toda a perfeição) na rua Nova do Cries do Tojo. 

Do lado interior a estação é coberta por uma larga marquise envidraçada, que descança de um lado no editicio de passageiros, e do outro em columnas assentes n'um passeio de egual comprimento. 

Segue, do lado poente, um caes para volumes transportados por grande velocidade, com accesso especial pela antiga rua da Fabrica da Polvora e depois uma cocheira para 24 carruagens em 8 vias servidas por um charriot. 

Em frente estende-se o grande caes de mercadorias, de 90 metros de extensão, coberto cm metade, com accesso pela antiga estrada de circunwalacão da cidade, ao qual segue um outro para vehiculos e gado e outro ainda, pequeno e isolado, para materias inflamaveis. 

Em face d'este será o grande caes para carvão, que fica em frente de uma rotunda para 6 machinas, com officina de reparação annexa. 

Sahida a estação e passado o tunnel que já fica descripto, desenrola-se á vista o mais brilhante panorama. 

De um lado e do outro da linha as variegadas tintas das differentes culturas que atapetam a montanha de Campolide, á direita, e a serra de Monsanto, á esquerda, semeadas de um sem numero de casas de differentes tamanhos, desde e vasto edificío da companhia dc estamparia até as pequenas casinhas dos trabalhadores, formam um bello conjuncto que delicia a vista e torna a viagem encantadora.

Outra gravura que publicaremos no proximo numero, representa o viaduto de Sant'Anna, que é o maior da linha. A sua extensão é de 150 metros em cinco tramos metallicos de 30 metros cada um, sobre 4 pegões de pedra. 

A construcção d'este viaducto, assim como a dos demais da linha, foi incumbida á casa Eiffel que tão justa fama tem ganho pela perfeição de todas as obras que saltem das suas largas officinas, e que no nosso pais tem já vinculados os seus creditos na construcção das pontes do Porto, das da linha da Beira Alta e outras muitas.

Este viaducto atravessa a ribeira de Alcantara e o valle de Sant'Anna á altura de 12 metros e meio. 

Nos próximos numeres continuaremos dando outras vistas dos principaes pontos da interessante linha que hoje está sendo a mais frequentada do paiz, e que está destinada a um largo futuro, não só pela belleza como pela importancia das regiões que atravessa, e das que serão servidas pelas outras linhas que a ella se ligam. (1)

Quem diria aos nossos avoengos, quando viam com pasmo as arrojadas curvas d'aquelle aquedueto com que D. João V, o doutor Pinto Coelho do seu tempo, abasteceu d'agua a cidade de Lisboa, quando do alto d'aquelles arcos, que constituíam o seu passeio favorito, a sua avenida domingueira, contemplavam os campos de um e outro lado, pasmando da monumental obra em que assentavam os sapatos, admirando a pequenez das figuras que sc moviam em baixo, na velha quinta de Sant'Anna, quem lhes diria então.que por debaixo d'esse arco grande que fazia o seu enlevo, os pequeninos netos de então traçariam, com mão náo menos arrojada que a do architecto de D. Joao V, o caminho rapido e facil que os transportaria ás mais longas distancias. 

Hoje, quem subir ao alto d'aquellas arcarias, nao contemplará de lá somente os campos e as quintas proximas; verá aos pés do collosso, serpenteando como uma fita agitada pelo vento, a branca estrada de duplo traço negro, por onde a locomotiva passa triumphante, arrostando os pesados comboios cheios de gente que vae ao seu passeio favorito tambem, não a pé, como os nossos pobres avoengos, mas commodonsente recostada nas carruagens do caminho dc ferro. 

E esta passagem do arco é um dos pontos mais interessantes da nova linha ferrea.

Não só produz um bello effeito a travessia d'aquella grande obra, não só o panorama que se disfructa das differentes curvas que a linha percorre, em elegantes traços, por entre os pequenos montes, é maravilhoso, como tambem aquelle troço da via é dos mais artisticos, pelos successivos viaductos e pontões em que a tortuosa ribeira de Alcantara tem que ser atravessada. 

Destes o mais importante é o de Sant'Anna representado na gravura que hoje publicamos. D'elle já nos occupamos no nosso ultimo numero. dizendo que foi construido pela casa Eiffel, que tem 150 metros de extensão e a cota maxima de 12 metros e meio. 

Viaducto de Sant'Anna, João Ribeiro Christino.
O Occidente n° 302, 11 de maio de 1887

Podemos hoje accrescentar que o taboleiro, cuja altura é de 3 metros, é formado pelo systhema de cruzes de Santo André, do vão de 2m,50, que sustentam as vigas, de 52 centímetros de espessura.

Aos lados da via ha dois passeios forrados de madeira de carvalho, tendo a largura de 0m,54 cada um, sendo estes amparados por um parapeito de um metro de altura. 

Como tambem dissemos, são cinco os vãos, de 30 metros aproximadamente cada um, assentes em quatro elegantes pilares de cantaria, e os dois encontros.

Por debaixo do encontro do lado de Lisboa ha uma pequena passagem do caminho que conduz á quinta de Sant'Anna. Antes deste ha cambem outro viaducto mais pequeno, formado de dois, tramos de 20 metros, e de egual construcção. o chamado viaducto da Ponte Nova, e 100 metros depois d'elle fica o tunnel do mesmo nome que tem apenas a extensão de 75 metros e a cota maxima de 33 metros.

Viaducto e Tunnel da Ponte Nova
O Occidente n° 303, 21 de maio de 1887

No proximo numero daremos a gravura d'estas duas obras de arte, copia de uma bela photogrophia tirada peto sr. Augusto Lamarão um dos mais distinctos amadores de Lisboa, um verdadeiro sacerdote da arte, que emprega todos os seus momentos disponíveis e todos os seus enthusiasmos de joven e de inteligente, no cultivo, no aperfeiçoamento e na propaganda d'esta delicada profissao.

Seguidamente ao vinducto que hoje reproduzimos que e o mais extenso de toda a linha dc Cintra e Torres, ha outro de 25 metros. um pontão de 6 metros e outro de 10 metros, depois do qual o linha passa n'um dos pontos que hoje não tem importancia, mas que em breve ficará sendo um dos de mais movimento da linha, porque será o de ligação entre o futuro caminho de ferro da circulação da cidade e o de Cintra a Torres.

Estação de Cintra.
O Occidente n° 306, 21 de junho de 1887

E ao kilometro 4.100 que virá a ter a linha em construeção desde Xabregas, pelo valle de Chellas, a Bemmfica; e ahi que os comboios que partirem de Alcantara receberão ainda no final deste anno, segundo se assegura, os passageiros que, de toda a rede de leste e norte, de todo o paiz, ligado por essa rede, e de todos os pontos do estrangeiro, desejarem seguir directamente a Cintra, a Torres e a outros pontos servidos pela nova linha. 

Passado este ponto seguem ainda dois viaductos, de 10 metros, e mais adiante o apeadeiro de S. Domingos, paragem mais proxiina para os logares de S. Domingos de Bemfica e Sete Rios.

Este apeadeiro não está ainda aberto á exploração, mas sel-o-ha brevemente, destinado como a ser um ponto de grande concorrencia do publico, não só porque, durante a estação calmosa, d'elle se aproveitarão as muitas familiar que váo veranear para aqueles sitios, como porque constitue um agradavei passeio para quem quizer', sem se affastar muito do centro da cidade, tomar um pouco de ar puro dos campos, indo no comboio até S. Domingos, tomando ali a bela estrada, larga e bem construida até Sete Rios e voltando d cidade pelos sitios de S. Sebastião da Pedreira e Avenida.

Não faltam naquelas immediações interessantes quintas a visitar, algumas mesmo cheias de flôres, e de deliciosas ruas de arvoredo, como a  do sr. Mattos e Silva, chamada da Atalaya, onde, mediante a apresentaçáo do nosso bilhete de visita, ha tempos passámos uma tarde deliciosamente, entre o aroma das flôres que cobrem os macissos a cada um dos lados do caminho, e a amabilidade do proprietano que não é menos apreciavel.

Aqui lhe deixamos lambem o nosso bilhete de agradecimento pela maneira porque nos recolheu ali. onde fomos attrahidos pelo convite de duas encantadoras creanças que correram pressurosas a fazer-nos as honras da... quinta. 

Antes de terminar. porem, devemos fazer uma rectificação dum erro commetido.

Huma das leituras a que nunca nos démos confesso-o, foi o do Flor Sanctorum. Por isso facilmente ao fallar da estatua que esta em Alcantara confundimos os santos e, dissemos, guiados pelo vulgo, que era um S. Pedro. 

Ponte de Alcântara, desenho de Nogueira da Silva, 1862.
Hemeroteca Digital

Hoje sabemos e com todo o arrependimento aqui estamos a penitenciar-nos, que aquella estatua, que aliaz tem um certo valor artistico, não é de S. Pedro, mas de S. João Nepomoceno, mandada ali collocar, em 1743, por D. João V, por occasião do alargamento da ponte e outros melhoramentos que o magnanimo rei realisou na cidade, e devida ao cinzel do esculptor italiano João Antonio de Padua. 

Lisboa, porta da cidade junto à ponte de Alcântara e estátua de S. João Nepomuceno.
Arquivo Municipal de Lisboa

Que nos perdoe o milagroso santo attendendo a que, afinal, não lhe fizemos mais do que o seu homonymo fez ao Christo — baptisal-o, pedindo-lhe desculpa de havermos substituido as margens do Jordào pelas... do caneiro. 

Nemo dat plusquou habet. (2)


(1) O Occidente n° 301, 1 de maio de 1887
(2) O Occidente n° 302, 11 de maio de 1887
(3) O Occidente n° 303, 21 de maio de 1887
(4) O Occidente n° 304, 1 de junho de 1887
(5) O Occidente n° 306, 21 de junho de 1887

Informação relacionada:
O Occidente n° 300, 21 de abril de 1887
Paixão por Lisboa, A Torre de Belém, e o Caminho de Ferro de Lisboa a Sintra
Caminho de Ferro monocarril sistema Larmanjat em Portugal

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Val de Pereira

Em sessão da Câmara Municipal de 26 de março de 1866, propôs o vereador Isidoro Viana que a azinhaga chamada de Vale do Pereiro passasse a ter a denominação de travessa de São Mamede, por estar no seguimento da mesma travessa, dando-se-lhe maior largura. Para isto bastava expropriar uma terra de semeadura e umas barracas velhas e insignificantes. Foi a proposta discutida e em seguida enviada a informar à Repartição Técnica. Até hoje.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Imagem: Museu de Lisboa

Esta azinhaga de Vale do Pereiro começava no Salitre e ia acabar no caminho ou rua daquele nome em frente da quinta de Santo António, apertada entre os muros da do Cordoeiro, à direita, e do casal da Carvoeira, à esquerda. 

Aproximadamente seguia a directriz da nova rua de Rodrigo da Fonseca que serve de testa ao Bairro Barata Salgueiro.

Da quinta do Cordoeiro, pouco sei; do casal alguma coisa pude apurar. Ficava encravado entre o Salitre, a estrada e a azinhaga de Vale do Pereiro, e constava de casas e outras dependências, terras de semear, olival, vinha e poço de engenho. A carvoeira que lhe deu o nome chamava-se Nazaré e era a proprietária das terras. Em 1820 e tantos pertencia o casal ao súbdito alemão Bento Guilherme Klingelhoefer.

Lisbon, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Falecido este em 1841, os administradores liquidatários da herança puseram o casal em praça e foi arrematado, não sei por quem, nesse mesmo ano.

No estremo dele vê-se hoje o respiradoiro do túnel do Rocio. 

A designação de Vale do Pereiro ou de Pereira e Val de Pereiro é vulgar de sul a norte do país. A corografia do Baptista cita numerosos locais desse nome, com variantes na grafia e no género. 

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O nosso Vale de Pereiro, às abas de Lisboa, remonta ao século XV, pelo menos, e é de crer provenha ainda de mais vetustas épocas. 

Em um dos livros da Mitra Patriarcal, colecção recentemente entrada na Torre do Tombo, encontram se três documentos referentes a este local, os quais passo a analizar.

É o primeiro uma escritura de emprazamento feita pelo arcebispo de Lisboa D. João, em três vidas, a Gil Martins do Poço, de uma vinha e olival em Vale do Pereiro. Está datada de 22 de março de 1442.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Diz o documento muito precisamente: huma vinha e olival que son no Val de Pereira asima danda Luçus (Andaluz) asêrca da dita cidade que son de sua Meza Arsebispal e partem da parte do fundo do Soão (sul) com olival de Cathelina Feya que hora é de Bertholomeu Fernandes e da parte do Aguião (norte) com caminho Velho e deshy tornando através com olival de João Esteves créligo rasoeiro de São Lourenço e deshy entestar da parte do aguião (norte) por Marcos e cómaros e como se vay asima com olival e vinha de João de Lisboa mercador e deshy como se vay em redor e com vinha do Cabbido que ora traz Pêro Soayres Mercador e deshi como se torna arredor da parte da travesia com caminho de Éreos (herdeiros) junto com herdade de São Dominguos que foi do Berton, que chamam... e deshi como se torna afundo da parte do avrego (sul) com herdade que foi de dito Bertholomeu Feyiiandes e deshi mais afundo com vinha do Titulo da Conezia de Pêro Domingues, filho de Dominguo Annes, criado de El-Rey e vai-se accabar no dito olival de Cathelina Feya...

S. Sebastião da Pedreira, Largo do Andaluz e St.a Marta, vista tirada de Vale do Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O segundo documento é um instrumento de que consta pagar-se ao referido arcebispo quinhentos e setenta e dois reais brancos, de foro da referida propriedade. Isto é, o mencionado Gil Martins do Poço, como trazia arrendada a um tal João Vasques, escrivão da Távola do Conde de Ourém, uma quinta que possuía em Vale do Pereiro (ou Val de Pereira) e este lhe estava em dívida ainda de rendas anteriores, transferia para êle, emquanlo lhe durasse essa obrigação, o pagamento do foro, da tal vinha e olival, ao arcebispo de Lisboa.

O estromento, datado de 2 de março de 1448 reza assim:

Saibam os que este estromento pirem que na era do Nascimento de Nosso senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta e oito annos dous dias do mes de março, yia cidade de Lisboa no paço dos Tabelliaens, pareceo hy Gil Martins do Poço morador na. dita cidade e dice que hera verdade que elle tinha huma quinta em termo da dita cidade onde chamam Val de Pereira arrendada por nove anos a João Vasques, escrivão da Tavola do conde dourem, (morador ?) na Judiaria dessa mesma por dez escudos douro em cada hum anno de renda pagados em duas pagas, segundo era contheudo no estromento do dito arrendamento, a qual quintaa com todas suas pertences o dito Gil Martins deu e aconteceo em partilhas a Gomes e Annes de Óbidos, escudeiro do Senhor Regente, marido de Catherina de Serpa, seu neto por parte da dita sua molher e que porem a elle Gil Martins aprazia como logo aprouve e mandou que o dito João Vaz da dita renda de dei escudos dê e pague ao arsebispo de Lisboa em cada hum anno, por dia de Páscoa quinhentos e settenta dous reaes brancos que o dito senhor arsebispo hade haver de foro de huma vinha e olival e herdades que com a dita quinta andafn e o que sobrar se pague a Gomes Eanes de Óbidos. . . etc. 

Lisboa, St.a Marta vista tirada de Vale do Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O recibo de pagamento do foro aludido feito por João Vás ao arcebispo de Lisboa em 6 de Julho de 1451, constitui o terceiro documento.

Como se viu pelas transcripções feitas, o território de Vale de Pereiro achava-se, naquele tempo, retalhado em quintas, olivais e vinhas, umas da Mitra Patriarcal — grande proprietária no termo de Lisboa — , e outras de particulares.

Segundo me parece da leitura atenta das complicadas confrontações, conclue-se ficar a propriedade da Mitra ao norte da azinhaga de Vale do Pereiro, onde, em 1755 e anteriormente mesmo, ficavam as terras fragmentadas dos Congregados do Oratório, hoje inclusas no ainda projectado Parque Eduardo VII. O caminho velho que ficava da parte do norte, bem poderia ser a estrada de Palhavã.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fiquemos nisto. A designação de Val de Pereira ou de Vale do Pereiro, é antiquíssima; a Mitra possuía ali propriedades, assim como o Cabido; Gil Martins do Poço tinha uma quinta e o resto retalhava-se em vinhas e olivais de diversos donos.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O plantio da vinha era muito comum aqui às abas de Lisboa desde remotos tempos. E ver as Memorias para a Historia das Inquirições nos primeiros reinados de Portugal, publicadas em 1815, por João Pedro Ribeiro, numa inquirição feita — é de supor durante o reinado de D. Afonso III — a quantidade de vinhedos mencionados como pertencentes a várias ordens reli- giosas e militares. Os frades de São Vicente, entre muitos bens, possuíam uma vinha in Anduluzes (em Andaluz), outra in loco qui dicitur Alvaladi, e outras muitas no Lumiar, Charneca, Chelas, Leceia, Telheiras, Carnide, etc. Os frades de Calatrava tinham uma vinha in Arrujos (Arroios) e os de São Tiago e os Hospitalares, cada um a sua. Foram elas que forneceram até o século XVI o apreciado vinho do termo, então chamado de Campolide.

Pelo espaço de quatrocentos anos que de alterações se não fizeram!

Lisboa, rua do Salitre, vista tirada de Vale de Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quantos emprazamentos, quantas vendas, quantas mudanças de proprietários!  De Andaluzes à Cotovia e a Campolide, por todo esse vasto trato de terreno, passou o vendaval dos séculos. Vale do Pereiro cem vezes transmudou a sua face matizada de vinhedos, de olivais e de searas verdejantes, cortada de azinhagas e de carreiros, esmaltada de muros de defesa, de cômoros e de marcos divisórios. Assente a poeira dos des troços produzidos nesse largo período, é que vamos agora examinar o arrabalde. 

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era assim este sítio pela ocasião do terremoto, e foi-o ainda por muito tempo. Entrando na rua pelo lado do Salitre ficavam à esquerda as terras dos padres da Congregação do Oratório, que acabavam junto ao muro da quinta de Santo António, cujos restos ainda conheci e cuja casa de larga portada seiscentista, de cantarias boleadas, ainda hoje faz razoável figura entre os caixotões aparelhados à moderna, no troço que sobrevive da rua arrabaldina. 

Lisboa (Vale do Pereiro), estado actual das obras na Avenida da Liberdade, Ribeiro Cristino em O Occidente, julho de 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

Seria esta quinta aquela que, nos princípios do século XVIII, aparece denominada de Vale do Pereiro nos registos paroquiais de São Sebastião da Pedreira?

Nesses prestáveis e por vezes tão mal tratados informadores, vi que tal propriedade pertencia em 1708 ao padre Frei Pedro Borges, do hábito de Aviz, o qual nela faleceu em 6 de março desse ano, e que, em 28 de março de 1713, nela falecera também, José da Nóbrega Botelho, filho de Francisco da Cruz Nóbrega e de Andresa de Sousa Botelho.

O sítio de tal nome é já apontado em 1603 no assento de óbito de uma Margarida do Rio, mulher de um tal Pedro Fernandes, e a primeira vez que toma a designação de rua é em 1731, em igual documento respeitante a Marta de Almeida, viuva de D. João Maldonado.

Noutro assento de 1702, da paróquia de São José, fala-se em casas novas junto a Vale do Pereiro, sinal de que o subúrbio se começava a povoar.

Lisboa Arte Pintura Paisagem e animais [vista do Vale do Pereiro], João Cristino da Silva, 1859.
Imagem: MatrizNet

Pegada às casas da quinta de Santo António, via-se a ermidinha de Nossa Senhora da Mãe de Deus e dos Homens, de que já se falou, ao tratar de São Mamede, e depois mais terras dos Congregados até à azinhaga da Torrinha, cortadas a meio por um caminho (chamado beco de Santo António em 1833), que dava serventia à propriedade.

Entre esse beco e a quinta é que, mais tarde, se construiu, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo,o abarracamento de Vale de Pereiro, para quartel de um dos regimentos da província, chamados em 1755 para policiar a cidade, e zelar pela segurança dos seus habitantes.

Parada militar no quartel de Vale do Pereiro, Paulo Guedes, 1906.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não sei qual dos regimentos, mandados vir nessa ocasião iria ocupar o abarracamento, após os bivaques dos primeiros meses, se o de dragões de Évora, se o de Cascais, se o de Peniche, se o de Setúbal ; o certo é que, em 1784, estava aqui albergado o de Infantaria do conde de Aveiras, em 1799, o de Lencastre, em 1834 o de infantaria 2 e ultimamente o 2 de caçadores que saiu para a Cova da Moira onde esteve até à sua extinção. O quartel de Vale do Pereiro ficou então servindo para quaisquer dependências de serviços de administração, e assim foi apodrecendo, como está sucedendo ainda ao de Campo de Ourique, manchando o bairro com o seu aspecto miserável. 

Creio que foi um litígio complicado, que obrigou o município a ter suspensa durante muito tempo a demolição do quartel pombalino. Os terrenos onde êle assentava pertencem, ou pertenciam, aos herdeiros da falecida condessa de Gamarido, cujos possuidores, a esse tempo, o cederam para aquele fim exclusivo, com determinadas cláusulas. Foi uma destas cláusulas que durante anos susteve de pé o vetusto casarão.

Primitivamente constava apenas de dois barracões postos a par, paralelamente à rua. Em 1784 fizeram-se-lhe obras. Repetiram-se estas em 1798, no sentido de alargar-lhe os cómodos que eram poucos. Em 1804 já se achava concluído, como se vê da planta levantada nesse ano pelo engenheiro Fava. 

Carta topographica de Lisboa e seus suburbios..., Duarte José Fava, reprodução de 1807.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 5 de junho de 1908, como tal litígio se augurasse longe ainda de solução satisfatória, entendeu o quartel começar a demolir-se por iniciativa própria. Na madrugada desse dia desmoronou-se com estrépito, parte do edifício.

Hoje nada resta do velho pardieiro, e o alinhamento da avenida de Braamcamp está concluído. O prolongamento da rua de Rodrigo da Fonseca é que parece, ignoro porquê, estar ainda para demora, apezar de, em 15 de dezembro de 1914, se ter feito, por sessenta contos de réis, à senhora condessa de Foz de Arouce, a expropriação da parte da quinta dos Arciprestes ne- cessária para tal fim.

Aí por 1770 e tantos abundavam por aqui os militares em moradias junto do quartel. Furriéis, tambores-mores, cabos e soldados, albergavam-se nas casas abarracadas que enxameavam no local. Escusado será dizer qual seria a maior percentagem da população feminina.

Quando constou em Lisboa, na segunda quinzena de março de 1817, que el-rei D. João VI, escolhera para receber o preito da corte do Rio de Janeiro, pela sua subida ao trono, o dia 6 do mês seguinte, sábado de aleluia, os comandantes dos regimentos da guarnição da cidade resolveram dar um público testemunho da sua calorosa adesão a tão fausto acontecimento. Soube-se, que na véspera do dia festivo sairia o bando do Senado da Câmara determinando uma iluminação geral para a noite seguinte e, eis a oficialidade dos regimentos lisboetas, entusiasmada a preparar as luminárias dos quartéis.

Depois da parada no Terreiro do Paço, Rocio e ruas comunicantes, de todas as tropas de linha e milicianos, Guarda Real de Polícia, Atiradores e Voluntários Nacionais, e da revista e marcha que se lhe seguiu, retiraram para os seus aquartelamentos e principiaram os fogos de artifício e a pasmaceira das iluminações. Um dos regimentos que mais luziu no desempenho da sua vistosa homenagem, foi o de Vale do Pereiro, o bravo 16 de Infantaria.

Sigamos a descripção do prospecto segundo a notícia da Mnemosine Lusitana.

No corpo central da ornamentação luminosa que cercava a porta principal do abarracamento, figurava uma latada sobre um fundo de buxo e de loiro, de que se recobriam as paredes nesse ponto da fachada. Por cima corria uma balaustrada coroada de trofeus militares, entre os quais avultavam dois escudos com os dizeres "Amor" e "Gratidão", sobrepujados, estes, de um grupo de nuvens, que na ocasião da inauguração se abriram para patentear o retrato de el-rei.

Sob o retrato lia-se esta quadra:

Immune Portugal hum Deus promette, 
Campo d'Ourique ouvio seu Santo Brado; 
As promessas de hum Deus mudar não podem 
O Tempo, a Morte, nem Desgraça, ou Fado.

Entre os quatro pilares da latada que suportavam a balaustrada, de cada lado da porta, liam-se estas:

A Pátria de seus Filhos Amor pede, 
Dos Vassalos o Rei Fidelidade: 
Juramos defender em todo o tempo 
A Fé, a Pátria, as Leis, a Magestade.

Sois Monarcha, Senhor, dos fieis Lusos, 
Que não sabem curvar-se a extranho Dono; 
E quando por Sob'rano vos aclamão 
Em cada coração vos dão hum Throno. 

As entradas da dupla rampa de acesso ao portão, estavam ornamentadas com arcos de buxo, rematados por um leão, das garras do qual pendiam fitas com o dístico:

Perseverando, Lisboa. Regimento n.° 16

O muro da rampa revestido de ramos de loiro, terminava, em cada uma das extremidades, junto ao arco, por duas figuras, imitando mármore, toucadas de um cocar de plumas, e sopesando escudos, nos quais se lia, em um: 

Do insigne Regimento, audaz, temido, 
As batalhas tu vês, nas quaes, ó Lusos, 
Vencedor sempre foi, nunca vencido.

e noutro:

Ás Lusas Legiões soube dar Glória 
Beresford imortal, e em sua frente 
As conduzio ao Templo da Memória.

Na extensão do parapeito do muro, achavam-se disseminados vários medalhões, contendo os nomes e as datas de todos os combates, batalhas, sítios, bloqueios e assaltos em que o 16 tomara parte, desde o combate de Albergaria, em l0 de maio de 1809, até o sítio de Bayona, que durou desde 27 de fevereiro a 28 de abril de 1814.

No centro do parapeito da meia laranja, fronteira à porta do quartel, avultavam as armas reais de Portugal por baixo das quais se lia, num transparente, esta quadra:

Do Tejo ao Ganges sem temor levadas 
Dando Fama aos Annaes da Antiguidade 
Desde o Tejo ao Garona as conduzimos 
Fazendo temer Gallia em nossa idade.

Um grande número de luzes abrilhantava esta ornamentação, e bom seria que assim fosse para desviar as atenções do povinho, dos malíssimos versos que, como amostra do estilo literário da época de D. João VI, ofereço à curiosidade do leitor.

Tais foram as festividades feitas pelo regimento de Vale do Pereiro, em 1817.

Continue-se a descripçao de Vale do Pereiro ao tempo do terremoto.

Planta do terreno compreendido entre a linha de cumeada da Cotovia, Rato, Amoreiras e Arco do Carvalhão e a linha de talveg de S. José, St.a Marta e S. Sebastião da Pedreira, feita em 1756, pelos Carlos Mardel, Eugénio dos Santos, Elias sebastião Poppe e António Carlos Andreis; acrescentada com o traçado conjectural das ruas do bairro de Pombal e a baixa da Cotovia [nota: o topo da imagem indica o lado nascente].
Imagem: Internet Archive

A azinhaga da Torrinha, atravessava o chamado, hoje, Casal Mont'Almeida até à circunvalação e prolongava-se ainda depois até Campolide. A planta inserta no primeiro volume desta obra elucidará melhor o leitor do que todas as minhas indicações.

Lisboa, Avenida da Liberdade, comemorações do IV Centenário da Índia, Feira Franca.
Litografia de Ribeiro Cristino e Roque Gameiro, 1898.
Imagem: PAM

Depois da azinhaga, ficava a quinta do mesmo nome, em cujo âmbito se erguia a torrinha octogonal, que, por tanto tempo, alindou com o seu ar um tanto ou quanto misterioso, aquele local.

Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 01 Paulo Guedes AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nesta, quinta esteve em 1804 um colégio de que era director e proprietário, o professor Luís Maigre Restier. Nesse mesmo ano se mudou para Xabregas e, mais tarde, em 1833, estava, ainda com o mesmo nome, na travessa das Mónicas. Tempo depois ocupou, as casas e o torreão, uma fábrica de velas de estearina de que era sócio ou corrector de vendas o conhecido Castelani. Não era raro vê-lo agenciando a sua vida por estas paragens, dando regabofe aos ga rotos que se compraziam em trazê-lo às vaias, chacoteando do seu bigode ruivo e da sua figura ridícula.

A torrinha, sacrificada às exigências do progresso, começou a demolir-se em sexta feira santa, 20 de abril do ano findo, após uma comprida e porfiada resistência ao camartelo municipal do seu último morador, o francês Gustavo Mathieu, que ali tinha instalada uma oficina metalúrgica e onde demorava há mais de 25 anos.

Vi desaparecer com pena a simpática torrinha que era tanto da fisionomia daquele sítio, e comigo decerto muitos lisboetas sentiram a mesma pena.

Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 02 Benoliel AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esculápio, no Século de 21 de abril do ano último, fez, como extremado amigo da cidade, o seguinte epicédio ao pobre torreão setecentista do dr. José de Sousa Monteiro:

"Vetusto monumento de fé republicana de outras eras, anda o camartelo municipal a derruí-la, para dar seguimento ao parque Eduardo VII, que já se desenha esplendoroso ao cimo da Avenida, coroando a rotunda e o lugar onde, para as calendas gregas, se há-de erguer a tão falada estátua ao Marquês de Pombal. O leitor amante das antiguidades de Lisboa que vá vê-la nos seus derradeiros momentos, a célebre Torrinha onde se faziam dantes os comícios republicanos e onde os janízaros da municipal se fartaram de espadeirar o povo e os propagandistas da ideia nova. Faz pena vêr a Torrinha a cair aos bocados, em holocausto ao progresso e ao aformoseamento da plástica citadina!"

Dão-te a morte; coitadinha,
E tu morres fria e calma 
Torrinha que eras "Torrinha", 
Do teatro da minha alma.


Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 03 Bárcia AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Seguia-se à Torrinha a casa e quinta de Manuel de Jesus, que há pouco também foi a terra e onde residiu desde as ultimas expropriações municipais, o sr. António Fernando Silva, chefe do serviço dos jardins da Câmara. Sobre o portão desta moradia, que ficava a cavaleiro da avenida de Fontes Pereira de Melo, avultava (julguei eu, por muito tempo, que fosse um brazão) um ornato feito de alvenaria com certa elegância decorativa. Na demolição lá se foi também.

Este Manuel de Jesus, que suponho um pequeno proprietário arrabaldino, era casado com uma tal Isabel Francisca que faleceu, em i5 de dezembro de 1737, nesta sua casa do Vale de Pereiro.

Lisboa Pintura a óleo do Parque Edurdo VII Vale do Pereiro 03 AML.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A esta casa seguia-se um pedaço da quinta das Lagens que se prolongava para o norte-poente, e depois dependências muradas da propriedade, a esse tempo, de Domingos Ferreira de Aguiar, a qual tornejava para o pitoresco largo de Andaluz [...] (1)


(1) Matos Sequeira,   Depois do Terremoto, Volume II, Academia das Sciências de Lisboa, 1917

Leitura adicional:
Ruy Travassos Valdez, A Quinta da Torrinha ao Vale do Pereiro

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Rua Nova dos Mercadores

A Rua Nova, eixo paralelo e aberto ao rio, provavelmente já existiria no reinado de D. Dinis. Encontramo-la na regularização e ampliação da mesma Rua Nova em 1294, empreitada que obrigou ao derrube das casas "para que a rua fique de 8 braças" [...]

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London

As primeiras notícias do projecto de calcetamento da Rua Nova de Lisboa constam de uma carta de D. João II, datada de Novembro de 1482, onde o rei (...) determinou, como trabalho prévio, a execução de uma planta "pyntada em papell", para melhor poder estudá-la e emitir o seu parecer [...]

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London

Seria através da acção de D. Manuel que a referida rua passaria a ter "um notável perfil urbano com edifícios de habitação de cinco andares, onde o piso térreo era ocupado pelas mais bem fornecidas lojas de toda a Europa em matérias-primas e objectos provenientes do Oriente e de África, autênticos "gabinetes de curiosidades" [...]

Rua Nova dos Mercadores - The New Street of the Merchants from SWD agency on Vimeo

do Rossio, querendo ir para o mar, entram na rua Nova d’El-Rei, comprida e direita rua, que vai dar na grande rua Nova dos Mercadores, que por ser na principal parte da cidade e junto do mar ao longo dele, é lugar onde concorrem todos os mercadores e toda a mais gente de trato, que tem de comprido duzentos passos e de largo vinte; e sabe-se que rende em alugueres de casas oitenta mil cruzados [...]

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London

há nesta rua, além d’outras coisas, edifícios admiráveis, de tantos pavimentos e com tantos inquilinos, que não se conhecem uns aos outros nem de cara nem de nome [...]

Rua Nova dos Mercadores em 1521, Livro de Horas de D. Manuel,
iluminura atribuida a António de Holanda.
Imagem: MNAA

passando a Praça Nova do Rei, que transborda de entalhadores, joalheiros, ourives, cinzeladores, fabricantes de vasos, artistas da prata, de bronze e de ouro, bem como de banqueiros, cortando á esquerda, chegaremos a uma outra artéria que tem o nome de Rua Nova dos Mercadores, muito mais vasta que todas as outras ruas da cidade, ornada, de um lado e de outro, com belíssimos edifícios [...] (1)


(1) André Carneiro, Espaços e paisagens. Antiguidade clássica e heranças contemporâneas. Vol. 3, Coimbra, Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Projecto de travessia do Tejo em 1889

Se a tivessemos já, se Portugal se podesse já orgulhar de ostentar na sua capital a maior ponte da Europa, não havíamos hontem gasto o melhor de 35 minutos para vir do Barreiro a Lisboa, nem o nosso somno de commodidade seriam perturbados mais cedo, para nos prepararmos para um trasbordo da carruagem em que chegámos á estacão do caminho de ferro, para o vapór em que tivemos de seguir, para o Terreiro do Paço.

Ponte sobre o Tejo, projecto de E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sonho de ligar as duas margens do Tejo por meio de uma ponte vae se encaminhando para se converter em realidade, graças á iniciativa e actividade do Snr. Bartissol e á tntelligencia arrojada do distincto engenheiro Sr. Seyrig, o constructor da ponte D. Luiz no Porto.

D'este sonho é reproducção a nossa gravura d'hoje representando a ponte já construida, e vista da margem esquerda do rio.

O projecto dá á ponte a extensao de 2310 metros, completando-a com uma linha ferrea que partirá da estação do Rocio a ligar com a do Barreiro, n'um percurso de 15 kilometros e meio.



Do Rocio sahirá a linha em tunnel seguindo em curva para a esquerda, voltando assim de forma a passar quasi sob a praça do Principe Real, e indo desemhocar no valle formado pela rua de S. Bento, perto do palacio das Côrtes.

Atravessa então a rua de S. Bento em linha recta inclinando-se depois novamente para esquerda n'outra curva, e passa por detraz dos Cortes. N'esse ponto a linha será aberta em trincheira e em tunnel, e estabelecer-se-ha a estação da rua de S. Bento.

A calçada da Estrella é atravessada em subterraneo, e o seu transito não será interrompido nem pelos trabalhos nem pela exploração.

Este subterraneo prolongar-se-ha na extensão de 4oo metros, indo a trincheira, que segue, terminar acima da Rocha do Conde d'Obidos.

É facil, diz o sr. Bartissol na sua memoria publicada na "Gazeta ds Caminhos de Ferro", fazer chegar ahi uma estrada que, vindo da esquerda e a direita, communique_com a ponte, pondo d'este modo, em relação directa e facil com ella, o bairro de Buenos-Ayres e a parte baixa da cidade, inferior as Côrtes, como o Conde Barão, etc.

Projet de traversée du Tage, étude de E. Bartissol et T. Seyrig, Paris & Lisbonne, 1889.

O encontro extremo da ponte será situado na proximidade immediata d'essa embocadura, e é d'ahi que as duas vias, a via ferrea e a via publica, partirão por sobre o rio.

Estabelecer-se-ha outra estação n'este ponto, destinada a facilitar aos habitantes do bairro da Estrella as communicaçóes com a outra margem do rio.

O accesso a esta estação será feito por meio d'um ascensor vertical propriamente dito, ou por um caminho funicular inclinado, que a communique com os caes o mais directamente possivel.

É grande a importancia de tal communicacão, attendendo a que este ponto, com as novas dockas em construcção, será de futuro um dos centros de maior actividade da capital.

Desde a bocca do tunel até a beira do rio ha quatro arcos, sendo os 3 pilares, dispostos — um para cá um pouco da linha dos caes actuaes, e os outros perto da calçada do Marquez d'Abrantes, e mais acima ainda, sobre a collina. O primeiro tramo e de 115 metros, e os outros tres de 160 metros cada um.

Do 3.° pilar parte o primeiro grande arco, 300, metros de abertura: Esta disposição deixa, pois um espaço livre muito consideravel, quer nos caes, quer no rio. para que as embarcações possam manobrar e atracar desafogadamente.

A partir d`ahi, a ponte avança ser sobre o rio, indo os seus tramos alternando de imensóes. Sendo o primeiro de 3oo metros, o seguinte é de 160, o immedtato de 300 metros, o outro de 160, e assim successiramcnte. A ponte completa terá quatro tramos de 3oo metros, e 6 de 160 metros; sendo o ultimo de 15o metros, similhante a um dos de 160 em consequencia da conformação do terreno marginal nas collinas de Almada, que obrigou a encurtar este arco.

Projet de traversée du Tage, étude de E. Bartissol et T. Seyrig, Paris & Lisbonne, 1889.

A ponte vae effectivamente apoiar-se sobre essas collinas a um nivel elevado, deixando, como do lado de Lisboa, a margem do rio intacta, o que permitte de futuro a ampla liberdade de aproveitar essa margem para a eonstrueção de caes e outros estabelecimentos, em que se pensa já de ha muito.

Em Almada estabelecer-se-ba a primeira estação ao kilometro 4:450. As outras, que seguem, serão:
Piedade ao kilometro 6:460; Alfeite ao kilometro 9:300; Seixal ao kilometro 12:300; Barreiro ao kilometro 15:500.

O entroncamento com a linha do sul será feito na propria estação do Barreiro, que assim não ficará inutilisada e poderá servir de deposito e officina de reparações.

Como se vê da gravura a ponte será de um só taboleiro, metade do qual é destinado ao transito ordinario, metade á via ferrea.

Projet de traversée du Tage, étude de E. Bartissol et T. Seyrig, Paris & Lisbonne, 1889.

A largura total é de 25 metros nos pilares e 18 no taboleiro.

A altura do taboleiro para o nivel da agua é de 5o metros.

A perspectiva è elegante e digna de uma cidade como n nossa. Pena será pois, se tão grandiosa obra ficar só na gravura. (1)


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 380, julho, 1889..

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Marinha do Tejo

Começàmos hoje a publicar a serie dos barcos de transporte que navegam no Tejo, desde o catraio até á fragata, desenhados do natural, com toda a exacção, pelo sr. Pedroso, e por elle mesmo gravados.

João Pedroso, Revista Illustrada, anno 1, n° 17, 1890.
Imagem: O Archivo Pittoresco e a evolução da Gravura de Madeira em Portugal

É mui variada, no casco e no apparelho, esta serie de embarcações, a que chamaremos "marinha do Tejo", se é que lhe não deviamos antes chamar marinha pequena, já que não temos marinha grande...

Não affiaçàmos, porém, que a nomenclatura de taes embarcações sáia rigorosa, porque, se o lapis do nosso artista conseguiu roproduzir a fórma e velame dc todos estes barquinhos do Tejo, outro tanto não podêmos nós conseguir quanto á denominação e origem de alguns d'elles.

Começando pelos catraios, que são os mais pequenos, a d'onde nós chamâmos geralmente catraeiros aos barqueiros, vemos que esta denominação não é muito antiga, porque não vem similhante vocabulo nos nossos bons auctores maritimos, sendo tão copiosa a lingua portugueza em termos nauticos. O alvará do tempo do marquez de Pombal (1765), que abaixo transcreveremos, diz que os "catraios" se tinham introduzido por aquelle tempo, e em tal quantidade, que por serem mui pequenos, e governados por gente ignorante, succediam muitas desgraças e avarias no Tejo, pelo que foram mandados queimar por ordem do marquez de Pombal, determinando-se qual havia de ser a lotação dos botes que, em logar dos catraios, se podiam construir. 

Eis o que dizia o alvará:

"Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes em consuIta do senado da camara os graves inconvenientes que resultam do uso das pequenas embarcaçoes chamadas botes, ou catraios, que de tempos a esta parte se tem introduzido para os transportes que se fazem no Tejo; tendo causado por uma parte frequentes perigos as vidas das pessoas que n'eIIas se transportam; não so pela pouca segurança das mesmas embarcações, mas tambem pela ignorancia das pessoas que as governam. E pela outra parte destinando-se como mais proprias para as clandestinas conducções, e descaminhos das fazendas de contrabandos. Para cessarem de uma vez os referidos inconvenientes, sou servido prohibir, da publicação d'este em diante, o uso das referidas embarcações pequenas, permittindo somente o daquellas que são necessarias para o serviço dos navios: e mando, que todas as que ficam exeptuadas, em transgressão do disposto n'este alvará, sjam logo aprehendidas, e queimadas por ordem do senado da camara da cidade de lisboa, nas praias a ellas adjacentes: e que os proprietarios das mesmas embarcações, incorram alem da pena do perdimento d'ellas, na de seis mil réis applicados para as despesas do senado, e na de prisão pelo, espaço de vinte dias pela primeira vez: aggravando-se-lhes em dobro, tresdobro, e mais á proporção das relácias, as referidas penas nos casos de reincidencia. Sou servido outro sim determinar, que as embarcações que se occuparem nos transportes que se fazem de  Lisboa para Belem, e mais portos da sua visinhança, sejam construídas na conforntidade das formas e medidas, que vão declaradas no papel que baixa com este, assignado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos."

As medidas a que se refere este alvará são as seguintes:

"Devem as mais pequenas embarcações d`estes transportes ter de bocca, no menos, 7 pés. De comprimento de roda a roda, ao menos 28 pés. A popa sera larga como do falua. O rodo da fôrma sera bem redondo á proporção da bocca para poder aguentar. E não poderá trazer qualquer destas embarcações mais que uma vela e um muletim."

Em cumprimento deste alvurá, o senado publicou um edital, para que todos os botes ou catraios, incursos na queima ordenada pelo alvará, se juntassem na prata de Santos, sobre graves penas. Ahi se lançou fogo a todos, o qual durou por muitos dias.

Os botes que de novo se construiram, segundo as medidas indicadas, ficaram-se chamando "catraios", tem uma so véla, e dois remos. Véde-o na estampa, que lá vem elle pela proa de um bote cacilheiro, do qual para o seguinte artigo se dará noticia.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com a preciosa coadjuvação da capitania do porto, e da repartição do imposto municipal denominado "tramagalho" esperàmos poder esboçar uma historia curiosa de tantas embareaçõesinhas, quasi todas mui veleiras e airosas. (1)

Já dissemos, e se viu na gravura antecedente, que o bote de catraiar, ou catraio, como d'antes lhe chamavam, é a mais pequena embarcação de vela de quantas navegam no Tejo, apesar de os haver com capacidade para 15 passageiros, todos debaixo de toldo. Muitos d'estes botes, principalniente os do cáes do Sodré, alem da vela triangular de espicha, armam uma bojarrona á proa, e uma mezena á ré; com este panno ficam muito airosos e veleiros. Quando não tem vento armam dois, quatro, e às vezes seis remos.

Já se vê, pois, que hoje não ha botes tão pequenos e perigosos como aquelles, que por este motivo, mandou queimar o marquez de Pombal. 

Os catraeiros são por lei, tambem pombalina, obrigados a fazer exame perante o capitão do porto, sem o que a camara lhe não concede a licença necessaria para catraiar.

O bote cacilheiro, é o gigante dos catraios; rijo de borda, aguentando muito mar, e com alterosa vela triangular, não de espicha, mas içada ao tope do mastro, e engatada na proa, impina-se arrogantemente para ré. Enfunada com a grande corda de vento que apanha d'alto abaixo, arroja o bote num apice de Lisboa a Cacilhas, que é o seu porto. Antes da instituição da companhia dos vapores do Tejo, em 1838, os botes cacilheiros faziam carreiras alternadas com as faluas; hoje ha muito poucos, e nas horas desencontradas das viagens dos vapores da companhia é que fazem algumas carreiras.

Actualmente ha uns 300 botes matriculados em Lisboa.

A falúa tem duas velas, tambem triangulares ou latinas, mui altas, tendo a de ré duas escotas. É uma embarcação valentissima, e d'antes tinham quasi exclusivamente as falúas a carreira de Lisboa a Cacillias, tomando os passageiros no caes das Columnas da praça do Commercio. Com a instituição da companhia dos vapores, foram as falúas desapparecendo d'este caes, umas compradas pela propria companhia, para se desfazer d'ellas, e outras porque tomaram diverso destino, empregando-se no transporte de generos em differentes portos do Ribatejo.

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Para Aldêa-Gallega, Moita, Alcochete, e Barreiro, ainda ha carreiras de falúa. As que estão matriculadas sao apenas umas 20.

A falúa, além das duas velas, tem quatro remos, de que pouco se serve, por ser embarcação pesada: algumas vezes armam os remos para ajudar a vela, quando o vento não é de feição. (2)

Todos os barcos que navegam no Tejo pagam um imposto á camara municipal de Lisboa, chamado do "Tramagalho", imposição antiquissima, e tanto que se lhe perdeu já a etymologia, sem que os esmirilhadores de antiqualhas tenham até agora podido atinar com a derivação d'este nome.

A camara, em consulta de 28 de julho de 1852, propoz ao governo um formulario do que deviam pagar todas as embarcações que navegassem no rio de Lisboa, ou viessem a seus portos, o qual foi approvado pela regia resolução de 17 de setembro do mesmo anno.

Ei-lo aqui, como parte integrante da histotia d'esta marinha do Tejo.

De cada viagem que fazem a esta cidade os barcos de Villa-nova, pagam 200 rs.

De cada viagem que fazem os de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca, Azinhaga, Santarem, Escaropim, Salvaterra, Porto de Muge, Virtudes, Samora e Benavente, 150 rs.

De cada viagem que fazem os barcos de Povos, Villa-Franca, Alverca, Póvoa, Savcavem e Friellas,  100 rs.


Os barcos de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca e Azinhaga, pagam além de 150 rs. acima referidos, mais, de uma avença muito antiga, a que chamam "cabo de anno", pelas viagens que fazem aos portos do termo até Paço d'Arcos, 1:000 reis. 


Todas as embarcações dos portos acima declarados, que fazem viagens de verão, que vem a ser: conduzir palha ou fruta para esta cidade, o qual verão principia desde o dia de S. Pedro até á feira de Villa-Franca; não pagam n'este tempo por viagens, mas sim por avença que vem a ser:

Cada barco, 4:000 rs.
Cada bateira ou lancha, 3:000 rs.
Cada batel, 2:000 rs.

Os barcos do Samouco Alcochete, Aldea-Gallega, Moita, Lavradio, Alhos-Vedros, Barreiro, Aldea de Pae Pires, Seixal, Cacilhas, Porto Brandão, Trafaria, Coina, Cascaes, e Paço d'Arcos, pagam por ajuste.
As falúas, pagam 1:400 rs. por-anno.
As falúas que andam nas carreiras para Cacilhas, 2:000 rs.
Os barcos de Moios, 1:200 rs.
As fragatas, 1:000 rs.
Os botes, a 960 e 800 rs., conforme a sua grandeza.

Bote d'agua acima, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os barcos chamados d'agua a cima, cuja forma a nossa estampa representa, pertencem ao terceiro ramo d'esta tabela. (3)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos.

A savara tambem mostra ter a mesma procedencia, mas estes tem quilha, e vão fóra da barra ajudar as moletas na pescaria.

O alijo traz na sua denominação o destino que tem, que é alijar, descarregar os barcos que não podem atracar. Ha tambem alijos de vela.

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital
Todas estas tres embarcações foram escrupulosamente copiadas dos onginaes, pelo nosso exímio gravador o sr. Pedroso, que é tambem um peritissimo pintor de navios. (4)

Depois dos botes são os varinos os que em maior numero sulcam o Tejo. Esta denominação que elles tem no vulgo não vem em nenhum diccionario da lingua, e tambem na repartição do imposto que elles pagam em Lisboa tal se lhes não chamam, mas aveiros, nome generico para todos os barcos que vem do districto de Aveiro. Estão actualmente registados e avençados na repartição municipal de Lisboa 431 varinos ou aveiros.

Varino e monaio, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

O monaio é uma especie de varino da mesma procedencia, mas tem diversa armação, como bem mostra o que esta desenhado na estampa, ao mar do varino.

Pela seguinte curiosa estatistica, que na citada repartição nos ministraram obsequiosamente, vemos que a marinha do Tejo se compõe ao presente de 1:143 vélas. (5)


Embarcações registadas e avençadas na repartição do Tramagalho, Lisboa, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Chamam aqui no Tejo a estes barcos, "dos moinhos" ou de "moios", porque se destinam especialmente a conduzir as farinhas do Ribatejo para Lisboa.

Os barcos dos moinhos são mais airosos que as falúas com as quaes todavia se parecem. Tem como ellas duas velas, porém mais baixas e mais largas: os mastros sao inclinados para a proa, por isso escusam de bujarrona.

Barco de moinho, gravura, João Pedroso, 1861.
Imagem: Hemeroteca Digital

Segundo a estatistica que já publicamos, ministrada pela mesa do Tragamalho, ou da imposição das embarcações, na camara municipal, ha no Tejo 34 barcos dos moinhos, e a sua amarração é no caes do Tojo, proximo ao terreiro do Trigo. (6)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 31, pág. 247
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 33, pág. 261
(3) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 36, pág. 285
(4) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(5) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 48, pág. 380
(6) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1861, n° 9, pág. 70

Artigo relacionado:
Todos os barcos do Tejo


Informação relacionada:
As embarcações tradicionais do Tejo