Mostrar mensagens com a etiqueta Guerras Liberais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerras Liberais. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Batalhões de Voluntários, Cerco do Porto, 1832

Batalhões de Voluntários criados por D. Pedro Duque de Bragança em 1832

 1 Batalhão Académico
 2 Companhia de Cavalaria
 3 Batalhão da Rainha


 4 1.° Batalhão Móvel
 5 2.° dito
 6 3.° dito da Serra do Pilar
 7 1.° dito Fixo
 8 2.° dito dito
 9 1.° dito Provisório de Santa Catharina
10 2.° dito de Santo Ovidio
11 3.° dito de Cedofeita
12 Companhoia de Artilharia Nacional
13 Dita de dita do Batalhão Fixo
14 Dita de dita do 2.° dito dito
15 Dita de Artifices de __ __
16 Dita dos Lampeões da Cidade


17 Batalhão de Empregados Publicos
18 Dito da Beira Baixa
19 Dito de Tras os Montes
20 Dito do Minho
21 Dito de ____ Atiradores
22 Dito do Trem do Ouro
23 Dito do Trem Nacional
24 Dito de Mercantes do Douro
25 Companhia d'ambulancia (1)


(1) Arquivo Municipal do Porto

Mais informação:
Cerco do Porto (1832-1833)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Praia da Vitória (ou os Voluntários da Rainha em Villa da Praia) II de II

Antonio José de Souza Manoel Severim de Noronha, Conde de Villa Flôr, chegou ao porto da Villa da Praia no dia 22 de Junho de 1829, numa escuna, escapando com grande felicidade ao bloqueio [nota: repete este apontamento o texto do precedente, contudo, neste caso, apresentando iconografia topográfica e cartográfica].

Hemeroteca Digital de Lisboa

Era a segunda tentativa. Os soccorros trazidos pelo general Saldanha tinham sido repellidos pelas balas do cruzeiro inglez, que pouco depois foi mandado retirar [também "Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos"]!

Procedeu-se aos trabalhos de fortificação, em que prestaram relevantes serviços — Eusebio Candido Pinheiro Furtado [Memória Histórica de Todo o Acontecido no Dia Eternamente Fausto 11 de Agosto de 1829], e Joaquim José Groot da Silva Pombo.

Adoptaram-se, com pequenas modificações, as medidas tomadas pela Junta, continuando a fortificação desde o Porto Judeu até á Villa da Praia.

Planta da Bahia da Villa da Praya para Intiligencia, 1805.
Fortalezas.org

A esquadra de D. Miguel, constando, ao todo, de 22 vasos: nau D. João VI, trez fragatas [Pérola, Dianna e Amazona], duas corvetas [?, Princeza Real], cinco charruas [Jaya Cardozo, Galatea, Orestes, Princeza da Beira e Princeza Real], quatro brigues [ou cinco: 13 de Maio, Infante D. Sebastião, Providência, Glória e Devina Providência], etc [força de desembarque: dois patachos, Bom-fim e Carmo e Almas; duas escunas da Graciosa e Triunfo d'Inveja, dois iates, Bom Despacho e Santa Luzia e seis barcas canhoneiras, cada uma com uma peça], trazendo a bordo 3424 homens de desembarque, e 2224 da brigada e tripulação, appareceu nos mares da Terceira, na tarde de 29 de Julho de 1829 [Annaes da Terceira — Drummond].

Açores, Villa da Praia Ataque da 3.ª no dia 11 de Agosto de 1829.
Tenente Gualvão do Regimento dos Voluntarios da Rainha, c. 1830.
Fortalezas.org

Nos Açores, ainda na força da verão, não são raros os dias chuvosos e de bruma espessa. O dia 11 de agosto rompeu carregado de neblina.

Os telegraphos não podiam trabalhar. De terra não se descortinava a esquadra. Subitamente appareceu proxima á bahia de S. Matheus (a oeste) já com as lanchas fóra, fazendo signaes aos na- vios e denunciando evidentemente a intenção do ataque.

Um grande aguaceiro caiu de repente e a esquadra encobrio-se de novo.

Ás 11 horas da manhã, em seguida a uma chuva torrencial, appareceram as pontas dos mastros, por cima do cabo de Santa Catharina.

Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia, Damião Pego, 1881.
Fortalezas.org

Tinha chegado a hora do combate, que vou descrever rapidamente, e apenas como um episodio.

Defendiam a bahia da Villa da Praia o batalhão de Voluntarios da rainha, commandados pelo major Menezes, e outras forças que se conservavam debaixo d'armas desde a vespera, tendo á frente o denodado quartel-mestre-general, Balthazar d'Almeida Pimentel, actual conde de Campanhã.

Fundeava a esquadra inimiga trazendo á frente a nau D. João VI, ficando-lhe à esquerda as fragatas Diana, Amazona, e infante D. Sebastião. As outras embarcações em segunda linha.


Tudo isto lançou ferro tão proximo do terra, que não havia memoria de haverem feito outro tanto os proprios navios mercantes.

Commandava o forte do Espirito Santo, extrema esquerda, o alferes de caçadores Manuel Franco. O forte tinha trez peças, uma de calibre 18, as outras duas de 24, trez soldados de guarnição, e 8 artilheiros da costa.

Forte do Espírito Santo, Damião Pego, 1881.
Wikipédia

O do Porto [forte de Santa Cruz] era commandado pelo válentissirno alferes de infanteria — Simão Antonio de Alhuquerque e Castro, depois capitão de caçadores 5.

Forte de Santa Cruz (Praia da Vitória), Tombo dos Fortes da Ilha Terceira, 1881.
Wikipédia

Tinha uma peça, um artilheiro de linha, seis marinheiros, e a guarda composta de 4 soldados e um cabo. Vamos, que já era gente!

Faço uma relação mais circumstanciada das forças que entraram na acção, tirando-a dos — Annaes — para que se veja melhor quaes eram os recursos do partido liberal, e os prodigios que se operaram com esses escassos recursos.

O forte da Luz [Forte de Nossa Senhora da Luz] estava desartilhado no flanco esquerdo da bahia, de onde principiava a linha do batalhão de Voluntarios, estendida com cinco companhias, até o forte das Chagas, desartilhado tambem.

Muralhas do Forte de Nossa Senhora da Luz ou da Alfândega junto ao areal, c. 1900.
Delcampe

Duas barcas canhoneiras que alli havia, assim que viram a esquadra, refugiaram-se no porto. Os marinheiros portaram-se com bravura no combate. A cavallaria constava de 23 officiaes, commandados pelo capitão José de Pina Freire.

Tambem não deixava de ser um esquadrão imponente! Um punhado de academicos; mas esses estacionados nos Biscoitos, e os Voluntarios da rainha. Eis aqui as forças que estavam na Villa da Praia, quando a poderosa esquadra inimiga fundeou em linha de batalha.

Antes que a nau largasse ferro, o alferes Simão Antonio, eommandante do forte do Porto, fez-lhe um tiro de peça, matando-lhe um homem, ferindo outro, e caiisando-lhe diversas avarias a bordo.

A nau respondeu, cortezmente, mandando-lhe uma banda inteira. Travou-se o combate; cahiam chuveiros de balas.

O estrondo da artilheria era pavoroso. Os habitantes da villa julgaram-na arrasada por momentos. A esquadra, por ter fundeado muito proximo, perdeu a maior parte das balas, que se lhe encravaram na areia.

De terra, os Voluntarios da rainha, com intrepidez que tocava no delírio, sustentavam o fogo de fuzilaria sobre os navios.

Cada homem dizem que parecia um gigante, arrojado, temerario, inabalavel! Ás tres horas e meia da tarde, o chefe da esquadra, sentindo o silencio do forte do Espirito Santo, vendo as ruinas de outros, e persuadido, pelo fogo, de proposito, menos activo, que havia falta de munições, achou opportuno metter nas lanchas a sua primeira brigada, composta de 1114 granadeiros e caçadores.

Eram gente escolhida, bem postos, excellentemente fardados, disciplinados, arrojados, destemidos.

Cada um trazia noventa cartuchos, e cheio o cantil de vinho. Eram commandados por D. Gil Eannes e Azeredo, dois cabos de guerra de coragem verdadeiramente heroica.

Por entre a metralha dos seus proprios, e a chuva de balas liberaes, seguiam impavidos na empreza do desembarque.

Açores, Villa da Praia Ataque da 3.ª no dia 11 de Agosto de 1829 (detalhe).
Tenente Gualvão do Regimento dos Voluntarios da Rainha, c. 1830.
Fortalezas.org

Sobre o ponto do desembarque uma illuzão pertinaz do bravissimo major Menezes seria fatal se não acudisse o quartel-mestre-general conde de Campanhã gritando-lhe:

"O desembarque é á esquerda; mande-me mais força para supportar a infanteria."

O major Menezes persistia ainda; desenganado, finalmente, mandou tocar a unir á esquerda para sustentar as forças que soffriam o impeto do ataque. O fogo, no forte, era como á queima-roupa.

Neste conflicto horrivel notou-se a intrepidez (que tal seria l) de um granadeiro realista e de um caçador liberal.

Entre os combatentes distínguia-se tambem um rapaz de 12 annos que chorava a morte do voluntario José Caetano Alvares, amigo de seu pae, batendo-se ao mesmo tempo, como o soldado mais destro! 

Na subida do Facho, exposto a um risco imminente, o conde de Ficalho (hoje marquez) assumindo forças collossaes arrancava penedos e despenhava-os sobre a cabeça dos adversarios.

Vista para o Monte do Facho.
A Villa da Praia é atacada pela esquadra do Uzurpador, em 11 de Agosto de 1829.
Biblioteca Nacional de Portugal

O major Menezes, vendo o inimigo flanqueado pelo alferes Caldas, gritava:

"Camaradas, estes cães levam-se á baioneta: armar baioneta, armar baioneta."

D'ali a pouco, no meio da horrivel carnificina, rebentavam os gritos de victoria dos soldados liberaes, gritos que descoroçoavam os assaltantes, e iam levar o terror á guarnição da esquadra. D. Gil Eannes e Azeredo tinham cahido no campo como dois heroes.

O espectaculo era horroroso! Centenares de infelizes soldados realistas saíam das ondas, onde luctavam com a morte, e, agarrando-se aos rochedos, eram atravessados pelas baionetas dos soldados liberaes.

Nestes extremos, os desventurados imploravam a vida aos vencedores, e os officiaes e os voluntarios, reprimindo o impeto das paixões, procuravam incutir nos animos exaltados os sentimentos de humanidade compativeis com os excessos da guerra.

Quando soavam os gritos da victoria apparecia o conde de Villa-Flôr com uma porção de tropa. Enthusiasmado, o conde abraçava o quartel-mestre-general — Balthazar d'Almeida. Este dizia-lhe:

"A batalha, general, está ganha, é de V. Ex.a. Os prisioneiros são immensos!"

O conde de Villa-Flôr entrava no campo. A esquadra tentou um segundo desembarque. Não chegou, porém, a effectual-o.

Vista da Villa da Praia no memoravel dia 11 de Agosto de 1829.
História dos Açores

A primeira lancha, apanhada por uma granada, virou com 120 granadeiros, bellissimos homens, dos quaes rarissimos se salvaram.

Á segunda suceedeu o mesmo; a terceira virou-se com o tumulto em que se pozeram os soldados: as outras recuaram, abrigando-se com a nau e as fragatas que as tinham protegido com toda a sua artilheria.

O terror panico apossou-se do animo dos assaltantes. A acção, para elles, estava completamente perdida. Receiando o effeito da artilheria grossa e das granadas, que tinham vindo com o reforço do conde de Villa-Flôr, a nau levantou com os outros navios, vendo-se obrigada a picar a amarra e deixar por mão as correntes.

Uma banda inteira foi a sua ultima despedida. É singular, contra 22 vasos de guerra, incluindo uma nau, trez fragatas, duas corvetas, einco charruas, quatro brigues; tendo da brigada e tripulação 2224 homens, de desembarque 3424; gente aguerrida, robusta, bem disciplinada; levando o amor pela sua causa até o fanatismo; resistiu e venceu um punhado de voluntarios, exercito commandado por majores, e onde o governador de um forte era um simples soldado!

Planta da Villa da Praya da Victoria, 1842.
Biblioteca Nacional de Portugal

Os que acreditarem na theoria dos factos providenciaes da historia, em parte alguma podem achar melhor exemplo do que na serie de milagres (não tenho outra palavra) que se deram desde a Praia da Victoria até Almoster e Asseiceira. (1)


(1) Bulhão Pato, Paizagens, 1871

Mais informação:
Instituto Histórico da Ilha Terceira
Forte do Espírito Santo
Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia
Forte de Nossa Senhora da Luz
Forte de São José do Cabo da Praia

Leitura relacionada:
Francisco Ferreira Drummond, Annaes da Terceira, 1850
O dia 11 d'agosto de 1829, ou, A victoria da villa da Praia: poema heroico offerecido...

D. Pedro d'Alcântara:
D. Pedro d'Alcântara e Bragança, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Parques de Sintra)
D. Pedro d'Alcântara, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Google Arts & Culture)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Praia da Vitória (ou os Voluntários da Rainha em Villa da Praia) I de II

Antonio José de Souza Manoel Severim de Noronha, Conde de Villa Flôr [futuro Duque da Terceira], chegou ao porto da Villa da Praia no dia 22 de Junho de 1829, numa escuna, escapando com grande felicidade ao bloqueio.

The Schooner "Monkey".
ARTUK

Era a segunda tentativa. Os soccorros trazidos pelo general Saldanha tinham sido repellidos pelas balas do cruzeiro inglez, que pouco depois foi mandado retirar [também "Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos"]!

Procedeu-se aos trabalhos de fortificação, em que prestaram relevantes serviços — Eusebio Candido Pinheiro Furtado [Memória Histórica de Todo o Acontecido no Dia Eternamente Fausto 11 de Agosto de 1829], e Joaquim José Groot da Silva Pombo.

Adoptaram-se, com pequenas modificações, as medidas tomadas pela Junta, continuando a fortificação desde o Porto Judeu até á Villa da Praia.

A esquadra de D. Miguel, constando, ao todo, de 22 vasos: nau D. João VI, trez fragatas [Pérola, Dianna e Amazona], duas corvetas [?, Princeza Real], cinco charruas [Jaya Cardozo, Galatea, Orestes, Princeza da Beira e Princeza Real], quatro brigues [ou cinco: 13 de Maio, Infante D. Sebastião, Providência, Glória e Devina Providência], etc [força de desembarque: dois patachos, Bom-fim e Carmo e Almas; duas escunas da Graciosa e Triunfo d'Inveja, dois iates, Bom Despacho e Santa Luzia e seis barcas canhoneiras, cada uma com uma peça], trazendo a bordo 3424 homens de desembarque, e 2224 da brigada e tripulação, appareceu nos mares da Terceira, na tarde de 29 de Julho de 1829 [Annaes da Terceira — Drummond].

A Villa da Praia é atacada pela esquadra do Uzurpador, em 11 de Agosto de 1829.
Biblioteca Nacional de Portugal

Nos Açores, ainda na força da verão, não são raros os dias chuvosos e de bruma espessa. O dia 11 de agosto rompeu carregado de neblina.

Os telegraphos não podiam trabalhar. De terra não se descortinava a esquadra. Subitamente appareceu proxima á bahia de S. Matheus (a oeste) já com as lanchas fóra, fazendo signaes aos na- vios e denunciando evidentemente a intenção do ataque.

Um grande aguaceiro caiu de repente e a esquadra encobrio-se de novo.

Ás 11 horas da manhã, em seguida a uma chuva torrencial, appareceram as pontas dos mastros, por cima do cabo de Santa Catharina.

Pozição dos navios da esquadra portugueza na bahia da Villa da Praia
(Ilha 3) no combate do dia 11 d Agosto de 1829.
Biblioteca Nacional de Portugal (v. também http://purl.pt/25491/2/)

Tinha chegado a hora do combate, que vou descrever rapidamente, e apenas como um episodio.

Defendiam a bahia da Villa da Praia o batalhão de Voluntarios da rainha, commandados pelo major Menezes, e outras forças que se conservavam debaixo d'armas desde a vespera, tendo á frente o denodado quartel-mestre-general, Balthazar d'Almeida Pimentel, actual conde de Campanhã.

Fundeava a esquadra inimiga trazendo á frente a nau D. JoãoVI, ficando-lhe à esquerda as fragatas Diana, Amazona, e infante D. Sebastião. As outras embarcações em segunda linha.

Açores, Villa da Praia Ataque da 3.ª no dia 11 de Agosto de 1829.
Tenente Gualvão do Regimento dos Voluntarios da Rainha, c. 1830.
Fortalezas.org

Tudo isto lançou ferro tão proximo do terra, que não havia memoria de haverem feito outro tanto os proprios navios mercantes.

Commandava o forte do Espirito Santo, extrema esquerda, o alferes de caçadores Manuel Franco. O forte tinha trez peças, uma de calibre 18, as outras duas de 24, trez soldados de guarnição, e 8 artilheiros da costa.

O do Porto era commandado pelo válentissirno alferes de infanteria — Simão Antonio de Alhuquerque e Castro, depois capitão de caçadores 5.

Tinha uma peça, um artilheiro de linha, seis marinheiros, e a guarda composta de 4 soldados e um cabo. Vamos, que já era gente!

Faço uma relação mais circumstanciada das forças que entraram na acção, tirando-a dos — Annaes — para que se veja melhor quaes eram os recursos do partido liberal, e os prodigios que se operaram com esses escassos recursos.

O forte da Luz estava desartilhado no flanco esquerdo da bahia, de onde principiava a linha do batalhão de Voluntarios, estendida com cinco companhias, até o forte das Chagas, desartilhado tambem.

Duas barcas canhoneiras que alli havia, assim que viram a esquadra, refugiaram-se no porto. Os marinheiros portaram-se com bravura no combate. A cavallaria constava de 23 officiaes, commandados pelo capitão José de Pina Freire.

Tambem não deixava de ser um esquadrão imponente! Um punhado de academicos; mas esses estacionados nos Biscoitos, e os Voluntarios da rainha. Eis aqui as forças que estavam na Villa da Praia, quando a poderosa esquadra inimiga fundeou em linha de batalha.

Antes que a nau largasse ferro, o alferes Simão Antonio, eommandante do forte do Porto, fez-lhe um tiro de peça, matando-lhe um homem, ferindo outro, e caiisando-lhe diversas avarias a bordo.

A nau respondeu, cortezmente, mandando-lhe uma banda inteira. Travou-se o combate; cahiam chuveiros de balas.

O estrondo da artilheria era pavoroso. Os habitantes da villa julgaram-na arrasada por momentos. A esquadra, por ter fundeado muito proximo, perdeu a maior parte das balas, que se lhe encravaram na areia.

De terra, os Voluntarios da rainha, com intrepidez que tocava no delírio, sustentavam o fogo de fuzilaria sobre os navios.

Cada homem dizem que parecia um gigante, arrojado, temerario, inabalavel! Ás tres horas e meia da tarde, o chefe da esquadra, sentindo o silencio do forte do Espirito Santo, vendo as ruinas de outros, e persuadido, pelo fogo, de proposito, menos activo, que havia falta de munições, achou opportuno metter nas lanchas a sua primeira brigada, composta de 1114 granadeiros e caçadores.

Eram gente escolhida, bem postos, excellentemente fardados, disciplinados, arrojados, destemidos.

Cada um trazia noventa cartuchos, e cheio o cantil de vinho. Eram commandados por D. Gil Eannes e Azeredo, dois cabos de guerra de coragem verdadeiramente heroica.

Por entre a metralha dos seus proprios, e a chuva de balas liberaes, seguiam impavidos na empreza do desembarque.

Sobre o ponto do desembarque uma illuzão pertinaz do bravissimo major Menezes seria fatal se não acudisse o quartel-mestre-general conde de Campanhã gritando-lhe:

"O desembarque é á esquerda; mande-me mais força para supportar a infanteria."

O major Menezes persistia ainda; desenganado, finalmente, mandou tocar a unir á esquerda para sustentar as forças que soffriam o impeto do ataque. O fogo, no forte, era como á queima-roupa.

Neste conflicto horrivel notou-se a intrepidez (que tal seria l) de um granadeiro realista e de um caçador liberal.

Entre os combatentes distínguia-se tambem um rapaz de 12 annos que chorava a morte do voluntario José Caetano Alvares, amigo de seu pae, batendo-se ao mesmo tempo, como o soldado mais destro! Na subida do Facho, exposto a um risco imminente, o conde de Ficalho (hoje marquez) assumindo forças collossaes arrancava penedos e despenhava-os sobre a cabeça dos adversarios.

O major Menezes, vendo o inimigo flanqueado pelo alferes Caldas, gritava:

"Camaradas, estes cães levam-se á baioneta: armar baioneta, armar baioneta."

D'ali a pouco, no meio da horrivel carnificina, rebentavam os gritos de victoria dos soldados liberaes, gritos que descoroçoavam os assaltantes, e iam levar o terror á guarnição da esquadra. D. Gil Eannes e Azeredo tinham cahido no campo como dois heroes.

O espectaculo era horroroso! Centenares de infelizes soldados realistas saíam das ondas, onde luctavam com a morte, e, agarrando-se aos rochedos, eram atravessados pelas baionetas dos soldados liberaes.

Nestes extremos, os desventurados imploravam a vida aos vencedores, e os officiaes e os voluntarios, reprimindo o impeto das paixões, procuravam incutir nos animos exaltados os sentimentos de humanidade compativeis com os excessos da guerra.

Quando soavam os gritos da victoria apparecia o conde de Villa-Flôr com uma porção de tropa. Enthusiasmado, o conde abraçava o quartel-mestre-general — Balthazar d'Almeida. Este dizia-lhe:

"A batalha, general, está ganha, é de V. Ex.a. Os prisioneiros são immensos!"

O conde de Villa-Flôr entrava no campo. A esquadra tentou um segundo desembarque. Não chegou, porém, a effectual-o.

Batalha da Praia da Vitória, 1829.
Parques de Sintra

A primeira lancha, apanhada por uma granada, virou com 120 granadeiros, bellissimos homens, dos quaes rarissimos se salvaram.

Á segunda suceedeu o mesmo; a terceira virou-se com o tumulto em que se pozeram os soldados: as outras recuaram, abrigando-se com a nau e as fragatas que as tinham protegido com toda a sua artilheria.

O terror panico apossou-se do animo dos assaltantes. A acção, para elles, estava completamente perdida. Receiando o effeito da artilheria grossa e das granadas, que tinham vindo com o reforço do conde de Villa-Flôr, a nau levantou com os outros navios, vendo-se obrigada a picar a amarra e deixar por mão as correntes.

Uma banda inteira foi a sua ultima despedida. É singular, contra 22 vasos de guerra, incluindo uma nau, trez fragatas, duas corvetas, einco charruas, quatro brigues; tendo da brigada e tripulação 2224 homens, de desembarque 3424; gente aguerrida, robusta, bem disciplinada; levando o amor pela sua causa até o fanatismo; resistiu e venceu um punhado de voluntarios, exercito commandado por majores, e onde o governador de um forte era um simples soldado!

Terceira, Henry Warren, Edward Finden.
Meister Drucke

Os que acreditarem na theoria dos factos providenciaes da historia, em parte alguma podem achar melhor exemplo do que na serie de milagres (não tenho outra palavra) que se deram desde a Praia da Victoria até Almoster e Asseiceira. (1)


(1) Bulhão Pato, Paizagens, 1871

Mais informação:
Instituto Histórico da Ilha Terceira
Forte do Espírito Santo
Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia
Forte de Nossa Senhora da Luz
Forte de São José do Cabo da Praia

Leitura relacionada:
Francisco Ferreira Drummond, Annaes da Terceira, 1850
O dia 11 d'agosto de 1829, ou, A victoria da villa da Praia: poema heroico offerecido...

D. Pedro d'Alcântara:
D. Pedro d'Alcântara e Bragança, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Parques de Sintra)
D. Pedro d'Alcântara, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Google Arts & Culture)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Batalha do Cabo de S. Vicente (5 de julho de 1833)

O inimigo conservava-se em linha cerrada,  e reservou o seu fogo até nos acharmos bem a tiro de fuzil; a Fragata hissou então um signal, que supposémos ser a pedir licença para romper o fogo: o momento era critico, e todos nós o conheciamos.

Battle of Cape St. Vincent of 1833.
A squadron of Portuguese frigates commanded by British Admiral Napier on behalf of the Queen Maria Liberal faction defeated King Miguel’s Absolutist squadron, in the Portuguese Civil War
The Westphalian Post

Apenas a Náo hissou o seu signal em reposta ao da Fragata, rompêo esta a sua banda , o que foi instantaneamente seguido por toda a esquadra, á excepção da D. João que só nos podia chegar com os seus guarda-lémes. Pobre Rainha! 

Eu olhei para cima, esperando ver todos os mastros ao vai-vem; mas a flâmula tremulava no tope, é não obstante o mais tremendo fogo que jamais tinha presenceado, que fazia borbulhar o mar que nos rodeava, como um caldeirão a ferver, o fumo tendo-se dissipado, descobrio aos Miguelistas assombrados a Fragata Rainha, altivamente fluctuando sobre as aguas de Nelsone Sáo-Vicente, com os mastros, a prumo, mostrando unicamente na sua enxárcia e panno a prova do fogo que tinha experimentado (The fiery ordeal she had gone through).

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

As guarnições estavão apostos, poucos forão mortos ou feridos no convéz, porém as três peças de proa sobre o tombadilho ficarão quasi sem guarnição, e o Tenente Nivett, da Marniha, ficou mortalmente fendo.

A este tempo ainda nós não tinhamos dado um só tiro, e ordenei então que se fizessem alguns sobre o inimigo, para evitar quanto fosse possivel que este decizivamenté escolhesse um ponto d'ataque. 

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

O nosso exemplo foi seguido pela D. Pedro, e depressa passámos pela Fragata, e Martim de Freitas, perdendo este ultimo o seu mastaréo de velaxo. 

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

A Náo de Linha da retaguarda mettêo então de ló, nós arribámos para evitar uma banda das suas baterias, e a D. João orçou toda, demandando o seu travéz com o intuito de nos collocar entre os fogos crusados das duas Náos.

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

Isto era exactamente o que eu desejava, porque esta se achava nmito sotiventeada para poder retomar uma posição a barlavento; mettênios instantímeamente o léme de ló.

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

A Fragata obedeceo ao léme, quasi roçando a popa da Náo Rainha coin o páo da giba; disparárão-se-lhe os cachorros, e mais peças de proa, carregados até á boca de bala rasa e metralha; alliviou-se então o léme, e corremos a prolongar-nos com a Náo debaixo de um fogo activíssimo, que deitou abaixo o meu Secretario, o Mestre, e muita gente. 

Ambos os Navios ficarão atracados crusando as vergas e velas grandes, e o Chefe de Divisão Wilkinson, e o Capitão Carlos Napier, commandando a gente d'abordagem saltarão de cima das ancoras para a amurada da Náo, e levarão adiante de si aquella parte da guarnição ao longo dos bailéos de bombordo. 

Batalha do Cabo de S. Vicente em 1833, Morel-Fatio.
Imagem: Wikipédia

Eu não tinha tenção de ser um dos da abordagem, tendo bastante que fazer em to- mar cuidado na esquadra , porém o impulso éra demasiadamente forte, eachei-nie, quasi sem saber como, em cima do Castello-de-prôa da Náo, accompanhado de um ou dois Officiaes. 

Alli fiz pausa, até que saltando mais gente dentro do Navio, corremos para ré dando um grande: Viva! — e ou passámos pelo meio, ou repellimos pela escotilha grande abaixo, uma partida dos inimigos.

Almirante Charles Napier por John Simpson, após 1834.
Parques de Sintra

N'este momento recebi um severo golpe com um pé-de-cabra, cujo dono não escapou a salvo, e o pobre Macdonough, cahio a meu lado traspassado por uma bala de fuzil; Barreiros, Commandante da Náo, apresentou-se na minha frente, ferido no rosto, e batendo-se como um tigre. 

Era um homem valente; eu lhe salvei a vida. Veio depois o 2.° Commandanle, e atirou-me uma tào boa cutilada, que nao tive coração para lhe fazer mal; também ficou salvo. Barreiros pegou outra vez em armas, e a final foi morto na Camara. 

O Chefe de Divisão, e o Capitão Carlos Napier, depois de terem levado adiante de si huma multidão d'inimigos, cahirão pelo lado de bombordo do tombadilho da Náo, gravemente feridos; o primeiro com difficuldade poude tornar para dentro da Fragata, o ultimo, perdendo os sentidos, jazêo por algum tempo sobre o tombadilho, até que as vozes dos amigos, que vinhão em seu soccorro, o fizerão tornar a si. 

Charles John Napier.
Royal Museums Greenwich

Estávamos já senhores da tolda, mas a carnagem continuava ainda, a pezar dos esforços dos Officiaes para a terminar.

A primeira e segunda coberta ainda senão tinhão rendido; e quando a Fragata D. Pedro se dispunha para a abordagem, ambos os Navios fizerão fogo. 

Fallei pelo porta-voz ao Capitão Goble para que não continuasse, pois já estávamos senhores do convéz, e para que desse caça á Náo D. João, que se tmha feito ao largo; n'este mesmo momento um tiro disparado da segunda coberta o ferio mortalmente , e dentro de poucos minutos já não existia.

O Tenente Edmunds, e Wooldridge saltarão abaixo com um troço de gente; apoderárão-se da coberta, mas ambos cahirão feridos mortalmente. 

Dentro em poucos minutos tudo estava tranquiilo; a ultima coberta tinha-se rendido, e muitos dos marinheiros Portuguezes saltarão para cima da tolda para salvar-se, trazendo, tiras de lona branca nos braços esquerdos, tendo descoberto que esse era o distinctivo que a nossa gente trazia ao abordar.

Plano de Ataque, Batalha do Cabo de S. Vicente, 5 de julho de 1833.
Internet Archive

Outros poderão passar para bordo do meu Navio, entre estes alguns rapazes, que se souberão introduzir na praça d'armas (gun-roorn), e se empregarão em alimpar vidros. 

A gente teve então ordem de voltar para bordo da Fragata Rainha, á excepção dos que forão nomeados para ficar, e n'esta confusão, separarão-se os dois Navios, deixando-me a bordo da Preza. Com tudo não tardou muito que eu me não achasse a bordo da Fragata Almirante. 

Posição ao dar a Abordagem, Batalha do Cabo de S. Vicente, 5 de julho de 1833.
Internet Archive

Mettêo-se um velaxo novo, porque o outro estava despedaçado; a vela grande também se achava inutilisada, e estávamos no acto de mettêr outra, fizemos força de vela, e rapidamente nos hiamos aproximando da Náo D. João, achando-se a D. Pedro ainda mais perto d'ella, quando, vendo que não havia meio de evitar o combate, mettêo de ló, e arriou bandeira. 

Dei ordem á D. Pedro para tomar posse da Náo, e dei caça ao Martim de Freitas, cuja força era mui desproporcionada á da Portuense (cujo commandaate, Blackstone, foi ferido mortalmente), e o Villa-FIòr; e ainda que tinha recebido consideráveis avarias, hia-se arrastando, fazendo força de vela: mas ás déz horas estava em meu poder. 

A Corveta Princeza Real, passando a travéz de um dos Vapores, rendêo-se tambem. Pouco tempo depois estava eu prolongado com a Náo Rainha. 

O Capitão Peak, da D. Maria, passou pela popa da Fragata de cincoenta, prolongou-se com ella, orçou toda, e depois de algumas bandas, mettêo o gorupéz por entre a enxárcia da gata, e a tomou corajosamente.

Posição depois do Combate, Batalha do Cabo de S. Vicente, 5 de julho de 1833.
Internet Archive

Assim terminou a Acção de 5 de Julho, deixando em nosso poder duas Náos de Linha, cada uma das quaes montava oitenta e seis peças, incluindo quatro de quarenta e oito para disparar bombas; uma Fragata de cincoenta, um Navio de cincoenta peças, e uma Curveta de dezoito.

Escaparão duas Curvetas e dois Brigues; as duas primeiras chegarão a salvo a Lièboa; um Brigue reunio-se- nos no dia seguinte, e o outro foi ter á Ilha da Madeira. 

O inimigo estava amplamente provido de toda a sorte de petrechos de guerra, e montava guarda-lémes, alem das suas completas baterias. 

Sir Charles Napier's Victory off Cape St Vincent while in the Portuguese Service under Admiral de Ponza.
Art.com

A perda da Esquadra andou por uns noventa mortos e feridos. O inimigo perdeo de dozentos a trezentos homens. (1)


(1) Charles Napier (trad. Manoel Codina), Guerra da successão em Portugal, Lisboa, 1841

Tema:
Guerras Liberais

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Bernardo de Sá Nogueira (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira

Desde muito moço vivi com homens dos mais notáveis da guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel. Os acontecimentos estavam próximos ainda; vivas e sangrando, feridas de todo o género nos contendores de ambos os campos; mas em espiritos elevados as paixões haviam serenado.

General Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira.
Imagem: Academia Militar

Das narrativas que ouvi aos parciaes dos dois lados me veia poder firmar linhas physionomicas de personagens que representaram na scena politica de uma epocha cuja historia, apesar de haver volumes sobre ella, ainda se não escreveu.

Para mim, de todos os homens do cerco do Porto, o mais heróico é Bernardo de Sá Nogueira, marquez de Sá.

A ultima vez que o vi jantámos juntos. Foi no dia 4 de agosto de 1873, em Cintra, em casa dos duques de Palmella. Fazia annos a sr.a duqueza.

Maria Luísa de Sousa Holstein (1841-1909) 3a Duquesa de Palmela.
Imagem: Geni

O velho soldado e grande cidadão fora saudar a nobilíssima fidalga, que allia, ao talento artístico, a flor mais perfumada de educação, e o dote de captivar quantos a conhecem, pelo poder irresistível e supremo da sympathia. Marquez de Sá prezava, havia muito, as qualidades moraes de finíssima tempera de António de Sampaio, duque de Palmella.

Algumas horas antes de jantar, no parque da casa de campo dos duques, marquez de Sá, marquez de Sabugosa, e eu, conversámos, ou antes, nós dois ouvimos o deus Marte da serra do Pilar, que, apesar de manco, tantas vezes acutilado, uma vez quasi enterrado vivo, e já próximo dos 80, parecia ter o animo e vigor da mocidade. Contou algumas anecdotas engraçadas, e, como prologo, disse:

"Agora, quando vejo nos jornaes noticia de coisa triste, não leio."

Estas palavras tão simples deram-me mais uma nota das cordas d'aquelle coração.

O homem que presenceara tragedias pavorosas; que elle próprio curtira dores cruelissimas de todo o género; a dois passos do tumulo, ainda se commovia com os infortúnios alheios!

Busto em màrmore do Marquês de Sá da Bandeira (c. 1870), inaugurado na Sociedade de Geografia de LIsboa em 1909, detalhe de fotografia de Francesco Rocchini tomada no atelier da 3a Duquesa de Palmela Maria Luísa de Sousa Holstein.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Falou também do cerco do Porto, narrando grandes actos de abnegação e intrepidez, que lá se praticaram, sem por sombras alludir ao seu nome. E foi no Porto, depois do funesto desbarato da Gandra de Souto Redondo, que elle praticou uma acção, que adeante referirei, acção que não tem rival vencedora nas mais nobres da historia.

Simão José da Luz Soriano narra o facto com a sua chateza habitual. Eu ouvio-o da bôcca dos homens d'aquelle tempo, e nenhum o contava sem commoção.

O auctor do cerco do Porto, trabalhador incansável, honra lhe seja, dá a noticia exacta e impreterível para a historia d'aquella epocha; foi testemunha de muitas scenas; é sincero, mas não vê senão a superfície das coisas; desconhece os homens ou não tem olhos para os observar ou está longe dos meneios diplomáticos; não falseia, mas amesquinha actos de heroicidade, ou porque os não comprehende, ou porque lhe são antipathicos aquelles que os praticaram; respira no circulo estreito dos seus parciaes [v. História do cerco do Porto... vol. I e História do cerco do Porto... vol. II]

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

A falta de recursos como escriptor, ora o leva á confusão e obscuridade, ora a infatuar, sem intenção malévola, a verdade das coisas. 

Saldanha, cujos defeitos como politico por tantas vezes temos censurado no decurso d'estas "Memorias", teve no Porto esses defeitos, que lhe estavam no sangue e o acompanharam até á morte, mas representou um papel eminente e brilhantíssimo, desde a defesa da "Frecha dos mortos", até que abateu os lauréis orgulhosos da vencedor de Argel.

Luz Soriano acurta-lhe a estatura.

De Mousinho da Silveira, alma da revolução, como não pôde encarar o minimo relâmpago d'aquelle cérebro genial, diz, inconscientemente, o que diria um gazetilheiro, d'esses a que os francezes appellidara de "fulicularios", assalariado para o insultar.

Palmella é também injustamente apreciado. Faz pena que um escriptor brilhante, que já não vive, deixasse correr, propositadamente, os juizos fúteis, acanhados, e por vezes empeçonhados, do animo miudinho e cabeça apoucada de Simão Soriano.

Varias injustiças do auctor do cerco do Porto já estão corrigidas, pela rispidez dos factos, em algumas correspondências diplomáticas, na "Historia das Côrtes Geraes", e ainda nos volumes de J. da Silva Carvalho, "O meu tempo", importantíssima collecção de documentos para a historia politica d'este século em Portugal, publicados e annotados por seu neto, A. Vianna.

Antes de narrarmos os factos mais importantes da vida do marquez de Sá, dêmos, em dois traços apenas, a biographia do aventureiro soldado.

Tinha mais seis annos do que o século (1795); aos quinze sentava praça no regimento de cavallaria 11. Até 1814 bateu-se sempre. N'esse anno (13 de março), explorando a estrada de Tarbes, é envolvido pelo inimigo, acutilado, cae por morto no campo de Vielle, passa-lhe por cima um esquadrão. Prisioneiro dos francezes, restabelece-se, mas fica surdo para o resto da vida.

Termina a guerra, embainha a espada, matricula-se em Coimbra, fórma-se em mathematica. É uma linha recta no caminho da honra, aquella vida!

De 1826 a 1827 bate-se sempre. Em 1828 continua a combater. Rejeita o camarote no Belfast, offerecido pelo duque de Palmella, para salvar da forca a cabeça de Cesar Vasconcellos e levar os seus soldados até á Galliza.

Pedro de Sousa Holstein, 1° Duque de Palmela, por Domingos Sequeira.
Imagem: Wikipédia

Essa retirada foi digna de ser escripta pelo punho de Thucydides.

Em Hespanha dá-se o celebre dialogo entre elle e o façanhoso official.

Soriano narra o facto; mas eu prefiro a versão das "Lendas de Santarém", do meu velho amigo Zeferino Brandão, por apresentar testemunha de grande valor.

Haverá bastantes leitores que não conheçam este passo.

O coronel de milícias hespanhol, D. Manuel Ignacio Pereira, á frente da sua tropa, tratou com grande rudeza Bernardo de Sá. Este, sereno, queixou-se de que tivessem feito fogo sobre o seu acampamento.

— Eso merecen ustedes, replicou o hespanhol, porque son ustedes rebeldes y criminosos.
— Rebeldes y criminosos son esos que os siguen, atalhou Sá Nogueira.
— Y se atreve v. a hablarme com esa altaneria?
— Yo le hablo a v. de la misma manera que V. me habla.
— V. me habla asi en cuanto no le cuerto la cabeza.
— Y V. me habla asi porque no tengo mi espada a mi lado.

O coronel arrancou da espada e mandou calar baioneta aos soldados. Bernardo de Sá cruzou os braços, e disse-lhe com o máximo desprezo:

— Es una cosa gloriosa el sacar la espada contra un hombre desarmado!

Os officiaes hespanhoes tiveram mão no covarde sanguinário, clamando-lhe que não deshonrasse o exercito do seu paiz com um infame assassínio.

A testemunha presencial, que o meu amigo Zeferino Brandão teve para a sua narrativa, foi, nem mais, nem menos, de que o marquez de Thomar, em cuja casa Zeferino era recebido pelo marquez e seu filho, actual conde de Thomar [vivia quando isto se escreveu].

Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos.

Ambos haviam partido de Inglaterra n'um brigue que devia deital-os na Ilha Terceira. A principal carga do barco era carvão de pedra. O commandane, excellente homem, prevendo algum mau encontro, mandou abrir no carvão uma cova, onde coubessem, a custo, dois homens. Não mentira o coração presago do solicito lobo do mar.

Quando faziam proa para a Angra, o cruzeiro miguelista cahiu sobre o brigue, julgando-o boa presa. Bernardo de Sá e o irmão foram para a sua cova. Não podiam mover-se, nem sequer levantar a cabeça. Treva profunda! Correram oito dias esplendidos para o tenebroso "Inferno" de Dante!

Ancorados em S. Miguel, o brigue ia ser descarregado. José de Sá, bravo como um cavalleiro andante, disse para o irmão:

— Se fôr descoberto atiro -me ao mar.

— O peor que te pôde succeder, observou-lhe Bernardo de Sá, é enforcarem-te. Não vejo necessidade de poupares esse trabalho ao incumbido da execução.

Estavam perdidos, quando a Providencia, encarnada n'um homem de coração, o cônsul inglez William Harding Read, pae do meu querido amigo Guilherme Read Cabral, com auxilio do bravo capitão, os salvou.

Quando comecei a gizar as feições do marquez de Sá referi-me a um acto da sua vida, dizendo que não conhecia no sangue frio e na abnegação nenhum mais elevado. Vou narral-o como o ouvi da bôcca dos homens d'aquelle tempo. O facto, em si, é notório. A noticia de Soriano, exacta no fundo, é contada a seu modo, e isso basta para lhe tirar toda a elevação.

Álvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Povoas era um general; cabeça bem organisada e fecunda em planos. Os exaltados do partido absolutista não podiam com elle, porque em 1828, pela sua humanidade, não levara os vencidos á forca. 

Deviam de ter sido, n'esse momento, pavorosos os morticínios da vindicta sanhuda e cruel dos vencedores, que tinham como sinistra inspiradora Carlota Joaquina, mulher radicalmente má. Todavia Povoas impunha-se-Ihes, como agora se diz, a torto e a direito, quasi sempre a torto, pela sua incontestável superioridade.

Conde de Villa-Flôr, depois duque da Terceira, valente como leão, não tinha nem a prudência, nem o alcance impreteriveis nos cabos de guerra.

No dia 7 de agosto (1832) atacou o inimigo, e na primeira refrega levou-o de vencida. O coronel do 10, Pacheco, que, segundo a opinião dos homens como Saldanha, tinha capacidade para vir a ser general de primeira ordem, receando do modo por que Villa-Flôr dispuzera as coisas, poz em reserva o seu regimento. Essa previsão fez com que lograsse cobrir a retirada desordenada e medonha. 

Os constitucionaes avançaram com a intrepidez desenganada de homens que jogam a cabeça. Ás 11 da manhã o imperador recebia participação auspiciando a victoria como certa. De facto, nas primeiras arrancadas, os soldados do Mindello levavam a melhor. Povoas, porém, era homem de guerra e conseguiu attrahir os aggressores á própria Gandra de Souto Redondo.

O ataque fora desastradamente planeado. Povoas, n'um movimento acertado e rápido, mandou carregar á baioneta o regimento de infanteria de Bragança, gente escolhida, flanqueado pela cavallaria. Os constitucionaes foram como apanhados de improviso e em linha.

Começou o pânico, que o grito de alarma de um capitão de caçadores converteu em completa debandada. Então o coronel Pacheco, cobrindo a retirada, salvou o Porto, que esteve por um fio n'esse dia!

D. Pedro IV, no seu palácio dos Carrancas, depois da participação que de manhã recebera, esfregava as mãos, tendo a victoria como certa.

Bernardo de Sá estava com elle, quando o marquez de Loulé chegou de improviso. O marquez vinha extremamente pallido, e, apesar do seu caracter frio, tão commovido que nos primeiros momentos não poude proferir palavra.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

D. Nuno José Severo de Mendoça Rolim de Moura Barreto, 24,° senhor da Azambuja, 3.° conde da Azambuja, 9.° conde de Valle de Reis, 2° marquez de Loulé e 1.° duque de Loulé, casara com uma irmã do imperador, a infanta D. Anna de Jesus Maria.

Na epocha a que nos referimos tinha os annos incompletos e era tal belleza de homem que na Grécia poderia servir de modelo a um estatuário genial! Quando entrou a tomar alentos, narrou o funesto desbarato. Fora completo. Povoas perseguia os fugitivos e a entrada na cidade parecia inevitável.

O imperador, incontestavelmente bravo, tremia como vara verde. Então ergueu-se Bernardo de Sá e disse para D. Pedro:

"Senhor, Povoas é um general. Basta que mande dois esquadrões carregar o inimigo para apossar-se do alto da Bandeira, tomar a vanguarda aos fugitivos e aprisionar desde o general ao ultimo soldado. No aperto em que estamos é preciso, único recurso, que Vossa Magestade, com toda a gente que temos no Porto, embarque nos navios que ahi estão. A difficuldade consiste em realisar o embarque em presença do inimigo triumphante; mas para o defender me offereço eu, dando-me Vossa Magestade trezentos homens escolhidos."

— E o Bernardo de Sá? disse o imperador enfiado.
— Isso é commigo, senhor, respondeu serenamente aquelle intrépido coração!

Era com elle, coitado, era... que o fuzilavam em 24 horas, se o não enforcassem!

O duque de Bragança, altivo, mas generoso, não poude conter as lagrimas que lhe rebentaram dos olhos aos borbotões, e, apertando a mão de Bernardo de Sá, disse-lhe:

— Obrigado, meu amigo!

D. Pedro afivelou o cinturão e, sahiu com os que tinha em volta de si. Povoas, como que não querendo acreditar na demasiada fortuna ou arreceando-se de alguma cilada, ou finalmente por outros motivos que ficaram sempre na sombra, não perseguiu os fugitivos, cuja retirada, com prudência e valor excepcionaes, ia protegendo Pacheco, á frente do 10 de infanteria, regimento que nos humbraes de pedra da porta do seu quartel da Graça tinha gravadas as gloriosas datas dos seus repetidos feitos. 

Quando já levantado o cerco, cahiu com uma bala perdida, que lhe deu na cabeça, o laureado coronel.

Desastrado e obscuro fim de tão brilhante soldado!

Vista da Serra do Pilar.Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia 8 de setembro, no Alto da Bandeira, Bernardo de Sá teve o braço direito partido por uma bala. Continuou a combater. Durante a amputação não soltou um gemido. Vinte dias depois montava a cavallo, e o braço esquerdo não brandia a espada com menos valor.

Proseguiu na carreira coruscante. Por vezes applicou rigorosos castigos, sempre com a máxima justiça. Habituado desde os quinze annos ao campo das batalhas, via impassivel medonhas carnificinas. Não raro, nos arrebatamentos da sua terrível valentia, era temerário cruel como o foi na serra do Algarve; mas tinha coração profundamente humano. 

Em 1838, sendo presidente de ministros, dia de Corpo de Deus, defendia a porta de escada onde se haviam refugiado José da Silva Carvalho e António Bernardo da Costa Cabral. Um sicário atirou-lhe uma baionetada ao peito: a commenda da Torre e Espada serviu-lhe de broquel. Correram sobre o assassino, para o acabar. Sá da Bandeira acudiu-lhe, bradando:
— Larguem esse homem, que não foi elle. 

Na revolução da Maria da Fonte, em Valle Passos, Bernardo de Sá mandou entrar em fogo um regimento:

— "Passou-se para o inimigo."
Ordenou que outro carregasse: 
— "Passou-se para o inimigo." Restava o terceiro.
— "Que avance."
— "Passou-se para o inimigo."

— "Então vamo-nos embora, meus senhores."

Não sei commentar. Esta simplicidade seria para o pulso de Shakespeare dar o ultimo toque no retrato de um estóico, quando o estóico fosse um heroe!

Ao terminarem com a Regeneração as luctas civis, que foram como constante resaca dos mares da revolução liberal, os olhos do marquez de Sá — continuaremos agora a dar-lhe este titulo, comquanto o não tivesse ao tempo — voltaram-se para a Africa. 

Chamaram-lhe visionário, já se vê. A inveja, que se dá em todo o terreno, mas que feracissimo o encontra na mediocridade, appellidava-o de utopista, testudo e allucinado. A geração que lhe suecedeu saudou-lhe a profícua iniciativa, e ahi estão hoje os aventureiros das armas e os do commercio, não menos úteis e valorosos estes, a perlustrajr essas regiões, que se o nosso temperamento não levar o amor pela Africa até á cegueira, principalmente com jactâncias fumosas de dominação, nos promettem largo e prospero futuro.

Sorriam-lhe a alma e os olhos ao marquez de Sá quando lhe falavam nas colónias. Essa paixão o distrahia da triste preoccupação que lhe dava o caminho que as coisas iam levando. 

Emquanto viveu D. Pedro V, o marquez não desanimou. Votava-lhe, com a admiração, affecto paternal. O nobre e sympathico príncipe pagava-lhe com egual extremo.

Quando o marquez de Sá, sendo ministro, cahiu gravemente enfermo (1859), D. Pedro V firmou-lhe n'uma carta singular a ultima consideração que tributava áquelle que offerecera a vida para salvar seu avô. A carta é conhecida; muitos haverá, porém, que a não lessem, e tem cabido logar n'estas paginas.

"Meu caro visconde. 

— Recebi, por seu irmão, a carta em que me participa a impossibilidade absoluta de continuar a gerir os negócios das duas repartições, que lhe commetti com uma confiança que nunca foi trahida.

Transmitto-a ao marquez de Loulé, que me proporá o meio de sahir do embaraço em que vem collocal-o a declaração official de um facto que o visconde se pode honrar de que não influísse, tanto quanto era natural, na marcha dos negocios.

Ao acceitar a resignação de um poder, que eu não podia desejar em mãos nem mais fieis, nem mais votadas ao bem do paiz e á honra do soberano, seja-me permittido exprimir-lhe, e sinceramente, o dobrado pezar que tenho do facto e das causas que o determinam.

Nos três annos que servimos juntos, divergimos algumas vezes de opinião: fizemol-o como devem fazêl-o um soberano e um ministro constitucionaes; quer dizer, discutindo livremente, e sem nos entrincheirarmos, como muitos fazem, atraz da nossa auctoridade, ou das formulas particulares da nossa diversíssima responsabilidade. Nunca abrimos, pelo menos todas as minhas lembranças me levam a crêl-o, nenhuma d'essas feridas da alma que se dissimulam e não se esquecem.

Retrato do rei D. Pedro V em 1859.
Imagem: Histórias com História

Por isso nos despedimos com eguaes sentimentos, e quer-me parecer que com pezar egual.

É que o visconde conservava no poder todas as excellencias, e, deixe-me dizer, toda a originalidade do seu caracter, toda a desprevenção da sua intelligencia. Foi ministro e nunca foi ministro. Resta-me ao lado do sentimento da perda, e da difficuldade da substituição, a confiança de que a desoneração de um trabalho, que ajudava a extenuar-lhe as forças, pode contribuir para o seu restabelecimento.

Acompanham-o na sua ausência estes votos, os quaes conto renovar-lhe pessoalmente antes da sua partida.

Creia-me, meu caro visconde, seu muito affeiçoado.

— D. Pedro V.

Lisboa, 12 de março de 1859."

Tinha 22 annos quando escrevia esta carta, que, além da elevação do pensar e sentir, tem a forma onde ha períodos que, pela concisão elegante, parecem de A. Herculano.

A 6 de janeiro de 1876 morria o marquez de Sá.

Lisboa, Praça de D. Luiz e monumento ao Marquez de Sá da Bandeira, c. 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fui incumbido pela Segunda classe da Academia Real das Sciencias de represental-a no enterro do exemplar e austero cidadão.
Em Santa Apolónia encontrei-me com o marquez de Sabugosa. Estava um dos nossos dias de inverno deslumbradores. Se podessemos vender alguns d'esses dias, por anno, á nevoenta cidade de Londres, em breve teríamos os inglezes como nossos submissos devedores!

Quando chegámos á estação de Santarém demos logo com Alexandre Herculano, que lhe transpareceu no rosto a satisfação de nos ver.

Estava commovido. Havia muitos annos era intimo do marquez de Sá.

Jardim da Praça Dom Luís e monumento ao Marquês de Sá da Bandeira, fotografia de Paulo Guedes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Sobre a tarde, á sombra da nogueira que plantara e onde a Nympha de Ovidio soltaria dolorosos carmes, ia descançar finalmente o lidador aventureiro. Cahia o sol, atirando as frechas no occaso por aquella paizagem encantadora, onde os freixos rumorosos e frondeados são dos mais bellos da Europa, e o rio corta a campina, divertindo os seus regatos crystallinos pelas hortas e pomares.

Era já muito noite quando chegámos a Valle de Lobos. O jantar correu pouco animado. Herculano olhava pensativo para a labareda serena e azulada dos toros de oliveira que ardiam no fogão. 

Depois animou-se, e falando sobre o marquez de Sá e sobre a historia da nossa vida politica e social, no percurso dos últimos quarenta annos, esteve grandioso, porque Herculano, não tendo peito para orador nos grandes auditórios, era soberbo, e era certo género sem rival, na conversação intima.


Pouco mais de anno e meio depois, n'aquella mesma casa, o marquez de Sabugosa e eu viamos apagar-se a luz faiscante e guiadora que nos illuminara nos dias alegres e fecundos da nossa mocidade! (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907

Leitura relacionada:
Resenha das familias titulares do reino de Portugal, Lisboa, IN, 1838
Marquês de Sá da Bandeira e o seu Tempo
André do Canto e Castro, Marquês de Sá da Bandeira..., Lisboa, E. E. Carvalho & Cia., 1876
Luz Soriano, Vida do marquez de Sá da Bandeira... Tomo II, 1888
Luz Soriano, História do cerco do Porto... vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1846
Luz Soriano, História do cerco do Porto... vol. II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1849
Henrique Barros Gomes, O monumento do general marquez de Sá da Bandeira...,, 1884

Obra escrita pelo Marquês de Sá da Bandeira:
Visconde de Sá da Bandeira, O trafico da escravatura, e o bill de lord Palmerston, 1840
Viscount de Sá da Bandeira, The slave trade and Lord Palmerston's bill, 1840
Marquez de Sá da Bandeira, Memoria sobre as fortificações de Lisboa, Lisboa, IN, 1866